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Um milhão nas ruas da França enquanto a greve continua

A greve interprofissional de ontem (10/12) contra a Reforma da Previdência de Macron levou entre 800 mil e 1 milhão de trabalhadores e jovens às ruas da França, de acordo com a Confederação Geral do Trabalho (CGT). Embora represente uma queda em relação à mobilização da última terça-feira (que foi possivelmente a maior desde 1995), o comparecimento ainda foi alto, com forte participação dos trabalhadores dos transportes, professores, profissionais de saúde e estudantes.

Semelhante ao movimento dos Coletes Amarelos, a greve, além das grandes cidades, atingiu as pequenas e continua a gozar do apoio da maioria da população. A questão agora é se essas greves se estenderão além dos trabalhadores dos transportes e do serviço público ao setor privado: este será o fator decisivo para determinar a vitória ou a derrota.

Trabalhadores dos transportes e professores na luta

Os trabalhadores dos transportes ainda constituem a parte principal do movimento e permanecem em greve por tempo indeterminado até novo aviso. Houve uma enorme interrupção na rede ferroviária francesa desde a quinta-feira: o metrô de Paris ainda está fechado (causando engarrafamentos na capital), e apenas uma quinta parte dos trens de alta velocidade TGV estavam circulando ontem. Muitos trens Eurostar foram cancelados. As greves dos controladores de tráfego aéreo resultaram no cancelamento de 25% dos voos domésticos da Air France e 10% de seus voos internacionais de curta distância.

Os hospitais estavam com serviço mínimo e os motoristas de táxi ameaçaram tomar medidas na próxima semana. Milhares de policiais foram mobilizados na capital. O impacto sobre Paris (durante a estação economicamente vital do Natal) foi profundo, com muitos restaurantes, lojas e hotéis perdendo até 50% de seus lucros programados para o dia. Vários shows e performances também foram cancelados, com os bailarinos da Ópera de Paris sendo alguns dos mais fortes oponentes à reforma previdenciária, uma vez que perdem o programa especial de aposentadoria que compensa o custo físico infligido por sua profissão.

Assim como na quinta-feira passada, os bombeiros estiveram na linha de frente das greves: seu papel ao defender os manifestantes da violência policial lhes rendeu certo grau de autoridade no movimento. Enquanto isso, os professores continuam sendo a segunda maior coluna, ao lado dos trabalhadores dos transportes. O principal sindicato dos professores, o SNES, anunciou uma taxa de 62% de greves no setor educacional e os professores formaram um grande bloco na marcha de 150 mil pessoas que marcharam ontem em Paris.

Os professores franceses sofreram anos de cortes e têm salários muito baixos em comparação aos seus colegas europeus (cuja renda não é nada do outro mundo). Por exemplo, o salário médio antes dos impostos de um professor francês é de 30.350 ao ano, em comparação aos 36.247 de um professor britânico e aos 48.571 de um professor alemão. Para compensar isso, suas aposentadorias estão baseadas em seus últimos seis meses de ganhos antes da aposentadoria: um acordo que deve ser descartado sob o novo regime.

Na quarta-feira passada (4/12), uma tentativa do ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, de acalmar as preocupações dos professores com uma carta “explicando” a Reforma da Previdência, teve exatamente o efeito contrário. Laetitia Faivre, professora de inglês no Collège la Gange aux Belles, no 10o Distrito de Paris, disse que a carta “somente piorou as coisas. Foi muito provocativa, propunha mil euros ao mês. Blanquer devia tentar viver com isso. Foi chocante”. Ela disse que ninguém estava gostando das palhaçadas de Blanquer, assinalando que ele regularmente prometia aumentar os salários dos professores, mas que estes nunca melhoraram em dois anos. “As pessoas estão percebendo que o que Blanquer diz na mídia e o que realmente acontece são duas coisas muito diferentes”.

Apesar da participação um pouco menor do pessoal da educação em comparação à quinta-feira (com menos escolas fechadas), esses trabalhadores demonstraram alto nível de determinação e organização. Por exemplo, ontem, uma assembleia geral reuniu 200 professores dos 92 estabelecimentos de Ile-de-France (incluindo faculdades, escolas secundárias e primárias), que votaram unanimemente pela renovação de sua greve.

Além disso, o número de assembleias interprofissionais está se multiplicando. Como informou Le Monde (certamente um jornal que não é de esquerda), várias assembleias conjuntas foram realizadas em Ile-de-France, que organizaram ações de solidariedade uma vez que os professores participam dos piquetes da RATP (Régie Autonome des Transports Parisiens – Empresa Pública Autônoma dos Transportes Parisienses), e os trabalhadores dos transportes visitam escolas para discutir as implicações da luta com alunos e professores. Esses embriões da democracia dos trabalhadores são muito promissores e devem ser estimulados nos próximos dias.

Esse tipo de luta coordenada também preocupa claramente o governo, que está ansioso por isolar os trabalhadores dos transportes. Um conhecido sindicalista da educação foi violentamente preso em Aubervilliers, depois de uma semana em que os professores haviam apoiado os grevistas da RATP bloqueando os depósitos de ônibus. Imediatamente depois, uma manifestação conjunta dos trabalhadores dos transportes e professores desceu sobre o Comissariado de Aubervilliers exigindo sua libertação imediata.

Trabalhadores e jovens mobilizados

Como já mencionado, as greves não se limitaram a Paris. Por exemplo, uma assembleia interprofissional (convocada pela CGT local) foi levantada em Le Havre no dia 9 de dezembro, com o comparecimento de 200 delegados representando os trabalhadores dos transportes, professores, trabalhadores de refinaria, trabalhadores químicos, estivadores, profissionais de saúde e trabalhadores metalúrgicos, que votaram por ação de greve indefinida em toda a cidade em seus respectivos setores. Subsequentemente, houve grandes manifestações no dia 10. Existem muitos exemplos similares em outras partes do país.

Milhares de pessoas também tomaram as ruas de Grenoble, Lyon e Rouen; e os manifestantes enfrentaram repressão violenta da polícia em Lille e Montpellier, com imagens circulando nas redes sociais de manifestantes espancados e ensanguentados. Foi filmado, em Lille, um homem caído no chão, desacordado, após ser atingido na cabeça por um cilindro de gás.

Apesar dessa brutalidade, as massas têm sido muito disciplinadas e as marchas foram em sua maioria pacíficas. As manifestações em Marselha foram particularmente impressionantes. Pela manhã, os estivadores em greve fecharam o porto e facilmente 150 mil saíram às ruas, apesar da grande presença policial. Foi o maior protesto na prefeitura desde a luta contra a Lei Trabalhista de 2016. Enquanto isso, em Saint-Denis, no nordeste de Paris, os trabalhadores organizados pela CGT na planta de Montreuil impediram a liberação de diesel, gasolina e óleo combustível de sete das oito refinarias francesas pertencentes a Total, Petroinéos e ExxonMobil. Junto com os estivadores, isso é potencialmente muito poderoso, visto que esses trabalhadores controlam o suprimento de petróleo na França.

Os estudantes continuam a ser uma presença visível nas manifestações, particularmente na capital, onde eles levantaram suas próprias palavras de ordem contra a precariedade e o alto custo de vida, além de apoiar a luta maior contra a reforma previdenciária e Macron. Os estudantes marcharam ao lado de uma procissão de grevistas da RATP desde o depósito de Ivry em Paris, com trabalhadores e jovens trocando slogans entre si e cantando “Todos somos filhos da greve!

Também houve moções de solidariedade aprovadas em grandes assembleias estudantis em locais como Toulouse. A gendarmaria (força militar, encarregada da realização de funções de polícia) não poupou os jovens da repressão: por exemplo, uma manifestação estudantil em Lille foi rompida com bastões e gás lacrimogêneo.

Nenhuma concessão do governo

A greve de ontem foi programada para preceder um anúncio de hoje pelo Primeiro Ministro Edouard Philippe sobre os planos do governo para sua profundamente impopular Reforma da Previdência. Anteriormente, Philippe falou ao Le Journal du Dimanche que ele e Macron estão determinados a seguir adiante com o seu novo e unificado “sistema de pensões baseado em pontos”, que eliminará os “regimes especiais” e as disposições que compensam os trabalhadores do setor público por salários baixos e horários imprevisíveis com condições mais favoráveis para a aposentadoria. “Se não realizarmos uma reforma de longo alcance, séria e progressista hoje, alguém fará amanhã uma reforma realmente brutal”, declarou ele, advertindo que o anúncio de hoje não conteria “anúncios mágicos” para sufocar os protestos.

Como prometido, em um discurso cheio de banalidades, Philippe anunciou hoje que o governo continuaria com a revisão das pensões. Um ponto vago sobre os professores não “perderem um só euro” de suas pensões foi mencionado, mas não detalhado. A pensão mínima apenas tolerável de 1.000 ao mês será mantida, supondo que os trabalhadores vivam até 2027. Às mulheres foram oferecidas algumas concessões limitadas sobre a licença de maternidade, que serão completamente neutralizadas pelos cortes e salários estagnantes, e disseram-lhes que precisariam ter pelo menos três filhos para garantir suas pensões.

Soldados, bombeiros, policiais e guardas prisionais ainda teriam direito à “aposentadoria antecipada”, mas todos os outros regimes especiais para trabalhadores do serviço público serão descartados. A idade legal para a aposentadoria oficial permanecerá em 62 anos, mas somente até 2027, e, enquanto isso, a pensão máxima não entrará em vigor até os 64 anos, “incentivando” as pessoas a trabalhar mais (através da ameaça da fome).

A única mudança significativa é que o novo sistema será aplicado a pessoas nascidas depois de 1975 até 2025, em vez de 1963 como anteriormente planejado. Os que ingressarem na força de trabalho a partir de 2022 serão direcionados ao novo sistema, com todos entrando por fases no curso de alguns anos. Essa foi uma tentativa de dividir os sindicatos, já que CFDT e UNSA haviam dito anteriormente que a chamada “cláusula do avô” seria suficiente para eles terminarem sua greve.

Em resumo, Macron pretende ir adiante com seu plano para fazer com que a maioria das pessoas trabalhem mais por uma aposentadoria menor e eliminar os poucos benefícios que existem para os trabalhadores do setor público, que trabalham sob condições árduas e baixos salários. O sistema de pontos significa que as pensões serão calculadas com base nos salários, e não nas contribuições. Viva na precariedade; morra na precariedade! Até a CFDT de direita descreveu o plano apresentado hoje como o cruzamento de uma “linha vermelha”, e discutirá sua posição amanhã (da mesma forma que UNSA). A CGT declarou que não aceitará nada menos do que uma “mudança completa” na Reforma da Previdência. Para Macron – o covarde presidente centrista que prometeu “nunca ceder aos protestos de rua” – realizar essa reforma é uma questão de vida e morte política. Ele não tem a intenção de ceder terreno.

É claro que as massas veem a reforma previdenciária pelo que ela é: parte de uma política geral para fazer os trabalhadores franceses comuns pagarem pela crise do capitalismo francês através da “modernização” dos serviços públicos (isto é, privatização), “liberalizando” as aposentadorias e as condições de trabalho (isto é, cortes) e “incentivando o investimento” (isto é, incentivos fiscais para os ricos). Apesar da ênfase dos líderes sindicais em forçar o governo a abandonar a reforma previdenciária, essa greve passou a refletir a raiva de toda a sociedade francesa contra o governo dos ricos de Macron. Isso é demonstrado pelo fato de que, apesar de todas as interrupções e táticas precárias dos líderes sindicais, 53% dos franceses ainda apoiam os grevistas.

Trabalhadores dos setores público e privado: unam-se e lutem!

Uma reunião de cúpula dos sindicatos, com a participação de representantes da CGT, FO, FSU, Solidariedade, MNI, UNEF e UNI, anunciou que as “greves e mobilizações locais” continuarão amanhã, até uma terceira greve interprofissional em 17 de dezembro. No entanto, apesar de fazer um amplo apelo à “maior participação dos trabalhadores dos setores público e privado, junto com os estudantes e jovens”, a declaração simplesmente convida os trabalhadores a tomar parte em greves renováveis “onde eles decidirem”. Essa passividade e falta de qualquer liderança ou perspectiva política adequada por parte da liderança sindical destaca um grande perigo enfrentado por esse movimento grevista.

Apesar de destacar a participação de novas camadas do setor privado (incluindo os trabalhadores das refinarias, agroindustriais, metalúrgicos etc.), os líderes sindicais são vagos nos detalhes. Eles não são muito claros quando se trata de números concretos quanto à participação em diferentes partes da França. E, tanto quanto podemos dizer, o envolvimento dos trabalhadores do setor privado ainda é muito limitado. A vida continuou normal em grande parte do país. Sem um esforço sério e coordenado para envolver os trabalhadores do setor privado na luta (explicando a necessidade da resistência a toda a política de ataques de Macron sobre a classe trabalhadora) há o risco de que os trabalhadores dos transportes, que formam a vanguarda da greve, sejam isolados. Apelos passivos aos trabalhadores do setor privado para arriscarem seus salários e se submeterem a sanções de seus patrões são insuficientes: a questão deve ser tratada de forma séria, sistemática e política.

Os trabalhadores do setor público permanecem unidos por enquanto, mas já há sinais de fadiga. A escala reduzida dos protestos dessa semana sugere uma queda proporcional no número dos reais grevistas. Se a greve for suficientemente enfraquecida, o governo provavelmente entrará em negociações separadas com os sindicatos dos professores e com os mais moderados sindicatos dos transportes, em uma tentativa de dividir e conquistar o movimento. Em segundo lugar, embora o apoio público à greve seja alto, ele caiu 10 pontos percentuais em uma semana. Se a interrupção continuar sem qualquer plano claro ou sem dar passos à frente, e sem um claro programa que ligue a greve à luta contra os ataques dos capitalistas contra a classe trabalhadora como um todo, o governo terá mais êxito em suas tentativas de introduzir uma cunha entre os trabalhadores em greve e o público em geral.

Os trabalhadores em luta devem desenvolver e ampliar suas assembleias gerais e utilizar esses organismos do poder dos trabalhadores para pressionar seus líderes sindicais a expandir a greve contra a reforma previdenciária em uma ofensiva geral contra o odiado governo Macron. Há uma grande vontade por isso nas ruas. Ao enfatizar a necessidade de “negociações adequadas” com o governo para reverter a reforma previdenciária, os burocratas estão muito atrás do estado de ânimo radical que existe na sociedade, quando o povo declarou: “nenhuma negociação! Lutar até o fim! Queremos Macron fora!” A recusa dos líderes sindicais de se comunicarem adequadamente com os trabalhadores é uma manobra deliberada. Eles estão desesperados para manter a greve dentro de canais seguros: focada em uma questão específica, em vez de provocar uma luta política contra o regime de Macron. Mas Macron não pode e não oferecerá quaisquer concessões genuínas. A luta contra a Reforma da Previdência, portanto, exige um confronto com o próprio governo.

Se a estratégia dos burocratas continuar, a greve se esgotará e cairá na derrota. Isso não se pode permitir. As grandes tradições revolucionárias da classe trabalhadora francesa foram exibidas na semana passada. Tudo o que falta é a liderança revolucionária para guiá-los à vitória. Se essa liderança surgisse da luta, o decrépito regime de Macron não duraria um só dia.

 

Tradução de Fabiano Leite.

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