Bolsonaro e a Copa Covid da América

Todo dia Bolsonaro oferece mais elementos para que a classe trabalhadora se organize para a derrubada de seu governo. Nesta segunda-feira, 31 de maio, o motivo foi seu aceite para a realização da 47ª Copa América no Brasil, um país com mais de 460 mil mortos pela Covid-19. A confirmação ocorreu após Colômbia e Argentina cancelarem a realização do evento e a Conmebol, confederação sul-americana de Futebol, desesperada pelos lucros do torneio, pedir ao governo brasileiro a abertura do país para o que popularmente já estão chamando de “Copa Covid da América”.

A Copa América é o torneio de seleções mais antigo do futebol mundial, iniciado em 1916. Sua importância para o jogo no continente é historicamente indiscutível. Entretanto, na última década, a Conmebol transformou-a em algo completamente banal, realizando-a quase que anualmente. Qualquer pesquisa com torcedores sobre o tema tem como resultado o desprezo pela competição, que apenas atrapalha o calendário, pois os jogadores locais são convocados pelas seleções e, com isso, retirados dos campeonatos de clubes, aqueles que realmente importam. Isso apenas ilustra como a Copa América é esvaziada e sem sentido de ser realizada neste ano. Mas o que de fato interessa é o crime de sedia-la em meio a pandemia do novo coronavírus.

Equivocadamente realizada em 2019, a edição deste ano seria em 2020 para que se alinhasse à Eurocopa, voltando a ser realizada de 4 em 4 anos, entre a Copa do Mundo. Porém, assim como a Eurocopa, a Copa América foi cancelada no ano passado e remarcada para 2021. Seriam duas sedes, Colômbia e Argentina, mais um afago da Conmebol nas federações locais. Porém, como sabemos, a Colômbia vive uma empolgante ebulição social, com as massas trabalhadoras nas ruas lutando contra o governo Duque. Já a Argentina, acaba de anunciar uma espécie de lockdown, inclusive para o futebol, pois se encontra no seu pior momento de contaminação.

As mobilizações e a repressão policial na Colômbia já foram tema dos programas futebolísticos no último mês devido a Copa Libertadores da América. Os jogos da fase de grupos ocorreram nos estádios de Medellín e Barranquilla, enquanto se ouviam os tiros contra os manifestantes e os jogadores pararam as partidas por sentirem o gás de pimenta. Quando do cancelamento na Colômbia, o governo Duque justificou-se com a pandemia, como se preocupasse com as mortes, mas, na realidade, todos no continente sabem que o povo nas ruas é que não permitiu a realização da competição. 

No caso argentino, o governo Fernández não realiza o necessário para a vacinação de todos, no entanto, não é composto por uma gangue negacionista da pandemia, tendo cancelado a competição e, inclusive, imposto a paralisação dos jogos entre os clubes do país. Isto inviabilizou a Copa América sendo sediada apenas na Argentina, não havendo outra opção para a Conmebol senão o Brasil. 

Diferente do que fez com os e-mails referentes aos lotes de vacinas, Bolsonaro não titubeou em responder à Conmebol aceitando que o Brasil seja a sede da copa pela segunda vez consecutiva, já que também sediou a última, em 2019. Os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul vetaram jogos em seus estádios. Por outro lado, as capitais de São Paulo, Bahia, Mato Grosso e Amazonas estão à disposição da organização do evento, simplesmente pedindo o “respeito aos protocolos” e jogos sem público. Ressalta-se que a Conmebol comprou 50 mil lotes da Coronavac, em abril, para vacinar atletas e comissões técnicas, tanto para a Copa América, quanto para a Libertadores. Na Libertadores, vários clubes se negaram a tomar, alegando que a prioridade é para os trabalhadores que correm mais riscos, não para os jogadores, enquanto outros clubes aceitaram as doses, principalmente aqueles que passaram por Assunção, no Paraguai, onde se localiza a sede da Conmebol. 

Politicamente, o aceite de Bolsonaro é uma tentativa de se utilizar da competição para acalmar as ruas e os ânimos, desviar o foco nacional para os jogos da Seleção, tal como o governo também libera os jogos dos campeonatos nacionais de clubes. Vale lembrar que na década de 2010 o Brasil já recebeu inúmeras competições importantes, como a Copa das Confederações, a Copa do Mundo e as Olimpíadas, sob os governos de Dilma Rousseff, e a própria Copa América com Bolsonaro no poder. As históricas jornadas de junho e julho de 2013 tiveram o incremento do fatídico “Não vai ter Copa!”, ao que o governo petista respondeu com repressão e ataques aos direitos da classe trabalhadora. 

Assim como em 2013, o tiro do governo federal pode sair pela culatra, impulsionando a juventude e os trabalhadores para a revolta contra um presidente negacionista, que possibilita um assassinato em massa do povo trabalhador. Se em 2014, Dilma ouviu as vaias no Maracanã, em 2021, Jair ouvirá, a partir de 13 de junho, um “Fora Bolsonaro” ainda mais alto, ecoando pelas ruas, enquanto Neymar e Messi jogam nos gramados brasileiros. Esta deve ser nossa perspectiva, construindo mais atos como do 29M, quando milhares de pessoas foram às ruas do país. Aliás, assim como no dia da estreia do campeonato brasileiro, quando torcidas organizadas convocaram as massas para as manifestações, não para os jogos de seus clubes. 

Para tanto, convidamos também para o Encontro Nacional de Luta: Abaixo o governo Bolsonaro! Por um governo dos trabalhadores, sem patrões nem generais! A atividade acontecerá dia 10 de julho, de maneira online. Para participar, leia a convocatória, assine-a e compartilhe para que mais pessoas se somem a esta grande atividade de organização das forças pela derrubada deste governo. 

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