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Relato dramático do cotidiano de uma família de pequenos comerciantes na pandemia

Reunimos aqui o relato dramático do que tem vivido uma família de pequenos comerciantes que representa uma parcela considerável da população de Brasília, principalmente, em sua periferia, com uma análise acerca da chamada pequena-burguesia e de que posição deve ter diante da situação que passa juntamente com milhares de trabalhadores.

Relato do drama cotidiano de uma família de pequenos comerciantes

Eu me chamo Luhana da Fonseca e sou estudante do curso de Serviço Social na Universidade de Brasília (UnB). Vivi e ainda vivo os impactos da falta de medidas concretas e efetivas do Estado no enfrentamento dessa epidemia.

Sou filha de comerciantes. Meus pais possuem uma floricultura, único meio de obtenção de nossa renda familiar, situada na Asa Norte, região central da capital do país. Eles foram obrigados a fechar as portas sem garantias de rendas alternativas e sem previsão para reabertura.

Somos uma família de seis pessoas em uma casa: pai, mãe e quatro irmãos. Por não conseguir seguir o isolamento social efetivamente, meu pai veio a ser infectado por coronavírus e recebeu o diagnóstico de Covid-19 em 22 de março de 2020. Os primeiros sinais vieram algumas semanas antes com tosses constantes. Ao ser atendido no Pronto Socorro veio a confirmação da notícia que já suspeitávamos.

Imediatamente foi necessário o isolamento social dele e do restante da minha família. Enfrentamos diversas dificuldades nesse isolamento. A primeira foi em relação aos problemas financeiros que iriam ser causados pela impossibilidade de obtenção de rendas alternativas. Outro problema foi o próprio isolamento e o enfrentamento da propagação da contaminação na nossa própria casa, pois ainda não sabíamos se estávamos infectados e a nossa casa com somente três quartos e um banheiro para cinco pessoas sob suspeita e meu pai diagnosticado com a Covid-19.

Nossa situação era ainda mais grave, pois meu irmão mais novo, nascido prematuramente no sexto mês de gestação, tem uma doença crônica por má formação do pulmão e precisa de transplante. Consequentemente foi necessário levá-lo imediatamente para ficar em outra casa durante esse período de isolamento e tratamento de meu pai.

O medo só aumentava. Além da preocupação com a distância do meu irmão mais novo em outra casa, tínhamos o medo da propagação da doença entre nós e, com isso, foi preciso redobrar a higienização, principalmente do único banheiro que temos.

Com a floricultura fechada e o isolamento social, nossa renda caiu 70%. Então meus pais tomaram algumas medidas, como o corte nos gastos com a alimentação, comprando apenas o essencial. Foi necessário demitir um funcionário com mais de 19 anos na floricultura por ser aposentado e poder usufruir desse meio. Os demais funcionários tiveram o contrato suspenso por dois meses para não serem mandados embora e poderem receber o seguro desemprego previsto em lei.

Após 14 dias isolados, meu pai retornou ao hospital para fazer novos exames e foi constatado que o primeiro diagnóstico estava equivocado e não era o coronavírus, mas outro vírus causador de pneumonia. Logo após os resultados, retornamos com atendimentos da floricultura pela internet, sem os funcionários, apenas nossa família, por ser nosso único meio de renda. Contudo, mesmo funcionando on line foi necessário pedirmos um empréstimo no banco para manter a floricultura e conseguirmos pagar as contas.

Os pequenos comerciantes e sua situação de classe oprimida: lições a serem aprendidas

Os pequenos comerciantes são parte importante da chamada classe média. Iludidos pela falácia do livre mercado, têm como meta a ascensão à restrita classe dominante que administra o grande capital e tem em suas mãos as alavancas da economia. Para entender melhor esse grupo vamos ao um pequeno e simples contexto histórico. 

Debruçando-nos sobre os textos de Marx e Engels, por mais complexas que sejam as origens sociais desses grupos médios, podemos sintetizar suas características nos seguintes pontos: posse ou o controle de pequenas parcelas dos meios de produção e exploração da própria força de trabalho, daquela dos membros do grupo familiar ou de um pequeno número de trabalhadores associados. Esses grupos são resquícios de relações sociais anteriores ao capitalismo, com sua origem durante o estágio de composição das corporações de ofício medievais, em que as novas relações sociais nascentes se desenvolviam sob o solo das forças produtivas e culturais previamente existentes e novas formas sociais se revelavam ao mesmo tempo em que as antigas ainda existiam. Sobre esse período de “gênesis” desse grupo, Marx e Engels escrevem:

“As camadas inferiores da classe média de outrora, os pequenos industriais, pequenos comerciantes e pessoas que possuem rendas, artesãos e camponeses, caem nas fileiras do proletariado: uns porque seus pequenos capitais, não lhes permitindo empregar os processos da grande indústria, sucumbiram na concorrência com os grandes capitalistas, outros porque sua habilidade profissional é depreciada pelos novos métodos de produção.”1

Ao acompanhar o desenrolar histórico dessa relação de constante ameaça dos processos de centralização e concentração de capital sobre os pequenos comerciantes fica claro que, ao contrário do prometido pela falácia liberal, a grande burguesia arrancou e arranca mais a cada dia os lucros da pequena-burguesia. Mas esse despojamento não é a troco de nada. Quando a burguesia retira da pequena-burguesia, é para ampliar os próprios negócios, e tem muito mais condições materiais para fazer isso do que a pequena-burguesia. E em um quadro de pandemia mundial de coronavírus a crueldade das engrenagens do sistema capitalista alcançam níveis inimagináveis como escancarado pela própria mídia burguesa:

“Mesmo a pandemia da covid-19 derrubando a economia global, os bilionários estão ficando mais ricos e, mesmo com as fortunas impactadas por conta da crise, continuarão enriquecendo muito mais nos próximos anos até termos os primeiros trilionários do mundo.”2

Só a gigante Amazon, empresa do futuro trilionário Jeff Bezos, faturou entre janeiro e março de 2020, em pleno crescimento do surto de coronavírus nos Estados Unidos e países da Europa, US$ 75,5 bilhões3, cerca de R$ 382,8 bilhões, mais de três vezes o valor de R$ 123,9 bilhões previsto para o auxílio emergencial ofertado a contragosto pelo governo Bolsonaro para brasileiros desempregados e trabalhadores informais4, inacessível para os pequenos comerciantes, uma vez que são classificados como “empresários”.

Para complicar ainda mais a vida do pequeno-burguês, o grande ainda tem a ajuda e conivência do Estado em suas ações. Como ficou claro com a afirmação do Chicago Boy5 Paulo Guedes, atual ministro da economia do Brasil:

“Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos para salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas.”6

Além disso, assim que os primeiros casos da Covid-19 foram anunciados no Brasil, o governo Bolsonaro liberou um pacote de ajuda de R$ 1,2 trilhão aos bancos, demonstração efetiva do que realmente se quer salvar nessa pandemia: os lucros dos grandes burgueses.

Nesse cenário caótico, a pequena-burguesia, representada pelos pequenos comerciantes, precisa ter a consciência de que, juntamente com a classe trabalhadora, representa a massa oprimida pelo sistema para a manutenção dos lucros e privilégios da classe dominante. Como classe oprimida, os pequenos comerciantes devem se unir aos trabalhadores para exigir garantias de sobrevivência em meio à pandemia e combater medidas como as que têm sido tomadas pelo governo Ibaneis em Brasília de retomada das atividades em pleno crescimento vertiginoso de casos positivos e óbitos, não caindo nos truques que servem para dividir os oprimidos e que trará ainda mais mortes para a macabra situação que vivemos.

Nossos inimigos em comum são os burgueses e seus representantes políticos tais como Bolsonaro, Ibaneis, Doria, Witzel e tantos outros. Somente a união de todos os oprimidos pelo capitalismo garantirá a força necessária para derrubarmos quem nos aniquila em benefício privado.

Referências:

1 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista.  São Paulo: Boitempo, 1998. p. 47.

2 APUD, Mateus. Jeff Bezos é cotado para se tornar 1º trilionário do mundo; veja lista. Estadão, São Paulo, 20 maio 2020.

3 ROUBICEK, Marcelo. Como a pandemia impulsiona a fortuna de Jeff Bezos. Nexo, 21 maio 2020.

4 VENTURA, Manoel. Governo libera mais R$ 25,7 bi para auxílio emergencial. O Globo, 24 abr. 2020.

5 Sobre a relação de Paulo Guedes e o ultraliberalismo de Friedman e dos chamados Chicago Boys leia OLIVEIRA, Nathan Belcavello de. Do Chile ao Brasil: trajetória de um Chicago Boy. Foice & Martelo, São Paulo: Esquerda Marxista, n. 129, p. 6, 3 dez. 2018.

6 LARA, Rafael. “Vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas, diz Guedes. Brasil Econômico, 22 maio 2020.

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