Buttigieg, Amy Klobuchar e Tom Steyer desistiram de suas candidaturas para favorecer Joe Biden / Foto: Flickr, Phil Roeder

Unidade da burguesia para derrotar Sanders nos Estados Unidos

Embora tenha conquistado um excelente começo na disputa interna do Partido Democrata, a candidatura de Bernie Sanders vai perdendo espaço em meio ao viciado sistema eleitoral norte-americano. Os mais recentes resultados na escolha de delegados para a convenção do partido mostraram a consolidação da unidade em torno de Joe Biden, ex-vice-presidente na gestão Obama.

Sanders ganhou notoriedade internacional há quatro anos, na disputa com Hillary Clinton pela preferência do eleitorado democrata na corrida pela Casa Branca. Derrotado pelo aparato partidário, Sanders falava em “socialismo democrático” e apresentava, em seu programa, um conjunto de ações que visavam medidas de um certo “estado de bem estar social”, abertamente elogiando o modelo socialdemocrata escandinavo. O “socialismo” de Sanders, portanto, nada tem a ver com expropriação da burguesia e introdução de uma economia planificada. Contudo, apesar desse claro reformismo, o programa de Sanders se mostrou uma novidade no viciado sistema bipartidário em que os partidos Democrata e Republicano disputam o posto de melhor representante do imperialismo para os anos seguintes.

Em 2020, as primeiras disputas dos pré-candidatos mostraram que há um espaço político gigantesco para uma alternativa à esquerda do Partido Democrata, expressando o processo de lutas e greves da classe trabalhadora nos últimos anos. Esse processo se concretiza, na disputa eleitoral, num amplo movimento nacional em torno de Bernie Sanders. Além disso, essas primeiras disputas de delegados expressaram a fragmentação do partido, com dezenas de candidaturas defendendo as posições mais diversas, da direita reacionária ao “socialismo” de Sanders.

Não seria exagero afirmar que se tratava de um cenário de crise para o establishment não apenas democrata, mas do próprio bipartidarismo. A vitória de Trump nas eleições anteriores e a permanência da força de Sanders mostravam que o eleitorado preferia nomes que não estivessem diretamente associados à cúpula dos dois partidos. Além disso, pesquisas de opinião têm apontado o crescimento de posições que expressam a desconfiança da população no sistema de dois partidos, cuja política – a despeito de pequenas diferenças – tem o mesmo conteúdo de defesa do capitalismo e da política imperialista.

Não há, portanto, nenhum espaço para um “socialista”, mesmo que reformista, no interior da disputa dos dois partidos agentes do imperialismo. Embora Sanders tenha vencido as três primeiras disputas em número de votos, ficou clara a forma antidemocrática do processo, afinal foi Buttigieg – ex-prefeito de Indiana e que não tem uma grande projeção nacional – que obteve maior número de delegados. Biden teve uma votação bastante abaixo das expectativas. Contudo, em resposta ao cenário de crise e instabilidade internas, a direção democrata tratou de solucionar o problema, trabalhando para levar Biden a uma imponente vitória na quarta disputa, na Carolina do Sul.

Mesmo com uma política reformista, Sanders é visto como ameaça pela classe dominante norte-americana / Foto: Flickr, Shelly Prevost

Esse movimento da cúpula do Partido Democrata se consolidou na chamada Super Terça, em que foram disputados um total de 1.344 delegados. Nesse importante dia, Biden venceu em dez estados, chegando a mais de 600 delegados, e Sanders, em apenas quatro estados, totalizando cerca de 540 delegados. Apesar da vitória de Sanders na Califórnia, maior colégio eleitoral, Biden consolida sua vantagem, conquistando não apenas maioria do voto da base, como a maioria de delegados.

Essas disputas mais recentes mostraram um giro da cúpula partidária no sentido de buscar suplantar qualquer crise e evitar um movimento de base que ameaçasse escapar ao seu controle. Para isso, foi fundamental a desistência de alguns candidatos, como Buttigieg, Amy Klobuchar e Tom Steyer, e seu apoio a Biden na disputa da Super Terça. Poucos dias depois, anunciaram a desistência também o milionário Michael Bloomberg, em favor de Biden, e a senadora Elizabeth Warren, com posições à esquerda da cúpula partidária, que não anunciou quem apoiará no restante da disputa. Essas desistências fazem com que um conjunto variado de setores do partido, desde um campo mais à direita até nomes que flertam com a social-democracia, assumam a defesa da unidade do partido. Sanders, embora tente vender a imagem de um leal membro do partido, não consegue convencer a cúpula, que fará de tudo para garantir uma candidatura confiável.

O sucesso das ações da cúpula democrata na defesa da unidade do partido comprova o que a Corrente Marxista Internacional (CMI) vem afirmando há algum tempo: não existe espaço para os trabalhadores nessa disputa interna do partido de Wall Street. Sanders se tornou a principal figura de um imponente movimento de trabalhadores e jovens e conta o apoio de figuras de grande importância política, como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Além disso, reúne ao seu redor as principais organizações de esquerda do país, em especial os Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês).

Os esforços desse amplo movimento de base deveriam ser voltados não para uma disputa por dentro do Partido Democrata, mas na construção de um novo partido, dos e pelos trabalhadores. Os dois grandes partidos representantes do imperialismo tentam manter vivo o sistema político apodrecido norte-americano, em meio a uma rebelião mundial dos trabalhadores. Sanders e seus apoiadores não deveriam ser coniventes com isso, mostrando a necessidade do caminho da ruptura e da auto-organização dos trabalhadores.

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