Imagem: Oleg Gamulinskiy/Pixabay

Uma bomba-relógio em perspectiva

Mesmo que a pandemia fosse controlada hoje, a abissal profundidade da crise econômica, que já se anunciava antes dela, causará um genocídio em escala planetária. Não há saída liberal ou keynesiana para a queda da taxa de lucro global e o consequente desinvestimento desta vez, porque a centralização da riqueza, a superprodução e o endividamento mundial no último período, não tem paralelo na história. Os marxistas sabem que as leis específicas que condicionam este modo de produção provocam a queda desta taxa de maneira inexorável, ainda que fatores contrários possam neutralizá-la por curtos períodos (guerras, por exemplo), o que provoca a falta de investimento e consequentemente de emprego e/ou a desumanização ainda maior deste. 

Isso por causa da tendência ao aumento da acumulação orgânica do capital, que é a relação entre gasto com salários que diminuem versos outros gastos que aumentam (principalmente maquinaria e insumos) proporcionalmente. Como sabemos, o que determina o valor de uma mercadoria, diferentemente de sua expressão monetária (preço), é o tempo socialmente necessário para produzi-la. Em seu afã ganancioso, mas também para não sucumbir à concorrência, o capitalista individual recorre a processos que diminuem o tempo de produção de uma mercadoria (tecnologia) diminuindo assim seu valor unitário podendo, portanto, vendê-la por um preço competitivo, além de economizar com salários. Cresce desta forma, a necessidade imperiosa de produzir mais mercadorias para obter o mesmo lucro, e ao inundar o mundo de mercadorias de diferentes capitalistas, impossíveis de serem consumidas no regime de assalariamento, diminui o ganho por unidade de produto e a relação capital total/lucro líquido, chamada de taxa de lucro. Em outras palavras, o investimento é cada vez maior enquanto o lucro por unidade de mercadoria cada vez menor. No curto prazo, tudo bem (tudo ótimo) para os grandes capitalistas sobreviventes que produzem em grande escala.

Fonte: ROBERTS, 2020

 

Um importante corolário histórico destas tendências é a concentração e centralização da riqueza em grandes conglomerados imensamente poderosos politicamente, e a desvalorização contínua da mercadoria trabalho, que, ao ritmo das outras mercadorias, vai perdendo valor unitário e importância. A partir do ponto de vista estritamente econômico, surge historicamente uma contradição intrínseca e insuperável, já que aquilo que gera o valor (força de trabalho) a ser capturado pela diferença entre valor criado e salário, e capaz de consumir as mercadorias, perde cada vez mais valor. 

Por tudo isso se explica a impossibilidade cada vez maior de ocupar os trabalhadores produtivamente e a pressão salarial constante. Nem o massacre de vidas humanas, por miséria, violência ou doença, irá rebaixar o preço do trabalho a um nível que torne este custo de produção atraente aos investimentos outra vez, a um nível em que um novo ciclo de crescimento econômico possa ressurgir. Muitos gráficos dos últimos anos insinuam essa síntese. Mas o capitalismo inevitavelmente irá atrás desse objetivo, sua existência depende disso, e se/quando conseguir, terá cobrado a vida de milhões, e tornado este mundo muito mais deplorável. 

Na ilusão do economista britânico John Maynard Keynes (1883 – 1946) e seus seguidores, o aumento dos gastos do governo e uma melhor distribuição da riqueza poderiam contrabalançar os elementos “desreguladores” do capitalismo. A culpa seria, por tanto, da demanda insuficiente para a inundação de mercadorias antes mencionada. Ora, será que Keynes não leu Marx ou seu desespero por avalar o capitalismo foi maior? Certamente leu, e no fundo sabia que aquelas contradições estão no modo de produzir, que sempre gera seu modo de distribuir, e não o contrário. 

Quando o estágio do ciclo econômico é aquele em que as mercadorias começam a estagnar nos estoques, já que sua expansão não é motivada pela necessidade das pessoas, mas pelas razões antes apontadas sem as quais não existe capitalismo, a produção desacelera, o emprego e o salário escasseiam e, ora bolas, a tal crise de demanda se reinicia. No longo prazo, o excesso de mercadorias e de capital é sempre maior e a taxa de investimento em relação a riqueza total da sociedade é sempre menor. O crescimento diminui, portanto, agudizando as contradições do sistema, porque o capitalista não tem porque tirar seu dinheiro do bolso, do qual o trabalhador é refém. Keynes, entretanto, que era um defensor do capitalismo, mas não era medíocre, foi por isso obrigado a dizer num rompante de sinceridade impossível aos liberais: “O longo prazo não importa, porque no longo prazo, estamos todos perdidos”.

O gráfico acima apresenta o histórico desta tendência, também chamada de Longa crise do capitalismo, que, muito antes de 1974 (crise do petróleo) já iniciava sua trajetória rumo ao capitalismo rentista, onde montantes colossais de riqueza criada pelos trabalhadores saem da produção e se refugiam na especulação, endividando a todos e parasitando os salários que, por natureza, já são o resultado de um parasitismo. Percebe-se desta forma, o quão desavisado é o argumento de que os bancos e as finanças em geral capturaram o bom capitalista “produtivo”.   

O maldito vírus, e o descalabro das bolsas e do petróleo vieram como faísca nesse barril de pólvora, uma enorme faísca, pois. Mas esses estalos sempre aconteceram antes das crises, e a novidade agora é a escala, não só da faísca, mas do barril, e os extintores não existem mais. Quanto a isso, um exemplo: em 2007 (pré-crise) o superávit fiscal das economias mal chamadas “emergentes” era de 0,7% do PIB. Agora, junto a um endividamento estatal sem precedentes, há um déficit fiscal de 4,9%. Mas isso não é tudo: durante esse processo (anos 2000), as economias dominadas da América latina, por exemplo, sofreram uma brutal especialização produtiva em prol das commodities básicas, que estão sofrendo agora uma queda de preços que não se via desde 1986. A propósito, o atrelamento subserviente destas economias às necessidades do desenvolvimento tecnológico dos países imperialistas é o que explica a particular velocidade da precarização do trabalho em países como o Brasil. 

A desvalorização do Real que vemos hoje é causada pelo cheiro de incêndio nos narizes dos especuladores que, gozando de enorme liberdade de transações, conquistada em grande parte durante o governo Lula, refugiam somas crescentes capturada dos trabalhadores no dólar, pressionando a moeda nacional. Na última vez que isso aconteceu de maneira importante (2002), Lula usou o antídoto da moda: doses cavalares do chamado “neoliberalismo”, reforçando o superávit primário, flutuação de taxa de câmbio, liberalização dos fluxos financeiros e principalmente, aumentando a taxa de juros sobre a dívida pública que disparava desde a adoção do Plano Real. E por que, mesmo com essa política econômica gerida diretamente pelos “Bangsters” (banqueiros gangster) houve certa atenção, ainda que absolutamente medíocre às demandas sociais? A resposta é bastante simples: era possível. A especulação internacional com as commodities permitiu durante um curto período, criar ilusões perversas sobre o capitalismo nacional, que como sempre, morreram amargamente. Assim, esta mesma força política não pestanejou ao rifar o destino dos mais pobres assim que a burguesia necessitou. 

Em 2014, Dilma Roussef fez letra morta do programa com o qual ganhou as eleições, restringindo acesso ao seguro desemprego e auxilio doença, aumentou tarifas de serviços fundamentais básicos, ao passo que aumentava as desonerações fiscais aos grandes capitalistas de 3,6 bilhões de reais (2011) para 100,6 bilhões de reais em 2014. Um enorme programa de transferência de renda aos ricos que foi, junto com o religioso pagamento das dívidas interna e externa (agiotagem), e a desaceleração da economia mundial, a semente da crise fiscal com que se depara o governo Bolsonaro. O que explica tamanha mudança? Vejamos neste gráfico abaixo, o comportamento da economia brasileira sob efeito da desaceleração chinesa e mundial:

Fonte: PRADO, 2019

 

Para o ano de 2020, as estimativas da OIT apontam um aumento da pobreza no mundo em 35 milhões de pessoas, somente por causa do COVID-19. Isso representa, por aumento de desemprego, a retirada de 3,4 trilhões de dólares da cambaleante economia mundial. Enquanto um estudo do Instituto Internacional de Finanças (IIF), órgão de pesquisa da burguesia financeira, estima que o crescimento chinês este ano girará em torno de 2,1%, uma tragédia perto do 12% da época em que o “efeito China” deu alento a muitas economias no mundo. Um dos efeitos desta paralisia chinesa é a crise de insumos fabris como peças e equipamentos, que afetará duramente economias imperialistas (como a alemã, por exemplo), que dependem deste fornecedor. 

Diante deste cenário explosivo, o que significa para os trabalhadores a crítica de Lula à política de Bolsonaro, de que “o Estado tem que ser forte” e que “a crise fiscal não importa, porque o que importa é a saúde das pessoas”? Depois de Lula continuar sua militância contra o urgente “FORA BOLSONARO” e de Bolsonaro, este ousado delinquente, tentar decretar a legalidade do corte salarial de quatro meses neste momento, o que significa esta crítica insossa? Nada! Absolutamente nada! 

A crise fiscal e arrecadatória em geral, importa muito, o que só pode ser resolvido possibilitando um salto espetacular nos gastos emergenciais do governo com saúde, expropriando imediatamente da burguesia, todos os abundantes recursos para isso. Recursos que devem retornar a mão de quem os produziu, não só na forma de centros hospitalares, centros de pesquisa e prevenção, mas na forma emergencial de transferência direta mensal de renda às famílias. Se o cinismo de Lula, com suas proposições comodamente abstratas, se referia as tremendamente onerosas reservas financeiras do governo, é preciso lembrar que elas não são dinheiro sobrando, mas o resultado de anos de emissões de títulos da dívida pública fraudulenta, que vampiriza o Estado e deve ser anulada imediatamente. Lula sugere que uma ação abrangente do governo contra a crise e a pandemia pode ser feito com uma simples canetada, que se trata de habilidade administrativa e que os bancos, as transnacionais, a concentração de terras, a burguesia enfim, nada tem com isso e que, portanto, a luta organizada do povo contra o sistema tem importância relativa. Dois miligramas de caráter não permitiriam tamanho descaramento.   

Mas a aproximação da gigantesca crise do sistema capitalista mundial nestas circunstâncias produz um efeito político imediato e concreto, que é o de fazer a morte relacionada à pobreza parecer aos olhos dos trabalhadores como o que realmente é e sempre foi: assassinato. Seja em uma emergência pandêmica ou não. O torpor inicial e o desalento instintivamente se transformam em revolta e tentativa de superar a dificuldade. Por isso, é tarefa dos revolucionários explicar pacientemente aos trabalhadores quais as reais opções que possuem, denunciando o perigo e a farsa das críticas oportunistas, esclarecendo as relações entre as crises humanitárias e as tendências imanentes a este modo social de produção da vida humana. Estimulando a cada pequena conquista da luta, a capacidade dos trabalhadores de projetar em suas mentes os efeitos concretos da propriedade coletiva dos grandes meios de produção e da economia planejada.

Milhares de metalúrgicos e outras categorias estão paralisando no Brasil, desafiando as minúcias sórdidas da lei de greve, organizando-se via redes sociais e outros meios de comunicação. A inércia cínica e oportunista das centrais sindicais deve estar na mira dos trabalhadores. Não se pode esperar para organizar o combate diante de tal aceleração da guerra de classes. É preciso articular a preparação da Greve geral por tempo indeterminado com o Fora Bolsonaro, ainda durante a pandemia, mesmo que sua deflagração seja, por ora, inviável. Os trabalhadores darão saltos de consciência diante da claridade com que as relações capitalistas se explicitam agora em sua essência.

Além disso, o combate às posturas vacilantes e/ou traidoras das centrais sindicais e partidos de esquerda será parte importantíssima na antessala do que está por vir. Estas instituições são peças cruciais e o tempo de hesitar acabou. Pra se ter uma ideia da situação, esse foi o principal encaminhamento da CUT, diante da famigerada MP 927 com a qual o governo pretende atacar o povo durante a pandemia. Em nota, 

“Constituição de uma mesa de enfrentamento da crise com a participação do governo, congresso e das entidades representativas de empresários e trabalhadores, visando estabelecer iniciativas consensuais para a proteção da vida, da renda e do emprego em oposição à iniciativas unilaterais, como a da edição da MP 927/2020” (CUT, 23/03/2010).

É inacreditável, mas as outras centrais não estão longe disso. A greve geral por tempo indeterminado deve começar assim que as condições sanitárias forem seguras, e sua organização deve começar já, no planejamento, nas análises, na conscientização dos trabalhadores e na interação dos sindicatos entre si e com os partidos de esquerda. Os trabalhadores não podem mais admitir que seus órgãos de luta essenciais continuem a mercê do oportunismo eleitoral e das limitações intransponíveis do parlamento burguês. Todas as conquistas históricas das massas organizadas, (mesmo as advindas de mãos acuadas ou interesseiras) foram obras delas mesmas e dos que tombaram, é uma verdade incontestável.    

Os trabalhadores e trabalhadoras irão lutar por suas famílias como sempre fizeram, os demagogos irão apontar pseudo saídas e confundir as massas como de costume, os lacaios do capital irão resistir com grande violência como sempre fizeram. E o socialismo será a única alternativa, como sempre foi.

 

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