A pandemia não acabou: Santa Catarina forjando a normalidade

O uso de máscaras deixou de ser obrigatório em qualquer ambiente de Santa Catarina após decreto do governador Carlos Moisés da Silva (Republicanos). A medida, em vigor desde o dia 12 de março, autoriza a flexibilização e faz apenas algumas recomendações de saúde para o uso de máscaras. Medidas semelhantes foram implementadas em outros estados, como no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Em uma fase da pandemia que as atenções deveriam estar voltadas para a necessidade do avanço da vacinação, o governo do estado como resposta demonstra seu verdadeiro descaso com a pandemia, propondo medidas que vão no sentido do relaxamento prematuro das medidas de proteção. A ciência indica que para impedir a propagação da Covid-19 são necessárias, entre outras, as medidas de distanciamento social, que em nenhum momento da pandemia foi oferecida pelo capitalismo, muito pelo contrário, como denunciamos ao longo destes dois anos.

Se hoje a média semanal de mortes por Covid-19 é menor do que no ano passado devido à vacinação da população, não significa que estamos em um patamar semelhante ao período pré-pandemia. Ainda morrem 400 pessoas por dia e novas variantes continuam a surgir devido ao alto índice de propagação do coronavírus.

A ação de Moisés desconsidera o impacto do carnaval, com o aumento significativo dos casos de internação e as notícias do surgimento da nova variante, a Deltacron, que já preocupa os cientistas. O decreto de Moisés permite que o uso das máscaras, tanto em lugares abertos como em lugares fechados, seja uma escolha individual, mesmo que isso tenha impacto para todas as pessoas. Além disso, nos locais de trabalho, ao desobrigar o uso das máscaras, os empregadores estão livres de qualquer pressão para que forneçam essa forma de proteção aos trabalhadores.

A pressa da burguesia em normalizar a situação é o reflexo da necessidade da classe dominante em estabelecer o funcionamento pleno do comércio, boates, bares e restaurantes, isso porque logicamente para a burguesia o lucro fica acima da vida dos trabalhadores.

A normalidade forjada: não há fronteiras para a pandemia

Conforme boletim do governo do estado, da última quinta-feira (10), Santa Catarina teve 1.641.437 casos confirmados de Covid-19 desde março de 2020. A doença provocou 21.529 mortes no estado. Mesmo diante de novos picos de contaminação e morte, a burguesia vem tentando apresentar que estamos próximos do fim da pandemia.

As variantes da Covid-19 trouxeram dúvidas se é plenamente possível pôr fim à pandemia. Diante desse contexto instável, especialistas indicam que a abolição do uso de máscara pode desencadear um aumento de casos, assim como o aumento de risco de casos graves e o surgimento de novas variantes. É o que estamos vendo agora em países como Reino Unido, Áustria, Holanda, Grécia, Alemanha, Suíça e Itália, que veem explosões de novos casos logo após a flexibilização do uso de máscaras e medidas de distanciamento social. Isso em países que contam com um indicie de vacinação superior a 72% da população (no Brasil, 73,6% já tomaram as duas doses ou dose única).

Os riscos dessas medidas de flexibilização são catastróficos, já que a pandemia é mundial e não se limita a fronteiras locais. Na prática, as medidas de descaso com a pandemia só distanciam a população da normalidade e do fim da pandemia.

A pandemia acabou?

“Este mês de março faz dois anos que nós estamos enfrentando uma grande batalha, juntos, e saindo dessa batalha vencedores. Tá chegando o grande dia de nós transformarmos as normas e obrigações em recomendações.” (Carlos Moisés, governador de Santa Catarina)

Em um vídeo divulgado pelas redes sociais, Moisés afirma que nós estamos saindo da pandemia vitoriosos. Será que Moisés esqueceu que já morreram 656 mil brasileiros em dois anos e 6 milhões no mundo? E as mortes diárias por Covid-19 que ainda tomam as manchetes dos jornais? E a variante Deltacron? Dificilmente os milhares de afetados pela pandemia — que perderam familiares e amigos, que foram demitidos, despejados por não pagar aluguel, que estão comprando ossos porque não conseguem pagar pela carne —, estão se sentindo vitoriosos, e menos ainda, sentindo que estão saindo da pandemia.

Moisés pode até alegar que ele está se referindo apenas a Santa Catarina, porém, segundo dados recentes, entre os dias 14 de fevereiro e 10 de março houve 37.651 casos confirmados de Covid-19 no estado. No dia 1º de março foram 4.360 e mais recentemente, dia 10 de março, 2.937 casos. Os dados não nos asseguram que não terá uma nova onda de contaminação de Covid-19 e variantes a qualquer momento.

Sobre a vacinação em Santa Catarina, 76,43% da população recebeu duas doses, ou a dose única. Já a dose de reforço foi tomada por 69,30% das pessoas acima de 60 anos no estado. No grupo de adultos com 18 anos ou mais, 34,21% receberam a dose de reforço. Esses números estão próximos ou abaixo dos países europeus que viram explosões de novos casos após flexibilizar as medidas de contenção do vírus. Na China vê-se um cenário semelhante.

As medidas de flexibilização do uso de máscaras desconsideram o aumento de casos no início desse ano, com elevação expressiva do número de casos e de óbitos, que indicam claramente que o cenário de pandemia ainda persiste. No entanto, é necessário manter as medidas de segurança e distanciamento até que a população esteja consideravelmente vacinada e capaz de frear a contínua propagação do coronavírus.

Abaixo o capitalismo

Não é novidade que o governo Bolsonaro desde o início da pandemia vem promovendo o descaso com as orientações de segurança, além de tentar minar a credibilidade das vacinas, quando na realidade os trabalhadores é que sentem na pele os sintomas do sistema capitalista em sua fase de putrefação, o qual desde o início da pandemia os obrigou a continuar produzindo lucro para as grandes empresas, inclusive as não essenciais, sem direito à segurança da quarentena.

A classe dominante usa o discurso da pandemia para justificar a crise econômica e a necessidade de manter a “normalidade”, porém essa é só mais uma das crises do sistema capitalista que se arrasta desde 2008. Nesse sentido, a pandemia aprofundou a crise econômica, o que piorou brutalmente as condições de vida dos trabalhadores, jogando milhares de pessoas ao desemprego e consequentemente submetendo-as a trabalhos informais e condições de miséria extrema.

O governo Bolsonaro também é responsável pelas milhares de vítimas da Covid-19 ao se utilizar de um discurso sujo e políticas anticientíficas criminosas, que na mais cruel realidade visam apenas o lucro.

Diferente dos que dizem os reformistas, a inversão das relações de poder não ocorrerá com conciliações e reformas, mas sim pela derrubada imediata do governo Bolsonaro, que não representa a população e tenta preservar o sistema capitalista. No entanto, é preciso ir além da derrubada de Bolsonaro. A emancipação dos trabalhadores só é possível com a construção de um partido internacional de massas capaz de abrir o caminho para a revolução e enterrar de uma vez por todas o sistema de exploração, dando espaço ao novo sistema econômico voltado aos interesses da classe trabalhadora: o socialismo. Esta é a luta da Esquerda Marxista, corrente brasileira da Corrente Marxista Internacional (CMI), a luta pelo socialismo no Brasil e no mundo.

Os capitalistas se recusam a tomar as medidas de segurança que de fato combatam a pandemia e somente a classe trabalhadora organizada pode apresentar a real alternativa à frente do desastre da pandemia e livrar a humanidade das garras do capitalismo que posiciona o lucro acima da vida.

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