Fotos: Nick Solari, Flickr

Sanders e a falência do reformismo

No último dia 08, Bernie Sanders anunciou que estava desistindo da disputa interna que escolherá a candidatura que representará o Partido Democrata nas eleições presidenciais previstas para novembro deste ano. Em discurso, afirmou:

“Agora, temos cerca de 300 delegados atrás do vice-presidente Biden, e o caminho para a vitória é praticamente impossível. Portanto, enquanto estamos vencendo a batalha ideológica e enquanto estamos ganhando o apoio de jovens e trabalhadores em todo o país, concluí que essa batalha pela indicação democrata não será bem-sucedida”.

Sanders se equivoca quando afirma que somente agora a disputa ficou impossível e quando resume a disputa a uma mera batalha ideológica, afinal trata-se da luta de classes, onde a burguesia, diante do crescimento das lutas de trabalhadores, não poderia permitir que um dos principais partidos do imperialismo mundial tivesse uma candidatura que, apesar de seu perfil muito mais reformista e nada revolucionário, falava abertamente em socialismo.

Sanders também justifica a desistência devido ao momento de crise provocada pela pandemia do coronavírus, afirmando:

“como vejo a crise dominando a nação – exacerbada por um presidente que não quer ou não pode oferecer nenhum tipo de liderança confiável – e o trabalho que precisa ser feito para proteger as pessoas nesta hora mais desesperadora, não posso, em sã consciência, continuar a montar uma campanha sem perspectiva de vitória e que interferiria no importante trabalho exigido de todos nós nesta hora difícil”.

Contudo, este seria o momento de justamente reafirmar com mais veemência o programa defendido por Sanders, principalmente o sistema público de saúde, mas não como mera promessa eleitoral de um possível candidato, mas como parte da mobilização dos trabalhadores para arrancar essas e outras reivindicações de imediato.

Sanders e os setores “marxistas” que o apoiam fortaleceram a ilusão de que seria possível derrotar o establishment político e econômico norte-americano. Sanders inclusive destacou em seu discurso de desistência que “o maior obstáculo à mudança social real está relacionado ao poder do establishment corporativo e político de limitar nossa visão sobre o que é possível e o que temos direito como seres humanos”. Certamente é positivo que novamente em uma disputa eleitoral nos Estados Unidos a palavra “socialismo” tenha sido destacada e, mais do que isso, tenha ganhado a adesão de jovens e trabalhadores em todo o país. Sanders destacou quais seriam os aspectos dessa mudança, em seu discurso, ao afirmar que, “se não acreditarmos que temos o direito de viver em um mundo de justiça, democracia e igualdade – sem racismo, sexismo, homofobia, xenofobia ou intolerância religiosa – continuaremos a enfrentar enormes desigualdades de renda e riqueza, preconceito e ódio, encarceramento em massa, imigrantes aterrorizados e centenas de milhares de americanos dormindo nas ruas do país mais rico do mundo”.

Outro aspecto do movimento em torno de Sanders é o amplo segmento de jovens e trabalhadores que apostaram em sua candidatura. Os números não são fáceis de precisar, mas o próprio Sanders apresentou alguns dados em seu discurso:

“Quero agradecer aos 2,1 milhões de americanos que contribuíram para nossa campanha e mostraram ao mundo que podemos assumir um sistema financeiro de campanha corrupto e executar uma grande campanha presidencial sem depender dos ricos e poderosos. Obrigado por suas 10 milhões de contribuições, com uma média de US$ 18,50 por doação”.

Além disso, Sanders reconhece que esse movimento é muito superior à disputa que então abandona ou mesmo mais amplo que o Partido Democrata, apontando:

“como todos sabem, nunca fomos apenas uma campanha. Somos um movimento de base, multirracial e multigeracional, que sempre acreditou que a mudança real nunca vem de cima para baixo, mas sempre de baixo para cima. Enfrentamos Wall Street, as seguradoras, as farmacêuticas, a indústria de combustíveis fósseis, o complexo industrial militar, o complexo industrial prisional e a ganância de toda a elite corporativa. Essa luta continua. Embora esta campanha esteja chegando ao fim, nosso movimento não está”.

Concretamente, o que existe é um amplo movimento de jovens e trabalhadores organizado em comitês e organizações locais, reunindo uma vanguarda disposta a lutar e a buscar alternativas sociais e políticas de superação ao capitalismo. Trata-se de um movimento muito superior a uma mera disputa institucional, ou seja, um movimento que nunca deveria ter sido colocado em meio à disputa institucional de um partido burguês. Nunca houve a chance de vitória, embora o discurso de Sanders continue a semear ilusões: “Se eu acreditasse que tínhamos um caminho possível para a indicação, certamente continuaria a campanha. Mas não temos essa chance”. Essa é a análise que deveria ter sido feita meses atrás, não apenas agora. O establishment democrata começou bastante dividido, pulverizado em uma dezena de candidaturas, embora o traço comum de todas tenha sido o de se apresentar como aquela que melhor poderia unificar o partido. Diante do excelente resultado de Sanders nas primeiras disputas, a cúpula do partido articulou a construção da unidade em torno do ex-vice presidente de Barack Obama, Joe Biden.

Com a desistência da candidatura, Sanders deixa claro seu papel em defesa da unidade partidária, em sua busca por conquistar a confiança da cúpula democrata. Em seu discurso, afirma, assumindo não apenas o compromisso com a candidatura de Biden, mas também com a construção partidária:

“juntos, unidos, avançaremos para derrotar Donald Trump, o presidente mais perigoso da história moderna dos Estados Unidos. E lutaremos para eleger fortes progressistas em todas as esferas do governo, do Congresso ao conselho escolar”.

Por essa razão, Sanders afirma que ele e seus apoiadores devem seguir na disputa, fortalecendo a ilusão de que seria possível empurrar os democratas para a esquerda, ao incorporar uma plataforma reformista ao programa de Biden. Segundo Sanders, “permanecerei na votação em todos os estados restantes e continuarei a reunir delegados. Embora o vice-presidente Biden seja o candidato, ainda devemos trabalhar para reunir o maior número possível de delegados na convenção democrata, onde poderemos exercer influência significativa sobre a plataforma do partido e outras funções”.

Sanders fez um precioso serviço aos democratas, levando para dentro de um dos grandes partidos da burguesia norte-americana um amplo movimento de trabalhadores, fortalecendo ilusões de que seria possível derrotar não apenas o poder econômico, mas também os mecanismos estatutários que garantem que nunca uma candidatura desalinhada à cúpula do partido poderá ser escolhida. Neste momento, com a desistência de Sanders, uma parcela do movimento que o apoia encontra-se diante da opção de disputar o programa imperialista a ser defendido com Biden. Sanders fortaleceu a ilusão de que seria possível vencer o poderio econômico da burguesia por dentro das instituições e terminou por deixar jovens e trabalhadores abandonados frente ao bipartidarismo eleitoral. Não cabe à esquerda semear qualquer ilusão nessa disputa, e os apoiadores de Sanders não podem se limitar a deixar menos ruim o programa burguês de Biden.

Neste momento em que jovens e trabalhadores precisam se organizar urgentemente para arrancar as condições mais básicas que garantam sua sobrevivência, o reformismo, expresso por Sanders, abandona a disputa institucional e não aponta para um caminho de luta concreto por fora da democracia burguesa. Os apoiadores de Sanders devem dar continuidade ao movimento, superando eventuais ilusões no Partido Democrata e abandonando imediatamente qualquer vínculo com a legenda, não apenas fortalecendo os comitês e organismos locais como também apontando para a necessidade de construir um novo partido, dos e para os trabalhadores.

Leia o chamado da seção norte-americana da CMI aos apoiadores de Sanders.

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