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Foto: Domínio Público

Belicismo norte-americano enquanto Trump brinca com fogo no Oriente Médio

Recentemente, estiveram voando faíscas entre o governo dos EUA e o regime iraniano. O presidente dos EUA, Trump, ordenou ataques de mísseis sobre o Irã, mas, em seguida, os cancelou abruptamente. O incidente foi o pico (até esse ponto) de semanas de tensões entre os dois governos. O ataque foi abortado depois que o Irã derrubou um drone militar norte-americano próximo ao Estreito de Ormuz. Os EUA afirmam que o drone se encontrava em espaço aéreo internacional. As autoridades iranianas, no entanto, afirmam que o drone se encontrava dentro do espaço aéreo iraniano quando foi derrubado.

Onde quer que o drone estivesse, a pergunta principal é: o que um drone militar dos EUA estava fazendo próximo à fronteira iraniana? Independentemente de ter entrado ou não no espaço aéreo iraniano, é claro que o drone faz parte de uma missão militar totalmente não provocada, dirigida contra o Irã.

De fato, o que estão fazendo navios de guerra, porta-aviões, aviões de bombardeio e milhares de tropas dos EUA no Golfo e por todo o Oriente Médio, a milhares de quilômetros das fronteiras dos EUA? As áreas em torno do Irã estão cheias de bases militares e unidades navais dos EUA. Nos últimos meses, vários milhares de novas tropas e novos equipamentos foram adicionados a essas forças; e missões de vigilância e patrulhamento foram intensificadas numa tentativa flagrante de ameaçar o Irã. Qual seria a resposta do governo dos EUA, se o Irã, ou qualquer outra potência externa, começasse a construir bases militares no Canadá, México ou Caribe?

A elevação do tom da retórica bélica prossegue após semanas de tensões crescentes. Nas últimas semanas, quatro navios petroleiros que se encontravam na área foram alvo de explosões, todas atribuídas ao Irã pelas autoridades norte-americanas.

Além de alguns vídeos granulados, que não mostram nada, a evidência de envolvimento iraniano é muito tênue. Além do mais, um dos navios atingidos era um petroleiro japonês. O petroleiro foi atingido durante a visita do Primeiro Ministro japonês Abe à Teerã, uma visita a que os aliados dos EUA no Oriente Médio e muitos em Washington se opuseram, porque Abe estava tentando servir de mediador entre o Irã e os EUA.

Outro petroleiro que foi atingido era tripulado parcialmente por russos. Comprometer as vidas de marinheiros russos seria um sério golpe à aliança cuidadosamente construída pelo Irã com o país. Que interesse teria o regime iraniano em arriscar suas preciosas e raras relações internacionais, quando todos os seus esforços visam romper décadas de isolamento político e econômico?

Quem é o agressor?

Embora o regime iraniano tenha criticado o Ocidente em público, seu objetivo real sempre foi o de ser aceito dentro da chamada comunidade internacional. Isto é, ocupar um assento na mesa com os grandões do capitalismo mundial. A esse respeito, nos últimos anos, o regime fez o máximo que pôde para parecer confiável e seguro. Não realizou nenhum ato de provocação e se mostrou moderado diante das provocações dos EUA, de Israel e da Europa. De fato, embora os EUA e a União Europeia nunca tenham implementado totalmente o acordo nuclear com o Irã em 2005, o Irã se manteve firme em cada ponto e vírgula daquele acordo até agora, algo que foi repetidamente confirmado pela Agência Internacional de Energia Atômica. Foi apenas nas últimas semanas, depois de quatro anos de impasse, que os iranianos ameaçaram aumentar o enriquecimento de urânio além do declarado no acordo nuclear.

Enquanto isso, os EUA nunca cumpriram plenamente os termos do acordo. Pelo contrário, Trump o destruiu e reimplantou um dos mais severos regimes de sanções na história do Irã. As sanções, que são nada menos que uma guerra econômica, já estão produzindo um efeito desastroso na economia. O Rial caiu mais de 60% em comparação ao ano passado. Vários produtos importados estão sumindo e a inflação está subindo. De acordo com as cifras oficiais, que subestimam pesadamente a inflação real, os preços da carne subiram mais de 60%, dos ovos e produtos lácteos em cerca de 40%, os vegetais em 50% e os aluguéis e remédios em torno de 20%. Isso vem no auge de anos e anos de inflação e de corrosão do poder de compra das massas trabalhadoras, causados em grande extensão por décadas do regime de sanções imposto ao país pelos EUA.

Baseando-se nos relatos da mídia ocidental, pode-se pensar que o regime iraniano incendiou toda a região. Os EUA e seus aliados estão tentando retratar o Irã como agressor na região, mas os fatos revelam outro quadro. Por mais que se queira torcer e retorcer, o Irã não atacou nenhum outro país nos tempos modernos. Mas, além do cerco econômico contra o Irã, os EUA realizaram duas guerras desastrosas contra dois vizinhos do Irã – o Iraque e o Afeganistão – levando à morte de mais de um milhão de pessoas e destroçando a vida de outros milhões durante gerações. Também na Síria, foram os EUA, junto com seus aliados ocidentais, as monarquias do Golfo, a Turquia e a Jordânia, que sequestraram a revolução síria e desencadearam uma guerra sectária para derrubar Bashar Al-Assad. A destruição na Síria vai amargurar a vida do povo sírio durante décadas.

Ao mesmo tempo, os EUA e a Grã-Bretanha têm apoiado a guerra bárbara dos sauditas contra o povo do Iêmen, que matou dezenas de milhares e deixou milhões de pessoas famintas. Como fizeram no Iêmen, os sauditas estão agora apoiando as mesmas forças mercenárias sudanesas – em sua maioria crianças-soldados – a estuprar e matar revolucionários no Sudão.

E, é claro, há o regime israelense, que oprime violentamente os palestinos durante gerações, bombardeando-os e matando-os à vontade. Também atacou o Líbano em várias ocasiões e, recentemente, realizou ataques contra alvos na Síria.

O objetivo do regime iraniano é provar que pode ser um parceiro confiável do Ocidente no Oriente Médio – desde que o Ocidente aceite a influência iraniana na região e não tente minar o seu domínio em casa. O regime iraniano está buscando um acordo com o Ocidente, em particular para atrair investimentos. Uma escalada militar nessa etapa somente serviria para aumentar o isolamento do Irã e prejudicar ainda mais sua maltratada economia. Por que iriam arriscar tudo isso realizando ataques imprudentes contra petroleiros e aumentando as tensões no Golfo?

Quem lucra

Nessa etapa, o regime iraniano não tem nenhum interesse em realizar esse tipo de agressão. Mas há outros que têm. Não é segredo que, durante anos, os regimes na Arábia Saudita e em Israel estiveram pedindo ataques contra o Irã, que eles consideram como uma ameaça existencial.

Ao destruir o Estado e o exército iraquiano, a invasão dos EUA ao Iraque destruiu o equilíbrio de forças em todo o Oriente Médio. Não só removeu o principal freio sobre as forças armadas do Irã, como também aumentou, dramaticamente, a influência do Irã no Iraque. Também na Síria, a influência do Irã e seus aliados só aumentou, enquanto as forças apoiadas pelo Ocidente e pelos sauditas, como os grupos Hayat Tahrir al-Sham e Estado Islâmico, filiados a Al Qaeda, eram derrotados.

De fato, no que diz respeito ao Estado Islâmico (IS) – uma cria da CIA e das monarquias do Golfo – os EUA tiveram que recuar depois que o grupo se tornou uma ameaça à estabilidade de toda a região. Ao fazer isso, teve que se apoiar nas forças iranianas e curdas, colocando-se em conflito com seus tradicionais aliados sauditas e turcos. Os sauditas, por sua vez, exigiam a intervenção direta dos EUA, com tropas no terreno. Mas as guerras desastrosas no Afeganistão e no Iraque, ao custo de trilhões de dólares e de um enorme capital político, apenas para acabar em derrota, bloquearam esse caminho. Obama não pôde sequer aprovar o bombardeio da Síria no Congresso. O povo norte-americano não está interessado em guerras e qualquer aventura desse tipo levaria a movimentos de massa contra a guerra, o que desestabilizaria todo o sistema político nos EUA. O próprio Trump reconheceu este fato, fazendo da retirada do Oriente Médio uma promessa-chave de campanha.

Os regimes da Arábia Saudita e Israel tem chamado pro ataques ao Irã, o qual eles consideram ser uma ameaça existencial. Eles estão agora pressionando Trump a tomar uma atitude. Foto: Casa Branca

A ascensão do Irã representa uma ameaça existencial para a Arábia Saudita, não só para suas ambições imperialistas na região, como também militarmente e internamente como padrão potencial de um crescente movimento xiita nas regiões orientais ricas em petróleo do Reino. Para aumentar a aposta, os sauditas responderam iniciando uma guerra no Iêmen, mas enquanto não estão avançando muito contra as forças Houthis, estas estão obtendo um crescente êxito em atingir alvos dentro do Reino. Em 12 de junho, mísseis Houthis atingiram o aeroporto de Abha no sudoeste da Arábia Saudita, e depois mísseis atingiram alvos importantes na província de Jizan. Embora não sejam controlados diretamente pelo Irã, os Houthis são apoiados pelo Irã contra a Arábia Saudita. Sua defesa contínua e bem-sucedida contra a agressão saudita é uma enorme fonte de instabilidade no Reino, que está passando pela crise mais profunda de sua história.

Igualmente, para o regime israelense, a ascensão do Irã representa uma ameaça crítica. O regime imperialista predatório usou sua superioridade militar para constantemente expandir e conquistar novas áreas ao longo de sua história. Mas com a crescente influência do Irã no Líbano e na Síria, aquela condição está sob ameaça. Além do mais, um Irã potencialmente armado com armas nucleares seria uma ameaça crítica aos israelenses que se acostumaram a ter o monopólio de armas nucleares no Oriente Médio.

Nessas condições, a distensão de facto entre o Irã e os EUA durante a administração Obama, que foi formalizada através do acordo nuclear com o Irã, se tornou a fonte de profundas tensões entre a Arábia Saudita, Israel e os EUA. Em um movimento sem precedentes, o primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, chegou a fazer campanha abertamente pelos Republicanos nas eleições. Enquanto isso, a administração Obama apoiou a oposição israelense em Israel.

A doutrina Trump

Para Donald Trump, a política externa, como a maioria das outras coisas, gira em torno de seu umbigo. Ele se opõe a novas aventuras militares no Oriente Médio, e, além disso, não se preocupa muito com a região. Seu principal interesse está focado nos efeitos da política externa nos EUA, e nele pessoalmente. Ele formou uma aliança próxima com o príncipe coroado da Arábia Saudita, bem como com Benjamin Netanyahu, ambos os quais o apoiam politicamente e com financiamentos. Todos os três homens assumiram, de fato, sob diferentes formas o status de párias dentro das classes dominantes de seus respectivos países e estão confiando no apoio mútuo. Trump interveio pesadamente nas eleições israelenses apoiando Netanyahu, chegando a reconhecer as Colinas de Golã como parte de Israel, mesmo depois de já ter dado o passo provocativo de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. Na Arábia Saudita, igualmente. Trump e seu genro, Jared Kushner desempenharam um papel decisivo na recente tomada de poder do Príncipe Coroado Muhammad Bin Salman. Em troca, Bin Salman está despejando dinheiro em Trump e seus projetos.

Além disso, Trump se vê obrigado a se apoiar no grupo de falcões belicistas no Partido Republicano, de cujo endosso necessita nas próximas eleições presidenciais, bem como para levar a cabo suas políticas. Entre estes estão o seu Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton: um belicista comprovadamente demente, que vem defendendo ataques ao Irã durante anos. Em 2015, Bolton, que também foi decisivo em forçar os EUA a invadir o Iraque, escreveu um artigo intitulado “Para parar a bomba do Irã, bombardeiem o Irã”, no qual ele conclamava aos EUA e a Israel para bombardear o Irã para impedi-lo de adquirir bombas nucleares. Recentemente, ele ordenou ao Pentágono para elaborar um plano de envio de 120.000 soldados ao Oriente Médio para lutar contra o Irã. Colher cerejas e manipular a informação de inteligência para justificar aventuras militares, como no caso do Iraque, é um velho método de Bolton, que vem tentando há meses empurrar Trump a atacar o Irã.

Enquanto isso, outros altos funcionários de Trump, em particular vindos do Pentágono, têm alertado sobre as consequências de uma guerra com o Irã. O exército iraniano não é como o do Iraque. É uma força poderosa com centenas de milhares de soldados, muitos dos quais com experiência recente de combate na Síria e no Iraque. Adicionalmente, tem capacidade de mobilizar mais centenas de milhares, senão milhões. Por essa razão e considerando também as defesas naturais do país, uma invasão do Irã está descartada. Qualquer tentativa dos EUA de enviar tropas ao terreno no Irã faria as derrotas no Iraque e no Afeganistão parecerem vitórias. Isso leva a ataques aéreos, que nada resolveriam no longo prazo e que facilmente escalariam e atrairiam os EUA a uma operação terrestre. Além disso, o Irã poderia bloquear facilmente o Estreito de Ormuz, através do qual passam 20% do petróleo mundial, elevando os preços do petróleo e causando prejuízos catastróficos à já frágil economia mundial. Tropas dos EUA estacionadas em toda a região, particularmente no Iraque, também seriam um risco para as centenas de milhares de milicianos locais altamente motivados, que são leais ao Irã, do Iraque à Síria e ao Líbano.

A queda senil do capitalismo dos EUA significa uma política externa se tornou míope. Foto: Flickr, Casa Branca

Trump não quer seguir esse caminho. Mesmo depois que os iranianos abateram o drone norte-americano, ele estava minimizando o episódio, dizendo “Penso que o Irã provavelmente cometeu um equívoco – imagino que foi algum general ou alguém que cometeu um equívoco ao abater aquele drone (…) Poderia ter sido alguém desarvorado e estúpido”. Após a missão abortada dos EUA, Trump disse que não tem “pressa” em confrontar o Irã, dizendo que um ataque não seria “proporcional à derrubada de uma avião não-tripulado”.

É claro que Trump não está interessado em uma custosa e potencialmente ruinosa aventura militar no Irã, como a que seus aliados estão empurrando para ele. Como uma concessão parcial a Bolton e companhia ele concordou em romper o acordo nuclear com o Irã e impor sanções. Do ponto de vista de Trump, as sanções contra o Irã são boas se ele consegue manter seus aliados um pouco felizes: apoiando suas políticas, doando dinheiro para sua campanha e fazendo acordos com suas empresas. Agora, essas mesmas pessoas o estão empurrando para ir mais longe. Sabendo de seu desejo de ser visto como um homem forte e intimidador, que nunca recua, eles estão tentando envergonhá-lo para que comece o que poderia ser um efeito dominó de eventos, que poderia levar a um confronto militar.

O método político de Trump é muito simples: fazer um grande alvoroço, parecer imprudente e incontrolável, em seguida sentar-se e fazer um acordo. Na Síria, ele bombardeou aeródromos vazios em duas ocasiões e depois entrou em negociações com a Rússia. Na Coreia do Norte, cantou e dançou sobre uma chuva de “fogo e fúria” sobre o país, depois começou negociações. No entanto, no caso do Irã, já mostrou uma mão hesitante. Embora o imperialismo norte-americano ainda seja a força mais poderosa do planeta, não é onipotente e não é capaz de intervir militarmente no Irã. É o mesmo problema que a administração Obama enfrentou, e que Trump considerou como um enfrentamento fraco.

Ao contrário de Obama, Trump pensa que pode manter as sanções contra o Irã, sangrando o país por tempo indefinido. Mas, junto às ameaças constantes feitas por Israel, pela Arábia Saudita e pelos falcões em Washington, o Irã pode perceber que uma bomba nuclear não é uma má ideia, afinal de contas. Ao ver como um pequeno e pobre país, como a Coreia do Norte, obrigou Trump a se sentar e negociar em condições de igualdade com o poderoso imperialismo EUA, os mulás podem ver isso como um caminho mais seguro do que as atuais tentativas de chegar a um acordo com o Ocidente. Se o Irã escolher seguir esse caminho, há pouco que seus inimigos podem fazer para impedi-lo. Isso levaria a uma catastrófica corrida armamentista na região, com a Arábia Saudita e a Turquia na fila para adquirir armas nucleares, aumentando a instabilidade.

Em todo caso, longe de enfraquecer o regime, Trump lhe forneceu um salva-vidas político. O ano passado foi um dos mais turbulentos anos da história da República Islâmica, com protestos de massa generalizados no início do ano, e dezenas de protestos diários e greves dos trabalhadores, camponeses e da juventude por todo o país. Mas, quando as sanções começam a morder e os tambores de guerra batem mais forte, as massas se mobilizam por trás do regime contra o imperialismo EUA: um inimigo que elas odeiam muito mais do que os mulás.

Sintomática da decadência geral e senil do capitalismo norte-americano, a política externa se tornou extremamente míope. Nisso, Trump não é muito diferente dos outros no topo da política norte-ameriano. Basta apenas olhar para as guerras no Iraque e no Afeganistão. O imperialismo EUA costumava lançar seus olhares décadas à frente, mas agora está preso em uma rede de contradições que se origina da crise do capitalismo, da qual não pode escapar. A classe dominante dos EUA costumava concordar com a política externa nos bastidores e mostrar uma frente única em público. Mas hoje, Democratas, Republicanos e facções dentro desses dois partidos estão sabotando abertamente os planos uns dos outros, levando a crises após crises. A intervenção dos sauditas e israelenses na política norte-americano somente adiciona combustível ao fogo.

Tudo isso provoca mais instabilidade em todo o mundo. À medida em que seu sistema afunda cada vez mais profundamente na crise, os capitalistas e seus representantes políticos mostram que estão dispostos a arrastar toda a sociedade à barbárie para satisfazer seus próprios interesses, estreitos e individuais. A única solução é lutar pela derrubada de todo o sistema apodrecido em escala internacional.

Não à guerra com o Irã!

Abaixo o imperialismo norte-americano!

Abaixo com o capitalismo!

Tradução de Fabiano Leite.

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