Por que o capitalismo também mata mais negros na pandemia?

Sob a batuta de um governo lacaio do imperialismo, entreguista, obscurantista e negacionista, o Brasil chega ao final do 1º ano da pandemia com a contribuição horripilante no saldo mundial de 294.042* mortos. Sem medidas concretas para barrar o avanço da pandemia, a desgraça recai com muito mais violência nas costas de uma grande parcela da classe trabalhadora que não tem a alternativa de trabalhar de casa e, portanto, fica muito mais vulnerável ao contágio do vírus.

Além disso, as condições sanitárias de milhares de famílias, que já são frágeis em tempos não pandêmicos, nesse momento evidencia ainda mais o fosso da desigualdade no Brasil. E esse pode ser um fator determinante entre conseguir sobreviver ou não, nesse contexto histórico. A falta de moradia decente, sem banheiro, sem acesso ao saneamento básico, a coleta de lixo e a água potável são o retrato da miséria, da precariedade e da desumanidade em nosso país. O ápice da desigualdade é a metonímia das condições de vida da maioria esmagadora da população pobre e negra do mundo nesse momento.

Mesmo com a obrigatoriedade desde maio de 2020 do registro do critério de cor/raça nos dados das vítimas da pandemia, em levantamento recente sob os óbitos no Estado de Sergipe, com registros muito falhos do Ministério da Saúde, evidenciou-se que mais de 70%  das mortes vitimou a população negra, um cenário que se replica não só no Brasil, mas mundo afora.

Há que considerarmos, que o quadro geral da saúde da população negra já não é favorável. Além das comorbidades, mesmo quando a análise recai sobre as doenças evitáveis, são as mulheres e os homens negros que mais são acometidos por essas enfermidades, assim como as mortes maternas e de recém-nascidos.

Dessa forma, não chega a causar espanto que essa população continue sendo vitimada em grandes proporções durante a pandemia da Covid-19, isso porque o resultado da adição entre racismo e desigualdade é uma equação bem conhecida por todos nós no sistema capitalista.

A falta de renda, acesso a saúde, a medicação, a alimentação saudável, políticas de proteção social e demais direitos trabalhistas compõem um arranjo de vulnerabilidade e exclusão que se tornaram crônicos.

Na linha de frente das equipes de saúde no combate à doença, também temos um contingente significativo de profissionais negros, especialmente da enfermagem, o que os coloca em maior risco de contaminação, adoecimento e óbito. Nesse contexto geral a chance de um negro morrer de corona vírus no Brasil é quase 40% maior que a de um branco.

Michelle Bachelet, na condição de alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, afirmou que, no estado de São Paulo (a capital paulista é a cidade com maior número de mortos por Covid-19 na América Latina), as pessoas negras têm 62% mais chances de morrer de Covid-19 do que as brancas, dado o gigantismo da desigualdade nas periferias.

Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o quadro também é perverso. Em estados como Geórgia e Louisiana as mortes afroamericanas chegam a 70%; e no Alabama, numa população que conta com 26% de negros, 44% morrem. Já na Inglaterra e Gales, os negros têm três vezes mais chances de morrer por Covid-19 do que os homens brancos.

Embora o vírus não tenha uma preferência étnica, no sistema capitalista a morte de determinados grupos sociais é legitimada e normalizada diante das condições estabelecidas pelo fundamento geral desse sistema. Ou seja, para a manutenção da concentração da riqueza nas mãos da minoria, a maioria pode ser facilmente descartada, trocada, esmagada ou eliminada. Tem sido assim nas crises econômicas, nas guerras e nas pandemias.

Dessa forma, a classe dominante pode se resguardar e recorrer aos serviços de saúde, se isolando confortavelmente da maioria que não têm a menor condição de se proteger e, desse modo, o vírus fica circulando exatamente nesse extrato que é paulatinamente eliminado, não por ser negro, mas por ser pobre.

O combate à desigualdade, ao racismo e a luta por investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) e nas áreas de pesquisa e tecnologia, certamente fazem parte da pauta da classe trabalhadora no Brasil. Não é aceitável convencer a população a esperar pelas eleições de 2022 para iniciar mudanças das quais dependem a nossa existência. A doença, o desemprego, a fome e a repressão são fortes adubos para empurrar a classe para o combate nas ruas, e o mundo tem nos mostrado isso. Se as centrais sindicais e as demais entidades de classe não tomarem para si a tarefa histórica que o momento exige, as convulsões ocorrerão a despeito de toda conciliação e reformismo que tomaram conta das mesmas.

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Fontes:

https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/06/05/negros-morrem-40-mais-que-brancos-por-coronavirus-no-brasil

https://www.medicina.ufmg.br/negros-morrem-mais-pela-covid-19/

https://www.abrasco.org.br/site/noticias/desigualdade-racial-por-que-negros-morrem-mais-que-brancos-na-pandemia/49455/

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53338421

*Dados de acordo com o apurado pelo painel do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) até a publicação dessa nota:

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