Foto: André Borges/Agência Brasília

Rodoviários de Brasília, Distrito Federal: entre o descaso e a tragédia

Há mais de três meses a categoria dos rodoviários de Brasília, Distrito Federal, vem sendo tratada com descaso. Primeiramente, foi tomada de surpresa com uma situação inusitada: sem informar nada antecipadamente (o que não justificaria o ato), as empresas de transporte público coletivo que operam na capital federal transformaram as horas extras de milhares de trabalhadores, acumuladas em março, em banco de horas. Considerando que as horas extras representam para muitos motoristas, e cobradores cerca de 40% de suas rendas, os rodoviários foram assaltados pelos patrões. E isso aconteceu em pleno início das medidas do governo de Brasília contra o coronavírus, mesmo que de maneira parcial e precária.

No dia 20 de maio, um novo ataque aos trabalhadores foi perpetrado pelos patrões, donos das empresas de ônibus. Foi informado, em cima da hora novamente, que o pagamento do chamado adiantamento, regularmente pago na referida data, conforme estabelecido no Acordo Coletivo da categoria, não aconteceria, deixando os trabalhadores com a promessa que o pagamento seria realizado totalmente no quinto dia útil de junho. Tal malfeito obrigou que muitos trabalhadores tivessem que adquirir dívidas com bancos para conseguir honrar seus compromissos.

Não bastasse as inescrupulosas medidas tomadas anteriormente, os proprietários das empresas de ônibus cortaram ainda mais fundo na carne dos trabalhadores. Alegando prejuízos gerados pelas medidas de combate à proliferação do coronavírus, com a redução de 80% no fluxo de passageiros, não realizaram o pagamento da totalidade dos salários conforme indicado inicialmente.

Todas essas medidas baseavam a estratégia dos patrões para drenar recursos públicos com a conivência do governo Ibaneis e exigir um “auxílio emergencial” de mais de R$ 106 milhões mensais para manutenção de seus lucros e conforto, medida logo contestada pela Justiça assim que a Secretaria de Transporte e Mobilidade iniciou os repasses. Enquanto isso, os rodoviários amargavam suas perdas salariais sem qualquer promessa de reposição (no caso das horas extras), bem como as dívidas adquiridas pelo descumprimento sucessivo das datas de pagamento acordadas. Um total descaso com a categoria com a única perspectiva de manutenção dos lucros frente a um serviço público.

Do descaso à tragédia

Somando-se ao descaso com relação aos compromissos e direitos de milhares de trabalhadores, está a tragédia entre motoristas, cobradores e suas famílias em meio à pandemia de coronavírus. Sendo a atividade de transporte de passageiros posta como essencial por decreto e, posteriormente, como profissionais essenciais por lei, os rodoviários estão expostos nas ruas desde as primeiras contaminações em Brasília, consequentemente aumentando o risco de contaminação.

Foto: Isac Nóbrega

Mesmo sendo enquadrada como uma atividade essencial desde o início da pandemia, as medidas tomadas pelos patrões e governo para a proteção dos rodoviários foram pífias. Considerando março, houve demora de quase um mês para a entrega de somente três máscaras para cada motorista e cobrador. O primeiro decreto orientando o uso de máscara por passageiros, mas sem impedir a entrada dos que não estivessem usando, só surgiu no final de abril e a obrigatoriedade do uso só foi determinada em meados de maio. Também a obrigatoriedade da higienização de ônibus só foi determinada em lei no final de maio, mesmo que determinada pela Secretaria de Transporte e Mobilidade desde março. O resultado dessas medidas frouxas até o final de maio era de 6 rodoviários mortos, mais de 200 sob suspeita e a possibilidade de contaminação de centenas – sem ter como confirmar por falta de testagem entre a categoria. Segundo levantamento próprio, em junho já se contabilizava 11 mortes de rodoviários. No início de junho foi feita a promessa da oferta de teste para Covid-19 que só foi timidamente cumprida agora no início de julho com a oferta de somente 500 testes para rodoviários e metroviários, totalizando mais de 14 mil trabalhadores.

O Sindicato

A incerteza de quem pode estar infectado ou não torna o ambiente de trabalho um ambiente de medo e desconfiança em meio a tragédia. A esse ponto surge a questão acerca do posicionamento do Sindicato dos Rodoviários (Sindicato dos Trabalhadores de Empresas de Transporte Terrestre do Distrito Federal – Sintrater-DF).

Mesmo sugerindo a gratuidade do transporte público coletivo durante a pandemia, o Sindicato dos Rodoviários segue a linha das direções sindicais pelegas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e de partidos traidores da classe trabalhadora, como o Partido dos Trabalhadores (PT). O sindicato compra a ideia da união nacional nesse tempo de crise, onde o importante é manter os empregos e o mínimo de condições. Assim, abdicam da mobilização da categoria juntamente com toda a classe trabalhadora para garantir os empregos e a vida dos trabalhadores. Optam por reuniões e acordos com os patrões, onde o mal menor é aceito e visto como uma vitória para os trabalhadores.

Isso ficou claro na sexta-feira, dia 5 de junho. Enquanto uma comissão do sindicato se reunia com o governo para exigir um repasse de recursos para as empresas de ônibus, o sindicato mobilizou os trabalhadores para uma vergonhosa paralização de 30 minutos. Com a promessa do governo de fazer o repasse o dia 8 de junho e a liberação instantânea dos valores do vale alimentação, a direção do sindicato suspendeu a paralização, mesmo a contra gosto da maioria dos trabalhadores.

Não só a postura conciliatória do sindicato impacta os rodoviários. Há denúncias de que todo esse circo realizado no dia 05 de junho já havia sido acordado entre sindicato, patrões e governo, numa tentativa de acalmar os ânimos dos trabalhadores. E as denúncias não param por aí. O atraso na realização dos testes seria uma medida adotada em acordo entre patrões e a direção traidora do sindicato, com a intenção de esconder a real situação de contágio entre os rodoviários.

O que fazer?

Por todo o mundo vislumbramos que os trabalhadores estão passando por cima das antigas direções traidoras do proletariado e tomando consciência de que temos que tomar o nosso destino nas mãos. 

Na acrópole do Estado burguês brasileiro isso não é diferente. Os constantes ataques e assaltos aos trabalhadores de Brasília nos últimos meses está chegando ao limite. Os rodoviários cada vez fazem mais pressão sobre as direções estáticas do seu sindicato e já se escuta nas garagens das empresas e no interior dos ônibus as primeiras palavras de pressão: “Vamos fazer os patrões pagarem!”, “Sem salário, sem ônibus!”. Fica visível que está ressurgindo o ânimo de luta de uma das categorias mais importante e combativa dos últimos anos em Brasília.

Trotsky diz no programa de transição: “É necessário ajudar as massas, no processo de suas lutas cotidianas a encontrar a ponte entre suas reivindicações atuais e o programa da revolução socialista. Temos que transformar todo esse descontentamento em uma greve por tempo indeterminado, com ocupações das garagens. Deixando claro para os trabalhadores que somente com o controle dos trabalhadores sobre as empresas é possível garantir suas vidas, esse sistema nada nos tem a oferecer, além de morte e miséria. Exigindo: 

  • Pagamento dos salários e de todas as horas extras trabalhadas! 
  • Testes em massa para todos os rodoviários! Pagamento de insalubridade, e garantia de EPIs para todos os que têm que trabalhar! 
  • Afastamento com garantia de salários completos para os trabalhadores infectados e sobre suspeita! 
  • Estatização de todo o sistema de transporte sobre controle dos trabalhadores!
  • Fora Bolsonaro! Por um governo dos trabalhadores sem patrões nem generais!
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