Bolsonaro corta recursos da universidade no momento em que a pesquisa mais necessita de investimento para combater a pandemia

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo Especial nº 15, de 17 de setembro de 2020. CONFIRA A EDIÇÃO COMPLETA.

Durante a pandemia, o governo abriu o caixa para salvar o capitalismo e agora começa a enviar a fatura para os trabalhadores. Nunca o Estado brasileiro transferiu tanto dinheiro público para os cofres burgueses. Isso tem um preço alto e um dos setores que paga a conta é a educação.

A maior parte do dinheiro público vai para o pagamento dos juros e serviços da dívida, enquanto a universidade pública tem seu orçamento reduzido seguidas vezes. O mais recente corte orçamentário da universidade se dará justamente no momento em que ela mais precisa de investimento, ilustrando como o capitalismo anda na contramão da história.

O Projeto de Lei Orçamentária para 2021 prevê, entre cortes em diversos outros setores, o aniquilamento de R$ 1,4 bilhão nos recursos das instituições federais de ensino. Sendo 1 R$ bilhão retirado das universidades (18,2%) e R$ 434 milhões dos Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (22,5%). Os valores são das chamadas despesas discricionárias, as utilizadas para pagamento de energia, serviços, obras, compra e manutenção de materiais, assistência estudantil e investimento em laboratórios e desenvolvimento de tecnologia.

A pandemia do novo coronavírus tem mostrado, da pior forma, como a ciência poderia salvar milhares de vidas. Os principais centros de pesquisa no Brasil encontram-se nas universidades públicas, no entanto, a falta de investimento no setor e o sucateamento limitou a capacidade de combate à Covid-19. Um dos exemplos mais evidentes foi a falta de insumos para testes em massa. O abandono de investimento na produção própria desses materiais levou o país a importar até mesmo reagentes químicos.

O Sars-CoV-2 ainda é pouco conhecido e novas cepas do vírus exigirão mais pesquisas e tecnologia. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que, além da ameaça atual, novas doenças infecciosas podem evoluir para situações de pandemia, particularmente as zoonoses, enfermidades transmissíveis de animais para humanos.

O combate a essas ameaças globais é muito maior do que a necessária aplicação em saúde — construção de leitos, formação de profissionais e compra de equipamentos. Precisa de investimentos maciços em ciência, ou seja, na universidade pública (nas áreas da química, física, biologia, áreas da saúde, humanas, enfim, em todos os setores). Mas o governo faz o caminho contrário do investimento.

Para identificação de patógenos altamente transmissíveis e elaboração de métodos diagnósticos e de combate, são necessários os chamados laboratórios de nível 4 de biossegurança (NB-4). Esses espaços são preparados para o manejo, criação e simulação de vírus sem o risco de propagação. É o ambiente adequado para pesquisar ameaças como a Aids, A Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), Gripe Aviária, Gripe Suína, Hendra, Nipah, Vírus de Marburg, Febre de Lassa, Febre Hemorrágica da Crimeia-Congo e Ebola. E o Brasil não conta com laboratórios neste nível de segurança.

É urgente reverter os cortes e canalizar os recursos necessários para transformação das universidades brasileiras em potentes centros avançados de pesquisas, a serviço da humanidade.

Foi justamente a retirada de dinheiro da universidade que provocou a ira de milhões de jovens, fazendo com tomassem as ruas em maio de 2019. Essa revolta continua latente e pode, a qualquer momento, efervescer novamente. Salvar a universidade e a ciência se tornou uma questão de sobrevivência da raça humana. E isso passa pela derrubada do governo Bolsonaro e a retomada de tudo que foi retirado da educação e da ciência.

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