Retorno das aulas presenciais em SP – A burguesia e a arte de obscurecer a realidade

“A gente está com as escolas preparadas”?

No dia 13 de outubro a imprensa paulista noticiou o retorno das aulas presenciais obrigatórias no estado de SP, para a rede estadual e privada, com apelo às redes municipais. Um dos principais argumentos de Rossieli Soares (Secretário da Educação) e do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), é de que há uma suposta preparação das escolas estaduais paulistas para o retorno. Mas será isso verdade?

As aulas presenciais retornaram parcialmente desde o dia 2 de agosto na maioria das escolas e o que vemos no cotidiano escolar é bastante distinto do divulgado pelos marqueteiros de Doria e cia.

Caos sanitário

No dia do anúncio do retorno às aulas presenciais, algumas escolas se depararam com a seguinte situação: novo atraso de pagamento das trabalhadoras da limpeza. Já são poucas as trabalhadoras, uma ou duas para escolas com 12 a 15 salas de aula. O corpo docente de uma das escolas, inclusive, publicou carta aberta denunciando esta e outras irregularidade sofridas pelas funcionárias (ver documento completo ao fim desse texto).

Após a divulgação da carta, outras escolas começaram a se manifestar. Deixam claro que a terceirização dos serviços de limpeza acarreta uma ineficiência crônica, por simplesmente ser incapaz de garantir o pagamento salarial e dos direitos das trabalhadoras. Algumas deixarão de trabalhar por falta de dinheiro para a condução. Porém, para Doria e Rossieli tudo segue normal.

O fato é que essa situação lastimável ameaça fechar algumas escolas, por ausência de condições sanitárias mínimas, e isso na semana do anunciado “retorno responsável” pelo governo Doria.

Preocupação ZERO com aprendizagem

O argumento central dos governos para o retorno presencial é a preocupação com aprendizagem. Contudo, o que vemos é a escola reforçar seu caráter de depósito social.

Todos os dias os professores se deparam com as seguintes situações: turmas diferentes sendo juntadas para que seja possível sua simples supervisão; professores sendo obrigados a lecionarem para turmas não atribuídas a eles, sem qualquer compromisso pedagógico. E tudo isso implica aulas não preparadas, visto que não se sabe ao certo com qual turma se irá trabalhar a cada dia. Fora isso, temos os rodízios, que inviabilizam um contato direto com os estudantes. Em suma, o retorno só serviu às manchetes do governo, em que a aprendizagem só existe na retórica.

A verdade é que o retorno das aulas presenciais em um país de economia dominada, sem infraestrutura adequada se revelou mais um fracasso da classe dominante. Porém, as consequências disso continuarão sendo sofridas somente pela classe trabalhadora.

O governo Doria segue com sua política assassina, assim como o governo Bolsonaro, favorecendo a contaminação dos estudantes e do conjunto da comunidade escolar. Faz jus ao slogan “BolsoDoria” das eleições de 2018.

Mudar tudo para continuar o mesmo

O “novo normal” das escolas estaduais paulistas segue a tragédia da normalidade anterior das escolas sob o capitalismo. A escola pública segue sem condições dignas para estudo e trabalho: ausência de funcionários, terceirização, problemas de infraestrutura e desvalorização de todos os trabalhadores da educação.  E tudo isso é agora piorado com a aplicação da Reforma do Ensino Médio e o PLC 26, que culminarão em confisco do parco direito ao conhecimento pelos estudantes e de direitos aos professores e servidores técnico administrativos da rede estadual.

O coletivo Educadores pelo Socialismo repudia as mentiras e política assassina de Doria e Rossieli sobre o retorno presencial. Chamamos à intensificação das denúncias sobre a realidade do chão de escola e organização de ações da comunidade escolar contra todos os absurdos que vemos diariamente. Isso é fundamental para dialogar com o conjunto da classe trabalhadora sobre a necessidade de uma luta séria por “Educação pública, gratuita e para todos”. Essa bandeira é parte intrínseca da luta por uma sociedade socialista, onde a prioridade seja finalmente o pleno desenvolvimento humano e não os interesses das classes dominantes.

Entre em contato pelo email: [email protected] e some-se a essa luta!

CARTA ABERTA DO CORPO DOCENTE DA E.E. PROF. ANTÔNIO EMÍLIO SOUZA PENNA

Nós, docentes da Escola Estadual Prof. Antônio Emilio Emílio Souza Penna, vimos por meio desta denunciar a situação lastimável na qual se encontram as trabalhadoras da limpeza em nossa Unidade de Ensino.

Dentre os absurdos relatadas quanto à empresa “Shalom Serviços Terceirizados” estão: atraso regular de pagamento; não fornecimento de materiais de limpeza em quantidade suficiente (há relato das trabalhadoras trazerem de casa sacos de lixo para impedir uma situação sanitária mais trágica); não pagamento do FGTS; não pagamento de Vale-transporte e agora, no mês de outubro, ainda não há sinal de salário às trabalhadoras.

Nesse contexto precário de contratação as trabalhadoras têm comparecido à escola e cumprido suas funções junto à escola pública. Mesmo arcando com os próprios custos de condução. Estão literalmente pagando para trabalhar.

Além da supracitada empresa, ressaltamos a responsabilidade bastante central do Governo Estadual de São Paulo. Este opta há anos pela terceirização de serviços de limpeza, ao invés da contratação direta, proporcionando um ambiente de maior exploração desse setor da classe trabalhadora brasileira nas escolas públicas paulistas. Isso gera situações lastimáveis, de desrespeito à dignidade humana, como a que estamos vivendo.

Essa situação, que vem se acumulando durante os meses, agora coloca a comunidade em risco. Em meio a uma pandemia e na semana em que o governo anuncia o retorno obrigatório às aulas presenciais, nos deparamos com essa situação na qual as trabalhadoras não conseguem chegar ao local de trabalho por falta de pagamento. Caso isso continue, exigiremos a suspensão das aulas por ausências de condições sanitárias de trabalho e estudo nesta Unidade de Ensino.

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