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Foto: Flickr, Inter-American Dialogue

Eleição presidencial colombiana: vitória do Duque reacionário – o que significa?

O segundo turno da eleição presidencial na Colômbia, realizado em 17 de junho, deu a vitória ao candidato reacionário de direita Ivan Duque (apoiado por trás do cenário pelo ex-presidente Alvaro Uribe), que recebeu 54% da votação (10 milhões de votos). No entanto, esta foi a primeira vez na história que um candidato atacado pela classe dominante como “comunista” perigoso, Gustavo Petro, foi ao segundo turno, recebendo respeitáveis 42% (8 milhões de votos).

A campanha foi extremamente polarizada e provocou um alto nível de interesse político entre a população.

O antecedente imediato dessa eleição foi a assinatura de um acordo de paz entre o Estado colombiano e as guerrilhas da FARC, em 2016, um acordo que foi logo derrotado em um referendo realizado em outubro daquele ano e que finalmente só foi assinado sob a forma de uma emenda. O referendo mostrou a força da oligarquia colombiana, que foi capaz de mobilizar grandes camadas da população contra o acordo de paz. Isto se conseguiu através da combinação de intimidação, compra de votos, clientelismo, campanhas histéricas dos meios de comunicação de massa e assim por diante. A campanha de Ivan Duque, o candidato do setor mais reacionário da classe dominante colombiana, esteve conectada ao para-militarismo e ao narcotráfico, bem como aos interesses dos grandes criadores de gado.

Do primeiro turno das eleições, realizado em 27 de maio, emergiram dois claros contendores: Duque com 39% e Petro com 25%. O mau resultado de Vargas Llera (7% dos votos), o candidato apoiado pelo presidente em exercício Juan Manuel Santos, mostrou como toda a direita estava se organizando por trás de Ivan Duque para evitar uma vitória de Gustavo Petro. Assim, o “enorme êxito” de Santos em alcançar um acordo de paz com as FARC não se traduziu nas urnas.

Além dos dois candidatos que passaram ao segundo turno, o único candidato que chegou mais longe foi o “centrista” Sergio Fajardo, com 23% dos votos, o candidato de uma facção local da classe dominante baseada na região de Antioquia (o Grupo Empresarial de Antioquia). Vale a pena mencionar que o maoísta MOIR apoiou Fajardo no primeiro turno e, em seguida (e da mesma forma escandalosa), pediu o voto em branco no segundo turno.

Classe dominante confundida

O programa de Petro não era realmente de esquerda em qualquer sentido significativo do termo, mas conseguiu gerar entusiasmo e esperanças entre importantes camadas de trabalhadores e camponeses, bem como o ódio e o pânico no seio da classe dominante. O que Petro defendia era a modernização do capitalismo colombiano através de um programa moderado de reforma agrária e de “diversificação” da economia, afastando-se do modelo baseado na exploração da mineração e do petróleo. Essas propostas econômicas (que não ultrapassavam os limites do capitalismo) estavam combinadas a uma série de reformas democráticas, resumidas na ideia de convocação de uma Assembleia Constituinte.

O programa de Pedro não era de esquerda em nenhum sentido fundamental, mas alarmou a classe dominante e entusiasmou milhões. Foto: Coronadeso3

A campanha contra ele o pintou como um radical perigoso e utilizou todos os temas clássicos da histeria anticomunista. Sua antiga associação ao movimento guerrilheiro M19 foi utilizada contra ele e uma massiva campanha de propaganda foi lançada para promover a ideia de que ele era um representante do “Castro-Chavismo”, da “violência guerrilheira” e que, se eleito, “embarcaria em uma vaga de expropriações ao estilo de Chávez”, o que afundaria o país em uma crise terrível “como na Venezuela”. Essa campanha de medo certamente teve o seu impacto.

A única forma de se reagir a essa campanha seria dar as costas à oligarquia e explicar claramente que o capitalismo é o responsável pela pobreza, violência e desigualdade da sociedade colombiana e que o único caminho a seguir seria o de colocar a enorme riqueza do país a serviço da maioria.

A Venezuela, naturalmente, desempenhou um papel importante durante a campanha e a classe dominante fez pleno uso da desastrosa crise econômica do país vizinho para atacar Petro. Para contrabalançar isso, seria necessário explicar que não foi o socialismo que fracassou na Venezuela, mas sim as tentativas de regular o capitalismo.

Virada à direita de Petro

Em vez disso, Petro fez uma brusca virada à direita no segundo turno ao moderar sua linguagem e até abandonar algumas de suas promessas fundamentais do primeiro turno. Ele realmente apresentou seus “mandamentos de campanha” gravadas em um pedaço de pedra. As duas primeiras eram “nenhuma expropriação” e “nenhuma Assembleia Constituinte”! Isso entrou em contradição direta com sua principal promessa eleitoral de reforma agrária (que implicaria na expropriação das fazendas dos proprietários que se recusaram a torná-las produtivas).

Além disso, ele se distanciou de Maduro e da Revolução Bolivariana, mas não os criticando pela esquerda, e sim fazendo críticas a partir da direita.

“Mandamentos” de Petro. Foto: Twitter, petrogustavo

Sua intenção era clara: apaziguar a classe dominante e tentar refrear sua campanha de demonização, bem como apelar àqueles que tinham votado por Fajardo no primeiro turno. Isso, é claro, não funcionou. A única forma em que pôde galvanizar seu apoio no primeiro turno foi precisamente por aparecer como candidato radical preparado para oferecer uma mudança fundamental. Os que queriam votar por um candidato “razoável e moderado” sempre votariam por seu rival, Duque. Ele teria aumentado sua votação radicalizando ainda mais sua mensagem e apelando para as camadas da classe trabalhadora, dos camponeses e dos pobres que não participaram na eleição (a abstenção foi de quase 46% no segundo turno).

A campanha pode ser comparada à de 2006, quando a classe dominante colombiana pôs suas diferenças de lado e apoiou um candidato, Uribe, com medo de permitir a vitória do PDA de “centro-esquerda”. A comparação revela como é diferente a situação agora. Naquele momento, Uribe conseguiu vencer com 62% dos votos no primeiro turno, com 45% de participação. O candidato do Polo Democrático e Alternativo, Gaviria, mal conseguiu 22%. Essa foi a época do Plano Colômbia, que significou uma massiva injeção de dinheiro pelo imperialismo estadunidense, e o conflito com as FARC estava no auge. Esses dois fatores não estão mais em cena.

Um resultado significativo para a Colômbia

Os oito milhões de votos para Petro são de fato muito significativos no contexto da Colômbia. Revelam como a remoção das FARC do cenário foi um fator positivo do ponto de vista da política de esquerda. O resultado também é um reflexo, embora distorcido, do crescente processo de mobilização de massa que ocorreu sob a presidência de Santos, com importantes movimentos de estudantes, trabalhadores e camponeses.

Muitos dos que ficaram entusiasmados com a possibilidade de Petro ganhar naturalmente ficarão desapontados. No entanto, não foi uma derrota esmagadora. Os resultados foram certamente os melhores recebidos por qualquer candidato considerado de “esquerda” em décadas. O resultado eleitoral não terá um efeito desmoralizante sobre o processo de luta que está ocorrendo. É provável que tenha o efeito oposto, de encorajar e alentar o movimento. Este será visto como um primeiro passo e não como o último.

Ivan Duque no poder é certamente uma péssima notícia para o povo trabalhador da Colômbia. Mesmo sob Santos, que estava comprometido com o processo de paz, houve uma série de assassinatos de líderes sociais (camponeses, defensores dos direitos humanos, sindicalistas), incluindo muitos ex-guerrilheiros, em uma clara violação dos acordos. Isso se intensificará. Duque, um opositor dos acordos, fez campanha com base na alteração de certos aspectos deles, mas não os rasgando completamente. No entanto, ele certamente irá realizar uma política de ataques contra os trabalhadores e camponeses, de cortes do gasto público e de continuidade da impunidade do estado e das gangues paramilitares.

Tendo visto bloqueado, no campo eleitoral, o caminho para uma mudança fundamental, os trabalhadores, os camponeses e a juventude agora não terão outra alternativa além de enfrentar essas políticas nas ruas através de mobilizações de massa e greves.

Nenhum futuro sob o capitalismo

Uma tarefa fundamental é fazer um balanço sério da campanha de Petro e de seu programa. Aqui está um político cujo objetivo declarado era modernizar o capitalismo colombiano, não o derrubar. E mesmo assim, seu programa criou pânico entre a classe dominante e provocou uma reação histérica “anticomunista”.

Uma conclusão deve ser tirada: não é possível modernizar a Colômbia sob o capitalismo. A única forma de se realizar as tarefas democrático-nacionais pendentes (incluindo a reforma agrária) é por meios revolucionários e ligando-as às tarefas socialistas de expropriação da podre e depravada oligarquia colombiana, cujas mãos estão encharcadas de sangue. Ao mesmo tempo, a perspectiva de revolução na Colômbia está intimamente ligada ao processo revolucionário de toda a América Latina.

A tarefa de reunir as forças iniciais de uma tendência revolucionária marxista, baseada nessa perspectiva de revolução permanente, é hoje mais urgente do que nunca.

Artigo publicado originalmente em 20 de junho de 2018, no site da Corrente Marxista Internacional, sob o título “Colombia presidential election: victory for reactionary Duque – what does it mean?“.

Tradução Fabiano Leite.

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