Variante Ômicron, uma nova ameaça fruto do capitalismo

Editorial da 14ª Edição do jornal Tempo de RevoluçãoFaça sua assinatura e receba no seu e-mail!

A nova variante do coronavírus, chamada Ômicron (a letra “o” do alfabeto grego), foi classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma “variante de preocupação”, isso porque há fortes indícios de que se trata de uma cepa muito mais contagiosa que a Delta, predominante hoje no mundo.

A Covid-19 já ceifou a vida de mais de 5 milhões de pessoas e a OMS estima que 15 milhões de mortes estão direta e indiretamente ligadas à pandemia1. A notícia da nova variante caiu como uma bomba, levantando dúvidas sobre as reais consequências e, principalmente, se será possível acabar com a Covid de uma vez por todas.

Esse impacto é ainda maior diante do quadro que a burguesia tentava apresentar em praticamente todos os países de que estávamos perto do fim. Nos EUA, mesmo diante de novos picos de morte e contaminação, as medidas de flexibilização de máscaras e distanciamentos foram amplamente difundidas. A Europa, novamente epicentro da pandemia, passou por um processo semelhante com a retomada de bares, danceterias, shows e reabertura das fronteiras para turistas. No Brasil, o Rio de Janeiro foi o primeiro estado a flexibilizar o uso de máscara desde o final de outubro, São Paulo já anunciou o fim da obrigatoriedade das máscaras em locais públicos programado para dezembro e já se planejavam as festas de fim de ano e carnaval em 2022 em todo o país.

Agora, a Ômicron traz consigo um novo lembrete de que a pandemia não acabou e não há prazo para o fim.

O vírus e o lucro contra a vida

Para a Big Pharma (grandes empresas farmacêuticas) a notícia é boa. Pfizer, BioNTech e Moderna estimam um faturamento total de US$ 36 bilhões com as vendas de vacinas até o final de 20212, o equivalente a mil dólares por segundo ou US$ 93,5 milhões por dia. Essas empresas realizaram as pesquisas para o desenvolvimento dos imunizantes através de financiamentos estatais, porém, agora preservam seus lucros em mãos privadas.

Atualmente, foram fabricadas 9 bilhões de doses de vacinas e deve-se produzir 12 bilhões até o fim do ano, o suficiente para garantir uma dose em todo o mundo e duas doses em mais da metade da população mundial. Entretanto, os dados mostram que não é essa a matemática que segue a lógica do capital: “Mais de 80% das vacinas foram aplicadas em países ricos ou de renda média, e menos de 1% nos países pobres.3

Portugal, Espanha, Chile, Coreia do Sul, Japão, Uruguai são alguns dos países que já aplicaram duas doses em mais de 75% da população. Na África do Sul, onde a nova variante foi detectada pela primeira vez, apenas 24,3% dos habitantes estão totalmente imunizados e esse é o país com o maior índice no continente africano. Etiópia, Sudão e Burkina Faso, por exemplo, aplicaram apenas 1,3% das duas doses cada. Fora do continente africano também temos casos de baixíssimos índices de vacinação, como o Haiti (0,6%), Iêmen (1,2%), Afeganistão (8,9%) e Iraque (11,1%).

Se o ritmo de vacinação em países como África do Sul, Afeganistão e Iêmen se mantiver, calcula-se que serão necessários 10 anos para vacinar 75% de suas populações.

Acontece que quem pode pagar leva mais, e foi desta maneira que EUA, Canadá, entre outros, acumularam vacinas em excesso enquanto países pobres ficaram à mercê do vírus. Não há um planejamento mundial para pôr fim a esse pesadelo. O que as burguesias de diferentes países buscam fazer é tentar imunizar “sua casa” o mais rápido possível. Porém, o vírus, assim como o capitalismo, é mundial e da mesma maneira que é preciso pôr fim ao capitalismo no mundo inteiro para acabar com a exploração do homem pelo homem, o vírus precisa ser eliminado globalmente para vencermos a Covid-19.

Contraditoriamente, estamos vendo a vacinação estagnando justamente em um dos países que mais puderam adquirir doses. Os EUA vacinaram 59% da população, mas avançam lentamente, descartam doses que estão vencendo e tentam oferecer prêmios para quem for se vacinar. Canadá, Áustria e Israel passaram por situações semelhantes. Se por um lado as Fake News minam a credibilidade das vacinas, por outro, a própria falta de confiança em seus governos e nas instituições burguesas faz com que a população desses países desconfie da vacina.

O Brasil e o mundo

No Brasil, já são 615 mil óbitos causados pela pandemia. Depois da considerável queda de mortes diárias e relativa estabilização, o clima que governos e mídia tentavam transmitir era de fim de pandemia.

Estamos em uma situação melhor hoje? Sim, apesar de toda a propaganda do governo Bolsonaro contra a vacina e com o atraso na compra dos imunizantes, atingimos 62,7% de aplicação das duas doses e as pesquisas mais recentes mostram que os brasileiros veem as vacinas com bons olhos. Mas já podemos decretar o fim da pandemia? Não.

Em primeiro lugar, a desigualdade da distribuição das doses no mundo ocorre de maneira similar aqui. No estado de São Paulo, 75% dos habitantes foram vacinados com as duas doses e em Santa Catarina, 67%, ao mesmo tempo que no Amazonas, Pará e em Roraima esses números são respectivamente 49%, 40% e 30% apenas.

A pressa em flexibilizar as parcas medidas de proteção (uso de máscaras e distanciamento social) está ligada diretamente à necessidade da classe dominante de retomar a “normalidade”, isto é, ao funcionamento pleno do comércio, das boates, restaurantes etc. As festas de fim de ano e o carnaval movimentam milhões e para a burguesia não importa se mais alguns milhares irão morrer.

O novo surto na Europa já acendeu o alerta de algumas cidades que optaram por cancelar o carnaval e a nova variante pode resultar em algumas ações mais restritivas nos próximos dias, mas não podemos esperar muito dos patrões.

Especialistas afirmam que quanto mais o vírus se espalha, maior a chance de sofrer mutações, ou seja, a vacina por si só não é suficiente. Países como o Brasil, EUA, por exemplo, que ainda não vacinaram totalmente a população, mas mantêm um elevado índice de circulação do vírus, causam temor diante da possibilidade do surgimento de uma variante resistente às vacinas. Lockdowns, distanciamento social, o uso de máscaras e demais medidas já estabelecidas são o complemento necessário.

A pandemia é um problema mundial. No entanto, não podemos esquecer que a situação poderia ser outra se o governo Bolsonaro e a burguesia nativa tivessem tomado as medidas necessárias. Além disso, devemos acrescentar nessa conta a responsabilidade das direções sindicais e dos partidos da “esquerda” que sabotaram o combate pela derrubada do governo Bolsonaro. Esse freio imposto pelo PT, PCdoB, que contou com o apoio do PSOL, entre outros, permitiu a continuidade e o agravamento da política assassina deste governo.

Nosso combate continua. Não alimentamos as falsas ilusões de que tudo se resolverá nas próximas eleições. Devemos seguir a luta contra o governo Bolsonaro, defender as medidas necessárias para proteger os trabalhadores e a juventude não só da pandemia, mas também da situação econômica.

A luta contra a Covid-19 exige cooperação global e o compartilhamento aberto de recursos para que se atenda as necessidades da população. Como afirmou Leon Trotsky, “do ponto de vista histórico o sistema capitalista mundial está esgotado”. Toda a tecnologia necessária para pôr fim à pandemia existe, porém, a propriedade privada e o Estado-nação são obstáculos monstruosos nesse combate. A quebra de patentes e a estatização das empresas farmacêuticas são fundamentais para que o lucro não fique acima das vidas humanas.

Para garantir algum tipo de retorno à normalidade devemos combinar a luta contra a pandemia com a batalha para varrer o sistema capitalista apodrecido antes que ele arraste a humanidade ainda mais para a barbárie. Junte-se à Esquerda Marxista e à Corrente Marxista Internacional (CMI) e faça parte deste combate!

1 Balanço mundial da pandemia de covid-19 neste domingo (UOL, 28/11)
2 Pfizer, BioNTech and Moderna making $1,000 profit every second while world’s poorest countries remain largely unvaccinated (RW, 16/11)
3 Mais de 80% das vacinas contra Covid-19 foram aplicadas em países ricos; número de casos volta a crescer com relaxamento de cuidados (Butantan, 11/08)

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