Um ano de pandemia: o capitalismo e a necessidade da revolução

Há um ano, no dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que o mundo enfrentava uma pandemia. Essa declaração não significava um mero formalismo, mas sim que tinha sido identificada a transmissão local da Covid-19 em todos os continentes. Naquele dia, os dados oficiais apontavam 118.319 casos de contaminação em todo o mundo e 4.292 mortes provocadas pela Covid-19. O Brasil registrava 34 casos e só viria a registrar a primeira morte na semana seguinte. Hoje o mundo registra cerca de 2 milhões e 600 mil mortes, das quais mais de 270 mil no Brasil.

Não é preciso mencionar outros dados para mostrar a tragédia que o mundo vive diante da pandemia, que foi agravada e levada a esse ponto por conta da dinâmica própria do capitalismo. O capitalismo vinha mostrando sintomas de crise, visível por meio da estagnação ou redução do crescimento econômico de diversos países, que levava a um aumento do desemprego e a ataques contra direitos dos trabalhadores. Esses sintomas de crise também se expressavam por meio das revoltas e revoluções, ocorridas ao longo de 2019, protagonizadas por trabalhadores em todos os continentes, como resposta à piora na situação de vida e de trabalho.

Portanto, por um lado, o vírus impactou uma economia fragilizada, afetando diversos setores da economia, que tiveram que ou fechar muitos dos seus locais de produção ou reduzir a quantidade de trabalhadores. O exemplo mais claro se deu em empresas de diversos ramos, como a Ford no Brasil, que, ao longo do ano, também foram anunciando demissões e fechamentos fábricas. O capitalismo, portanto, empregava uma de suas formas mais comuns de superar suas crises. Além disso, muitas das pequenas empresas se viram afetadas, falindo e fechando as portas, devido à diminuição na circulação de pessoas e ao aumento no uso de serviços de comércio virtual.

Contraditoriamente, outros setores econômicos cresceram de forma estrondosa, em especial aqueles vinculados aos diversos ramos da tecnologia. No cenário de pandemia, empresas de comércio virtual, em especial gigantes como a Amazon, se tornaram ainda mais lucrativas e poderosas. Além disso, a tendência ao crescimento do uso de aplicativos na contratação de serviços, observada nos anos anteriores, também se ampliou, fazendo crescer e diversificar as possibilidades de atendimento pelo iFood, Uber, entre outros.

Para os trabalhadores o cenário foi trágico. O desemprego cresceu de forma estrondosa, batendo recordes em países como Estados Unidos e Brasil. Por outro lado, a demanda por força de trabalho nos setores que conseguirem crescer, como os de tecnologia e os serviços de aplicativo, significou o aprofundamento da precarização. O Estado atuou tanto no sentido de garantir medidas compensatórias, por meio do pagamento de seguro-desemprego ou de auxílios emergenciais, como no sentido de atacar direitos daqueles que conseguiam manter seus empregos, legalizando a redução de carga horária ou a precarização por meio do trabalho remoto.

Com a pandemia, houve um arrefecimento nas mobilizações dos trabalhadores. O espaço das ruas foi deixado momentaneamente de lado e a ameaça de derrubada de governos foi transformada pelas direções reformistas no discurso de unidade nacional numa pretensa guerra contra o vírus. Contudo, com raras exceções, todos os governos tiveram uma postura de priorizar a amenização dos danos econômicos das empresas e dos bancos, por meio de substanciais apoios financeiros. Os trabalhadores, além do desemprego e da perda de direitos, quando muito mantinha apenas o direito de manter um emprego precarizado.

Nesse cenário, em certo momento, as redes sociais se tornaram um espaço de organização e mobilização. No Brasil, houve um grande crescimento de grupos virtuais em torno do “Fora Bolsonaro”, acompanhado de frequentes e sistemáticos panelaços. Contudo, em diversos países, logo as ruas voltaram a ser tomadas pelos trabalhadores, como nos Estados Unidos, diante da repressão policial. Nos meses seguintes outros países se tornaram palco de intensas mobilizações, como Colômbia, Taiwan e, mais recentemente, Senegal.

Outra marca desse um ano de pandemia passou pela postura negacionista de líderes políticas em âmbito internacional, como no caso do Brasil, dos Estados Unidos e da Inglaterra. Ainda que esses sejam os casos mais drásticos exemplos de negacionismo, quase todos os governos mantiveram uma postura de adotar medidas parciais ou ineficazes para conter a proliferação da Covid-19. Os interesses da burguesia guiaram as ações dos governos em todo o mundo.

As ações governamentais para combater o avanço da Covid-19 em quase todos os países careceram de planejamento ou mesmo de efetivos critérios científicos. O vírus circulou livremente pelo mundo, em especial quando a diminuição episódica no número de contágios e mortes fez com que os governos autorizassem a abertura dos mais variados setores da economia. Um novo aumento de mortes sempre levava à implementação de algumas restrições, reduzindo parcialmente a circulação de pessoas, mas sem atacar de forma direta os espaços de maior contágio, como o transporte público, fábricas e comércios.

Um dos setores econômicos em que os interesses privados também prevaleceram foi o de desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19. Em todo o mundo, não se viu uma cooperação científica para a criação de vacinas, mas a pulverização de esforços, guiada normalmente pelos interesses dos grandes laboratórios. Os Estados nacionais se colocaram ao lado de laboratórios específicos, colaborando ou mesmo financiando as pesquisas. Além disso, o fato de o desenvolvimento da vacina ser controlado pelos grandes laboratórios faz com que sua venda e distribuição se desse por meio da lógica do lucro e para atender, de forma prioritária, os interesses imperialistas.

Passado um ano, a pandemia continua a assolar o mundo. Os tímidos recuos estatísticos pouco importam para as pessoas que em seu cotidiano veem familiares e amigos se contaminarem ou morrerem, e muitas vezes sem sequer conseguir um leito de UTI ou mesmo se vacinar. Esse cenário poderia ser amenizado ou mesmo superado se houvesse uma economia planejada, que priorizasse ações que não visassem o lucro privado. Mas isso somente seria possível por meio da revolução e da construção do socialismo.

A burguesia entende que a piora nas condições de vida e o avanço da consciência dos trabalhadores pode colocar em risco o sistema em seu conjunto. Essa é a razão para que se tenha colocado o Estado a investir pesadamente na economia, auxiliando a burguesia na manutenção da ordem capitalista e, ao mesmo tempo, garantindo uma pífia melhoria momentânea na situação dos trabalhadores. Contudo, mesmo essa perspectiva de investimentos estatais tem seus limites. As recentes mobilizações que ameaçam derrubar o presidente no Paraguai são um exemplo disso. O impacto dessa crise, bem como a situação política de outros países, faz com que setores da burguesia coloquem em destaque diferentes alternativas políticas no cenário político brasileiro, como a ação de tirar as acusações contra Lula e fazendo importantes lideranças políticas e empresariais elogiarem publicamente o petista.

Se é fato que estão dadas as condições objetivas que colocam a possibilidade da revolução, diante de uma das mais profundas crises que o capitalismo viveu em toda a sua existência, também é fato que não existe direção política dos trabalhadores que coloque no horizonte a transformação da sociedade. Somente será possível superar a pandemia com a derrubada do capitalismo e, para tanto, é preciso construir uma direção revolucionária dos trabalhadores, tendo no horizonte uma economia planificada e uma sociedade em que os trabalhadores, por meio de suas organizações, decidam seus rumos.

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