Foto: Carta Capital

Quando os suspeitos são os investigadores

Prossegue a investigação da Polícia Civil sobre a execução da vereadora Marielle Franco (PSOL – RJ) e do motorista Anderson Gomes. Neste mês de abril o ministro da Segurança Pública, Raul Jugmann, foi a público explicitar que as investigações rumam para culpar as milícias. Uma série de ações policiais e midiáticas buscam criar um clima que justifique esta conclusão.

Marielle foi assassinada no momento que entrou na arena dos grandes interesses do capital. Há muito tempo ela levantava denúncias pontuais e gerais. Sua execução ocorreu quando foi escolhida relatora da Comissão da Câmara Municipal para acompanhar a intervenção do Governo Federal por meios militares. Foi quando também passou a denunciar nominalmente um dos órgãos do Estado, o 41º Batalhão da Polícia Militar, o “batalhão da morte”.

Marcelo Freixo questionou o fato de o ministro fazer declarações sobre a linha das investigações. Contudo, não se pode dar nenhum crédito a uma investigação conduzida pela Polícia Civil, que envolve outros órgãos de segurança, mas todos sob o comando do interventor federal Walter Braga Neto, ou seja, sob o olhar vigilante do próprio ministro de Michel Temer.

Os primeiros e principais suspeitos de envolvimento no crime, o Governo Federal e o 41º BPM, estão envolvidos na investigação. E isso em um estado notório na putrefação de suas instituições policiais. As declarações de Jugmann, os indícios sobre os rumos da investigação e o sentido da cobertura midiática, tudo isso indica que a culpa será jogada sobre as milícias. O aparato policial corrupto prepara o sacrifício de um de seus setores, garantindo a sobrevivência das instituições e uma aparente moralidade.

Um dos aspectos importante da crise política no Rio de Janeiro é o fracasso das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Combina-se a isso o aumento vertiginoso da criminalidade e das guerras de facções criminosas no estado, junto com o fenômeno das “milícias” (bandos para-militares que vendem seus serviços para facções criminosas), que dominam pelo menos 165 comunidades da região metropolitana do Rio de Janeiro.

Essas peças do quebra-cabeça fluminense são traços da podridão do regime capitalista no Brasil, que mostra no Rio de Janeiro uma de suas expressões mais agudas. Esclarecer os trabalhadores sobre os motivos e responsáveis da situação é uma tarefa que se choca com o regime e seus agentes. Marielle foi executada por fazer isso. Exigir uma apuração independente é o mínimo que qualquer defensor das liberdades democráticas pode e deve fazer.

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