Foto: GOVESP

Quem morre e quem vive na pandemia

Nas últimas semanas a pandemia de Covid-19 tem assombrado países de todo o mundo. Mesmo os mais ricos, como Itália e Reino Unido, veem o número de casos aumentar exponencialmente a cada dia e nos EUA e Brasil as políticas de isolamento são postas em debate.

Como explicar posturas tão diferentes?

É o termômetro da luta de classes que deve ser levado em conta para compreendermos essas diferenças. Países como França, Itália e Espanha viveram nos últimos anos um forte aumento no número de greves e manifestações de massa. O mais recente exemplo é o movimento dos Coletes Amarelos, na França, que durante meses ocupou as ruas contra Macron.

A classe dominante europeia conhece os custos que pode ter um colapso social como o que a pandemia promete. É em tempos de guerra e crise que as contradições do sistema se afloram e situações como essa levam a um salto na consciência da classe trabalhadora.

O ódio contra a burguesia, que está em gestação há décadas, também se torna mais forte nessas épocas. Em países como França e Itália, milhares de famílias ricas deixaram as grandes cidades para passar o período de isolamento em suas casas de campo como se estivessem de férias. Na Espanha o ex-primeiro-ministro José María Aznar também foi para sua casa de campo e no interior da Alemanha, um hotel inteiro foi reservado para a comitiva do rei da Tailândia.

Como consequência, as populações rurais ficaram expostas ao vírus trazido da cidade. A ilha de Noirmoutier, próxima a Paris, viu o número de habitantes dobrar da noite para o dia e o número de casos de infecção por coronavírus chegar a mais de 70.

No Brasil, uma das primeiras mortes registradas foi de uma empregada doméstica que contraiu a doença de seus patrões. Após voltarem de uma viagem à Itália, eles precisaram ficar em isolamento, mas fizeram questão que ela continuasse trabalhando normalmente.

Ao voltar para sua casa no município de Miguel Pereira, ela entrou no hospital com forte febre e falta de ar e acabou morrendo. A confirmação de que se tratava do novo coronavírus só veio no dia seguinte. Todos os seus familiares, vizinhos e demais pessoas com quem teve contato foram expostos à doença.

Ao dizer que se adoecer terá “apenas uma gripezinha”, Bolsonaro acaba revelando a divisão de classes. Ele, assim como os burgueses que saíram em seu apoio, sabe que terá os melhores médicos, o melhor hospital e os melhores recursos para se tratar caso precise.

Mas o que podem esperar populações inteiras que vivem aglomeradas em favelas, sem água ou esgoto, dividindo o mesmo imóvel com pais e avós idosos e que dependem exclusivamente do que restou do sistema público de saúde?

A Associação Médica Brasileira brasileira já recebeu 1.500 denúncias em todo o país por falta de itens de segurança básicos, como máscaras e álcool em gel. Muitos trabalhadores são forçados a comprar os equipamentos com seu próprio dinheiro para garantir sua saúde. Essa é a estrutura que deve receber os milhares de doentes que surgirão em curto espaço de tempo e se não há máscaras para todos, é desnecessário falar de UTIs e respiradores mecânicos.

Mas para os patrões, as mortes não importam desde que a economia não seja afetada. A pandemia expõe as contradições do sistema capitalista e coloca aos trabalhadores escolher entre suas vidas e seus empregos.

Sem uma direção política à altura, a classe permanece refém do medo e luta para manter suas condições de vida. Mas o futuro promete uma radicalização crescente à medida que se tornar claro que é o sistema capitalista o principal responsável pelas mortes por coronavírus.

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