“Precisamos mais que o voto para mudar a situação. Precisamos de uma revolução!”

Esta entrevista foi realizada pelo Comitê Regional do Rio de Janeiro com o candidato a deputado estadual Pedro Henrique Corrêa (50917), militante da Esquerda Marxista.


O que representam as eleições para um candidato marxista?

Para um marxista é importante existirem candidatos que apresentem reivindicações para as questões mais urgentes que vivem as massas trabalhadores. A Esquerda Marxista – organização política que faço parte –, através da minha candidatura no Rio de Janeiro, está apresentando uma plataforma de reivindicações que, a partir de vários pontos, chega a duas conclusões fundamentais: para proteger e conquistar mais direitos é preciso organização para a luta, e que o impasse central da nossa época é o capitalismo.

No atual sistema eleitoral existem enormes barreiras para eleger candidatos como eu, com plataformas revolucionárias, ou mesmo candidatos que defendem minimamente a classe trabalhadora. É um sistema feito para privilegiar candidatos da burguesia através de uma enxurrada de dinheiro público para os seus partidos, regras burocráticas para que não existam candidaturas de trabalhadores ou para que as poucas existentes se coloquem em desvantagem desde o início.

Claro, ainda há a opção dos candidatos trabalhadores se juntarem aos seus opressores, defendendo suas regras, recebendo dinheiro deles e defendendo o “Estado de Direito” como se ele fosse algo nosso. Um comunista – e para ser comunista não basta se dizer “comunista” – deve denunciar erros como esse. O Estado que tem em sua Constituição a garantia da propriedade privada dos meios de produção, isto é, do capital, é uma máquina de guerra para manter os trabalhadores dominados.

A sentença é simples. A cada dois anos o Estado consulta a população para definir quem irá defender os interesses dos capitalistas no próximo período.

Nosso objetivo nessas eleições será fazer uma campanha independente, com recursos próprios, nas ruas, para apresentar nossa plataforma de reivindicações, denunciar esse sistema antidemocrático, e aumentar as forças do marxismo no Rio de Janeiro, buscando dialogar principalmente com os mais jovens.

Mas o voto, sob essas condições, teria algum poder de mudança?

A única certeza que temos é de que, independentemente de quem ganhar as eleições, se for nesse sistema, os trabalhadores continuarão tendo condições de vida árduas.

Vou trazer alguns elementos. Há auxílio emergencial para os que estão na miséria, na fome, ou próximo delas, mas sabemos que os governos dos patrões ou a serviço deles apenas empurram o problema para frente. Há escolas para praticamente todos, mas uma evasão gigantesca e estruturas sempre sucateadas. Muitas instituições de ensino são verdadeiros “depósitos de crianças”, com salas lotadas, professores esgotados, pedagogia nula. E as universidades públicas? A esquerda passou uma década em debates intermináveis sobre cotas estudantis. Mas e a luta por vagas para todos? Onde ficou? E sobre o desemprego? Ele é enorme! E os novos postos de trabalho são precários. Basta olhar os meninos e meninas do Uber e afins para entender: sempre esgotados, se arriscando nas ruas para cima e para baixo, sem segurança para nada. Caiu e ficou machucado? Adoeceu? O filho está doente? Também não recebe! E sobre a questão da moradia? 15% da população da região metropolitana do Rio de Janeiro mora em favelas e mais da metade dos territórios do município do Rio de Janeiro estão sob controle de grupos armados, vários deles fazendo acordos diretos com as polícias. Saúde? Pra quem? Milhares morreram de COVID no pico da pandemia sob uma vacinação lenta porque a prioridade era respeitar as patentes de vacinas que foram criados com dinheiro público. Enquanto milhares morriam com doses vindas a conta-gotas das grandes fabricantes, o governo liberou para que os empresários importassem vacinas por conta própria para vacinar suas famílias ou funcionários por eles escolhidos!

Precisamos muito mais que o voto para mudar esta situação. Precisamos de uma revolução” Não podemos “criar”, “fazer” uma revolução, mas podemos nos preparar para ela. O próprio capitalismo cria as condições para que ela ocorra em algum momento. Votar nos candidatos da Esquerda Marxista é apostar numa saída revolucionária para a crise do capitalismo. E apoiar nossas candidaturas é ajudar a preparar as forças da revolução.

E sobre a nossa democracia? Muito se fala que ela está “ameaçada”. O que você pensa sobre isso?

Existem duas formas de governo que se reivindicam uma “democracia”. A que vivemos, que é a de um governo burguês, voltado para os pouquíssimos ricaços desse país e que ficam cada vez mais ricos – uma falsa democracia. E existe, também, a democracia de um governo dos trabalhadores – essa sim uma verdadeira democracia, pois é da maioria. Uma democracia para os trabalhadores significaria o direito à vida, ameaçado hoje por invasões policiais nos bairros proletários, o direito à moradia, o direito ao acesso a todo o conhecimento produzido pela humanidade via educação em todos os níveis etc.

Temos condições técnicas e materiais para garantir todos esses direitos, urgentes às massas, e outros. Mas para a atual “democracia”, garanti-los é impossível. O único “direito humano” garantido no capitalismo é o direito de um capitalista reproduzir o seu capital e contratar trabalhadores. Para o capitalismo o importante é colocar tudo a serviço do lucro dos de cima, do sucesso das empresas.

Por isso mesmo tentam convencer os trabalhadores de que uma transformação socialista da realidade é uma utopia, que eles devem tentar se tornar empresários, empreendedores, salvarem a si mesmos. Utopia, nós dizemos, é acreditar que esse sistema pode continuar sem ameaçar a própria existência da humanidade. Rosa Luxemburgo é muito atual quando retomamos o que ela trouxe através do lema “Socialismo ou Barbárie”. Falar em ameaça à democracia é algo muito “leve”. A humanidade, como um todo, que está ameaçada.

Sobre as liberdades democráticas, é importante trazer aqui também, a classe dominante precisa delas, até certo ponto: liberdade para fazer o comércio, criar suas empresas, para suas reuniões, para contratar força de trabalho, para organizar seus partidos políticos, seus órgãos de imprensa etc. Todas essas liberdades a favorecem. Mas a partir do momento que ela vê que um cenário de crise econômica e de agitação social decorrente dessa crise pode ameaçar o seu domínio político, essa classe dominante começa a pensar em restringi-las para proteger o seu domínio político. Por exemplo, se um partido operário cresce e se torna ameaçador, podem facilmente tentar acabar com a liberdade para reunião, imprensa, partido etc.

Hoje há grupos de capitalistas brasileiros que querem, sim, um fechamento do regime, e esses grupos costumam estar ligados ao bolsonarismo de alguma maneira. Nos Estados Unidos temos Trump, na França Le Pen. Há uma tendência do imperialismo que quer aniquilar as organizações existentes dos trabalhadores em todo o mundo, e é nela que Bolsonaro se apoia. O projeto de retirada ampla das liberdades democráticas só não avança porque esses reacionários enfrentam a resistência do movimento social organizado – sindicatos, associações, movimentos camponeses, entre outros –, e porque ainda são minoria diante de um outro setor da classe dominante, que aposta na aliança entre capital e trabalho para manter relativa paz social.

Vejam o que aconteceu nos Estados Unidos, no centro do império do capital, após a aplicação da estratégia da fração reacionária que Trump representa: Black Lives Metter contra a violência policial, um amplo movimento de greves e sindicalizações em empresas como a Amazon, a Starbucks… Coisa que era impensável há alguns anos atrás!

Portanto, no Brasil, considerando esse cenário, a parte majoritária da classe dominante e do imperialismo estadunidense decidiram se apoiar no PT para que, a partir de 2023, o país viva um clima de paz social, de uma “democracia” (burguesa) tranquila. Curiosamente, o PT, o Partido dos Trabalhadores, tornou-se a garantia de que os trabalhadores continuarão a ser explorados e tendo seus direitos retirados aos poucos pelo capital. O uso de violência policial e a retirada em massa de direitos só joga gasolina no fogo, piora as coisas para os de cima.

Se a crise econômica coloca a retirada das liberdades democráticas e de direitos como uma necessidade, então a pior ameaça para a democracia seria o próprio capitalismo?

É exatamente crise do sistema capitalista e a possibilidade de revolta social fruto dessa crise que está forçando a burguesia a retirar liberdades democrática e direitos. Ela precisa proteger suas taxas de lucro em primeiro lugar, mesmo que tenha que assaltar mais e mais os cofres do Estado – por exemplo, com os pacotes de ajuda às empresas durante a pandemia – e aumentar a exploração a níveis perigosamente revoltantes para as massas. Mas não estão fazendo isso de qualquer jeito, no desespero. Os capitalistas tem mais de 200 anos de experiência; muita coisa “errada” foi feita, muito se aprendeu. No momento, a própria esquerda está sendo usada por eles para levar à frente uma retirada de direitos e liberdades pactuada com os de baixo, e tudo sem que essa esquerda precise usar o palavreado socialista presente na social-democracia dos séculos XIX e XX.

Nesse cenário, cabe aos comunistas apresentar uma plataforma de reivindicações aos trabalhadores que os ajude a se organizarem melhor para as lutas presentes e futuras; sem ilusões eleitoreiras e sem alianças com os capitalistas. Só organizados e bem preparados podemos combater esse sistema e seus defensores, assim como ajudar as massas furiosas a irem no caminho certo, do socialismo. Só rumo a uma economia planificada, gerida pelos trabalhadores e a serviço dos trabalhadores, podemos construir uma verdadeira democracia.

Pedro, você é comunista. Existe uma “ameaça comunista” no Brasil, como diz Bolsonaro?

O PT, partido com grande influência sob os trabalhadores, teria condições práticas para proteger e organizá-los para lutar contra esse sistema, por um governo próprio, aproveitando toda a riqueza natural, humana e tecnológica do nosso país. Mas sua direção decidiu ir por outro caminho, dando as mãos a Geraldo Alckmin para agradar os empresários e o imperialismo. O PT está querendo aplicar os planos da fração majoritária da burguesia, e por isso está esvaziando as ruas, pedindo para que seus apoiadores façam campanha na internet. Enquanto a direção atual do PT dirigir a classe trabalhadora, está eliminada qualquer “ameaça comunista”.

Além do mais, os comunistas ainda são uma fração minoritária da classe trabalhadora, portanto, têm uma influência restrita sobre ela. O agravamento da crise econômica e política, aliado a um – provável – governo Lula, com muito menos influência sobre os trabalhadores do que no seu primeiro governo, vai aumentar exponencialmente as possibilidades dos comunistas ampliarem suas forças. Mas falar em “ameaça comunista”, ao menos para o momento atual, é um equívoco.

Quem você irá votar esse ano para presidente, deputado federal, senador e governador no Rio de Janeiro?

Para presidente irei votar em Lula. O voto em Lula significa para as massas um voto para “derrotar Bolsonaro”. Isso está longe de representar uma nostalgia dos governos Lula, mas cria um movimento político forte, baseado na negação do presidente que está aí e sua política. Negação de um governo obscurantista, que destrói as riquezas nacionais, de ataques aos direitos dos trabalhadores, que está emaranhado com tudo que há de mais repugnante na política e responsável por milhares de mortes durante a pandemia. Precisamos participar desse movimento!

Prevejo que o primeiro dia de governo Lula, caso eleito, será o primeiro dia de um governo em crise. A única maneira de Lula não se desmoralizar perante sua base será lutando, na prática, pela revogação das contrarreformas trabalhistas e da previdência, das privatizações, por mais moradia, saneamento, educação, saúde etc. Contudo, só será bem sucedido se romper com os capitalistas, que engessaram o orçamento do Estado e fizeram do parlamento e do judiciário bastiões da defesa da ordem. Sozinho, apenas com o Poder Executivo do Estado da burguesia em suas mãos, Lula não terá forças para as urgentes transformações que as massas necessitam. Precisará organizar conselhos populares, armá-los para enfrentar a reação e ir em direção a um governo dos trabalhadores. Mas Lula não considera essa possibilidade. Pelo contrário, parece que irá combate-la com unhas e dentes, indo no sentido da desmoralização perante sua base que estamos falando.

Estamos participando da campanha para eleger Lula e, ao mesmo tempo, explicando suas contradições aos trabalhadores. Para os que questionam dizendo que votar em um “traidor” ou em um “reformista” é um erro, explicamos que estamos votando em um candidato de um partido operário-burguês contra um candidato direto da burguesia, que queremos falar com os trabalhadores de dentro do movimento social que nega Bolsonaro e o bolsonarismo. Mesmo que o movimento social para eleger Lula possa conter enormes ilusões, estamos participando dele para levar nossa plataforma de reivindicações para mais gente. Tudo sem abrir mão de uma vírgula nosso programa e conquistando as pessoas mais avançadas para o marxismo.

Desde 2018 falamos que era preciso derrubar Bolsonaro junto com os trabalhadores, que sabiam que esse governo foi eleito a partir de uma fraude. Foi a direção petista e Lula que batalharam com todas as suas forças para jogar as esperanças nas eleições desse ano, não nós. É histórica e lamentável a fala de Lula, após sair da prisão, dizendo, do alto do carro de som para seus apoiadores, que iria respeitar o resultado das eleições e que era contra o “Fora Bolsonaro”.

Para deputado federal, estamos fazendo dobrada com Glauber Braga (5080), que também concedeu uma entrevista para o site da Esquerda Marxista. Glauber vem se mostrando um parlamentar da linha de frente pela defesa dos direitos dos trabalhadores. Lutou contra a privatização da Petrobras, Eletrobrás, Casa da Moeda; denunciou Eduardo Cunha, Sérgio Moro, Arthur Lira como parte da corja que oprime a maioria. Sua luta expõe a podridão do parlamento, mostra a incapacidade das casas legislativas resolverem os problemas mais básicos das massas, e por ele isso vem atraindo muita gente combativa para sua campanha, ocupando o vácuo de opções deixado pela esquerda reformista.

Para o senado e para governo do estado, indicamos voto nas pequenas legendas que se reivindicam da classe trabalhadora e lançaram seus candidatos próprios. Não votamos em partidos burgueses e seus candidatos, por mais “progressistas” que eles pareçam ou declarem ser.

Pedro, você é psicanalista. Teria algo a dizer sobre sua área de atuação profissional?

Eu diria que a Psicanálise no Brasil tem vestes de “esquerda”. Entretanto, os psicanalistas carecem de um senso de unidade, de uma consciência de classe trabalhadora. Entre psicanalistas, o debate sobre política está dominado por teorias pós-modernas que negam o marxismo e apostam que tudo é “discurso”, fruto de “poderes múltiplos”. Foucault, Deleuze, Derrida, Butler, e por aí vai. Freud formulou pouco sobre conjuntura política em seus textos, mas foi ativo politicamente. Como um social-democrata moderado, defendeu o governo progressista da conhecida como “Viena Vermelha” e participou dos esforços por reformas sociais amplas que estava ocorrendo. Poucos sabem, mas dentro dos primeiros círculos de psicanalistas existiram socialistas das mais variadas matizes e membros aguerridos dos primeiros partidos comunistas, seções da Terceira Internacional Comunista. Muita coisa aconteceu para que um psicanalista que hoje fala em “luta de classes” e “revolução socialista” pareça um alienígena.

De fato, há muita lamentação sobre os males do capitalismo e críticas à direita e ao Bolsonaro, mas as respostas dos psicanalistas aos problemas dos trabalhadores ainda são confusas, dentro dos marcos do sistema. Além do mais, restringem-se ao campo das pequenas ações individuais, dos grupos de estudo, da formulação teórica e das manifestações nas redes sociais. A própria natureza da prática da clínica, construída por consultórios particulares, favorece uma visão pequeno-burguesa da realidade. Contudo, isso está mudando. Uma nova geração de psicanalistas proletarizados está surgindo, psicanalistas que dependem de remunerações vindas de empresas de terapia, planos de saúde, de honorários bem abaixo daqueles tabelados pelos conselhos de Psicologia.

Nós psicanalistas estamos sentindo, no dia-a-dia e cada vez mais, dores que nos colocam lado a lado dos trabalhadores, dores que agora são “nossas” também, não mais “deles” ou uma mera questão teórica. A crise do capitalismo está dentro do movimento psicanalítico: os psicanalistas estão ameaçados de não conseguirem pagar o aluguel no próximo mês, de não levar comida para dentro de mesa. Nossos filhos precisam estudar em escolas públicas, utilizar unicamente o SUS. Tudo isso produz um ambiente fértil para as ideias do marxismo se espalharem.

Faça algumas considerações finais.

A disposição de luta presente nos jovens e trabalhadores ao redor do mundo também está presente no Brasil. Estamos vendo explosões em vários lugares, e em breve elas ocorrerão aqui. As principais direções de esquerda, eleitoreiras (PT, PCdoB e PSOL), não irão conseguir desviar para sempre a insatisfação para as urnas. Sua política de contrarreformas feitas aos poucos se choca diariamente com os interesses dos trabalhadores, e em breve irá gerar um vácuo de representação política. Precisamos participar das lutas que já estão ocorrendo e nos preparar para as lutas futuras. O marxismo é a melhor ferramenta para isso!

Gostaria de convidar a todos que acessarem essa entrevista a conhecerem a nossa plataforma de reivindicações e a juntarem às fileiras da Esquerda Marxista, seção brasileira da Corrente Marxista Internacional. Venha construir comigo um novo mundo, livre de toda opressão e exploração.

Abaixo Bolsonaro! Abaixo o capitalismo! Por um governo dos trabalhadores, sem patrões nem generais! Viva o socialismo internacional!

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