Imagem: Walt Disney Television / flickr

Política de identidades a serviço do capital: o Oscar e a ideologia dominante

Recentemente os organizadores do Oscar anunciaram novas regras para a premiação, incluindo critérios de representatividade para que os filmes possam concorrer pela estatueta. Trata-se de mais um movimento do capital em busca de lucro. O texto a seguir analisa como a política de identidades se torna parte desse processo de reprodução do capital e de difusão de ideias estranhas à classe trabalhadora.

O capitalismo se engendra material e ideologicamente para impor sua dominação e exploração à classe trabalhadora. Como tal, a burguesia e a pequena-burguesia desenvolveram diversos pensamentos ao longo da história com esse fim. Com a ciência do marxismo, compreendemos que na sociedade de classes há uma ideologia dominante exortada pela classe dominante. Essas filosofias e ideias possuem dimensões importantes, pois existem com o intuito de ocultar, inverter, justificar e naturalizar a realidade de exploração do capital, apresentando os interesses da classe dominante como se fossem os interesses de toda a sociedade.

A Revolução Bolchevique de outubro de 1917, na Rússia, demonstrou a concreta possibilidade da superação do capitalismo. As guerras mundiais expressaram a miséria gerada pelo imperialismo. A crise de 1929 acusou a falência do livre mercado. O nazi-fascismo provou do que os capitalistas são capazes para manter seus Estados e modo produtivo. Com tudo isso, em 1938, Leon Trotsky já apontava que “as premissas objetivas da revolução proletária não estão somente maduras, como já começam a apodrecer”.

Portanto, esse cenário da primeira metade do século XX impossibilitava as velhas ideologias burguesas, como o positivismo. O progresso era sabidamente incapaz de ser realizado pelas forças produtivas capitalistas, mas a sagrada propriedade privada, o Estado e o individualismo, precisavam ser garantidos. Era preciso combater o marxismo e ocultar a luta de classes.

Assim, como subproduto burguês, surgem as teorias pós-modernas, retirando a centralidade operária, mas compondo-se vestes de denúncias às opressões, inviáveis de serem ocultadas ou não-ditas diante o aprofundamento da exploração do capital. O fim dos anos 1960 fazem explodir pelas universidades europeias, especialmente francesas, tais teorias oriundas da pequena-burguesia.

A luta ideológica contra o marxismo estava renovada, usando as experiências stalinistas para denegrir a teoria revolucionária do proletariado, além de afirmar oposição tanto contra o “capitalismo exploratório”, quanto o “socialismo real”. Como saída, a solução era superar as narrativas opressivas, a objetividade da vida e o progresso da humanidade. Isto é, requentar o idealismo falido, defendendo a consciência como algo externo ao próprio mundo, preconizando o individualismo a partir das experiências e existências pessoais. Claramente um restauro, por exemplo, do anticapitalismo romântico e o pessimismo de Nietzsche, que muito influencia os pós-modernos.

Sendo produtos da pequena-burguesia, essas teorias expressam o pessimismo com o sistema que ataca frontalmente essa classe, que vê sua pauperização aumentar com as crises do capital. Ao mesmo tempo, a pequena-burguesia tem horror às massas trabalhadoras, à miséria em que estes vivem e convivem com o eterno fantasma de se tornarem parte do estrato mais explorado da sociedade.

Tais formulações foram fundamentais para o capitalismo e na atualidade, são ainda mais nocivas à luta pela emancipação humana. Isso porque a crise das direções operárias não se limita aos burocratas e reformistas do legado stalinista e social-democrata, como também passam pelo fardamento da fantasia pós-moderna que busca desviar o foco da juventude e dos trabalhadores. Dessa forma, as políticas de identidades são as cartas mais usadas do baralho ideológico para barrar a unidade dos explorados e vender representatividades ou “vitórias” pessoais, no interior do poder burguês, como formas de desatar os nós das misérias geradas pelo sistema.

Nas universidades, nos movimentos sociais, nos livros das grandes editoras, nos programas das emissoras mais serviçais do capital, na internet por todos os lados, nos produtos em geral até as telas de cinema, as “pautas identitárias” são fortalecidas como nunca e se tornam o suprassumo do liberalismo. Dessarte, a premiação cinematográfica mais aclamada pela imprensa burguesa, obviamente, não ficaria de fora desta nova ordem do capital.

No Oscar, com maior efervescência, essa nova exigência surgiu em 2015, quando foi lançada nas redes sociais a campanha “Oscars So White” (Óscares Tão Brancos) em protestos pelo fato de apenas dois artistas não-brancos figurarem entre os nomeados para as categorias de maior prestígio da Academia. A exigência dos setores mais “rebeldes” da pequena-burguesia era justamente por “maior representatividade”. Em seus discursos, afirmam que ter personagens não-brancos e de “minorias” nas telas de Cinema “rompem as velhas narrativas” e são “conquistas” para uma “sociedade melhor e mais justa”.

Cinco anos após essa campanha, a Academia anunciou novas regra para seu jogo. Os candidatos a Melhor Filme terão de cumprir ao menos dois dos quatro critérios de representatividade para entrarem na concorrência pela estatueta: mulheres, pessoas com deficiência, não-brancos e LGBTQ+, do elenco à equipe técnica, artística e de produção, passam a ser obrigatórios. O anúncio é resultado do sucesso mundial de bilheteria de diversos filmes dos últimos anos que trouxeram protagonistas que representam esses grupos ou possuem como temática as opressões.

É evidente que tais produções hollywoodianas ou de outras praças do grande capital cinematográfico, ao exporem as contradições do sistema em seus filmes, não apontam como solução para as explorações uma revolução social. Suas respostas são de superações narrativas, heroísmos individuais ou de pequenos grupos e “ocupação de espaços” nos poderes estabelecidos. Em síntese, trata-se da arte em defesa da conciliação, da reforma ou até mesmo da mudança do perfil do explorador(a), onde o chefe não será mais branco, homem e hétero, mas que agora pode ser uma mulher, um negro ou um homossexual.

No anúncio das novas regras, o presidente da Academia, David Rubin, e o CEO, Dawn Hudson, disseram que essa obrigatoriedade é uma abertura para aumentar a “diversidade da população global tanto na criação dos filmes como no público que se conecta a eles”, além de significar uma inclusão que será o “catalisador para uma mudança essencial e duradoura na indústria”. Tais palavras deixam claro o desejo do Oscar: expandir novos nichos de mercado, vender a mercadoria da sétima arte e tornar sua indústria maior e mais ampla para novas forças de trabalho.

Esse movimento não é exclusivo do Oscar, pois é inspirado nas normas de diversidade do British Film Institute, além da igual adoção do Festival de Berlim, que deixará de dividir os prêmios entre homens e mulheres. Ou seja, efetiva-se como a extensão desta política para todos os centros capitalistas, que, no caso do Oscar, será exigido a partir de 2024.

Significa, portanto, uma espécie de cotas para as “minorias” no Cinema. O The Guardian divulgou que será obrigatório a presença de um ator principal ou um secundário para a “minoria racial”, com 30% dos papéis distribuídos para esses grupos ou que a narrativa da produção seja sobre esses personagens. As cotas também serão obrigatórias para a equipe de produção do filme, dos estagiários aos profissionais até a ponta de divulgação e marketing. As novas regras começarão a ser acompanhadas a partir de 2022 com a submissão de um formulário para os “Critérios de Inclusão da Academia”.

Por isso não comemoramos ou exaltamos as identidades à serviço ao capital e o lucro do mercado. Ao contrário, como marxistas, denunciamos para ajudar a retirar a venda ideológica que esconde as verdadeiras contradições e explorações na sociedade de classes, que não são meras disputas narrativas.

Em toda a indústria, as mulheres seguem recebendo menos mesmo com trabalho igual aos dos homens, assim como os negros, que, além de receberem menos, são destinados a postos de trabalho precarizados em todo o mundo e são assassinados pelo braço armado do Estado burguês. Os LGBTs seguem sendo dos setores mais explorados e oprimidos da classe trabalhadora, também destinados à trabalhos extremamente opressivos, passando pelos preconceitos mais sórdidos gerados historicamente pela moral burguesa.

Assim como os direitos civis para esses grupos não são efetivados, mesmo sendo garantidos pelas constituições liberais, o protagonismo no Cinema não lhes dará casa, trabalho, sistema de saúde, educação e transporte públicos, gratuitos e para todos. Não serão as representações de alguns atores aceitos pelo capital que poderão conquistar a dignidade necessária para as pessoas, findando os preconceitos gerados próprio sistema.

Compreender e analisar o mundo pelas lentes identitárias, apenas coloca as relações econômicas em segundo plano, ou na melhor das hipóteses, em pé de igualdade. Quando dizemos isso, os pós-modernos atacam os marxistas gritando que os revolucionários “hierarquizam as opressões”. Porém, na realidade, não temos preferências ou fetiches com as relações materiais de produção. Nós as apontamos porque elas existem para além das nossas vontades e desejos pessoais, pois são impostas pelo modo de produção e pela objetividade da vida. Tal qual as narrativas, que não surgem de uma consciência pura e de formulações abstratas, mas são geradas pelo mundo material.

Portanto, não se trata de um esforço narrativo ou representativo a falta de protagonismo de mulheres, negros, LGBTs ou deficientes na vida social e na arte. Esses setores da classe trabalhadora são os mais explorados no mundo real pela própria indústria e mercado que agora oferecem o “lugar de fala” para alguns membros desses nichos “representarem” os demais trabalhadores e jovens. Esses papeis têm somente o intuito de aprofundar a alienação e retirar da ordem do dia a derrubada do verdadeiro responsável pelas opressões: o modo de produção capitalista.

Como Trotsky e os membros da Federação Internacional da Arte Revolucionária e Independente (FIARI) explicaram, nenhuma arte é livre dentro deste sistema. Assim como qualquer produto e como os próprios trabalhadores, a arte é uma mercadoria na sociedade do capital. Ela é produzida e reproduzida socialmente para uma apropriação privada, de uma verdadeira minoria, que é a burguesia. Uma real representação dos explorados e oprimidos não será realizada por essa indústria, salvo ínfimos exemplos. Exemplos, inclusive, que recebem uma resposta frontal da indústria, escanteando os artistas que não se restringem apenas à denúncia dos antagonismos e contradições das classes, mas que apontam para a única saída para essas condições, a luta pelo socialismo.

Quanto aos elementos “progressistas”, não passam de liberais que buscam amenizar as misérias de seu sistema, oferecendo como solução um “capitalismo humanizado”, com redes de amparo aos oprimidos ou espelhos de sucesso para que os açoitados pelo capital possam acreditar no seu empenho máximo. Assim, um dia, quando o capital permitir, estes poderão ser os próximos a deixarem os bastidores para brilhar no palco principal.

Obviamente que se pode reconhecer o trabalho, o talento e a dedicação dos atores e demais trabalhadores que terão mais oportunidades com as novas regras do Oscar e dos restantes prêmios. Contudo, é impossível esquecer a exploração que eles próprios e outros milhões de trabalhadores da arte são submetidos. E, portanto, é inadmissível que setores políticos e sociais que reivindicam a luta contra as opressões defendam isso como vitórias para os grupos mais condenados pelo capitalismo. As explorações não são fictícias, psicológicas ou narrativas. Elas são concretas e mortais, assassinando a classe trabalhadora diariamente. Logo, não serão superadas com o protagonismo nas telas de cinema e com camisas estampadas com os rostos de um monarca negro ou uma empresária LGBT.

Referências

Público. Óscares impõem representatividade nos candidatos a Melhor Filme (mas só a partir de 2024). Disponível em publico.pt. Acesso em: 11 set. 2020.

SILVA, Michel Goulart da. O Oscar, as identidades e o capitalismo. Esquerda Marxista. Disponível em marxismo.org.br. Acesso em: 11 set. 2020.

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