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Plano climático de Biden: os interesses capitalistas vêm em primeiro lugar

A catástrofe climática representa uma crise existencial para a humanidade. Não é à toa que, para milhões de trabalhadores e jovens em todo o país, essa questão assumiu uma enorme urgência. A grande e avassaladora quantidade de evidências científicas nunca foi um apelo atraente à ação para a classe capitalista e seus covardes representantes. Mas, agora que o custo econômico da crise está aparecendo, a classe dominante começou a tomar nota. Três quartos dos economistas agora concordam que uma “ação imediata e drástica” é necessária. Eles estimam que o custo dos danos causados ​​pela mudança climática aumentará do atual impacto anual de US$ 1,7 trilhão a um custo anual impressionante de US$ 30 trilhões até 2075.

No entanto, devido à sua estrutura voltada para o lucro, o capitalismo é incapaz de responder efetivamente à crise, que exige uma revisão completa dos setores de energia e transporte e de quase todas as formas de produção e distribuição em massa. O enfrentamento verdadeiro da crise climática exigirá um partido de massas da classe trabalhadora armado com políticas de luta de classes e uma transformação revolucionária da sociedade.

Com a ajuda da mídia de massa liberal servil, que está vendendo freneticamente o novo governo como um salvador nacional ao estilo de FDR [Franklin Delano Roosevelt], Biden apresentou uma imagem “progressista” nessa questão. Apesar de acertar superficialmente algumas das notas corretas sobre esta questão, nunca devemos esquecer que a administração de Biden é diretamente responsável perante o capital americano e, em última análise, reflete seus interesses. Nas famosas palavras de Marx, “O executivo do Estado moderno é apenas um comitê para administrar os assuntos comuns de toda a burguesia”. Em comparação com a escala de ação necessária para enfrentar a crise que já se abateu sobre nós, as políticas de Biden representam gestos simbólicos destinados a desviar os olhos da inação geral.

(In)ações de Biden

Uma das primeiras ordens executivas de Biden foi revogar a licença do polêmico oleoduto Keystone XL. No entanto, apesar de bloquear este projeto de alto perfil, ele permitiu que a construção de mais de 20 outros projetos de oleoduto continuassem nos Estados Unidos. Um desses projetos é o Dakota Access Pipeline, objeto de protestos massivos em Standing Rock apoiados por milhões de pessoas em todo o país. Biden prometeu que aprovaria uma legislação para fazer os poluidores “arcarem com o custo total da poluição de carbono que estão emitindo”. No entanto, ele continua relutante em desafiar um gasoduto escassamente legal que tem sido alvo de ativistas há anos.

A reentrada de Biden no Acordo Climático de Paris (PCA, em suas siglas em inglês) também representa um gesto meramente simbólico. Este acordo não inspirou a ação necessária até agora e é improvável que o faça no futuro. Para começar, o PCA é um acordo voluntário e não vinculativo. Seu objetivo declarado é reduzir as emissões para manter o aquecimento global abaixo de 1,5o C a 2o C, em comparação com os níveis pré-industriais, para evitar um cenário de “pior caso”. A ciência indica que um aumento de 2o C ou mais desencadearia mudanças terríveis na ecologia do globo.

No entanto, estudos recentes mostraram que as metas de redução das emissões em cada país precisariam ser 80% mais ambiciosas do que as diretrizes do PCA para manter o aquecimento global abaixo de 2o C e evitar consequências catastróficas. De acordo com um estudo da Universidade de Washington, agora há apenas 5% de probabilidade de que o mundo alcance essa meta superior. Portanto, a adesão ao PCA significa pouco quando se trata de uma ação climática eficaz, que deve ser global por sua própria natureza, uma vez que os países que o fazem não estão nem perto de cumprir seus objetivos de redução de emissões.

Biden fez campanha com a promessa de priorizar o clima nas relações internacionais. Apesar dessa garantia, como noticiou o New York Times, “o governo mostrou que demandas mais imediatas, como reforçar a segurança militar e reparar amizades tensas, proporcionarão uma competição acirrada”. Ou, como disse o presidente do Conselho de Relações Exteriores, “o clima tem que competir com outras questões e prioridades na agenda dos EUA”.

Em outras palavras, os interesses imediatos do imperialismo sempre vêm em primeiro lugar. Biden é “totalmente a favor do gás natural” quando está gerando lucros para a indústria dos EUA. Mas, não tanto se estiver sendo extraído da Rússia e aumentando a dependência energética europeia com relação a um rival geopolítico.

Nesse contexto, o recente anúncio de Biden de um ambicioso plano de infraestrutura de US$ 2 trilhões representa uma tentativa desesperada de reforçar a posição do imperialismo dos EUA contra duas ameaças existenciais progressivas: a mudança climática e a competição com a China no mercado mundial.

A infraestrutura dos EUA está desmoronando há décadas. Ano após ano, tem recebido classificações desanimadoras de agências independentes e atualmente é classificado como “C-”, acima de uma classificação “D”, todos os anos desde 1998, quando os relatórios começaram. A Sociedade Americana de Engenheiros Civis estima que o custo de consertar a infraestrutura nacional – independentemente de todos os custos de transição relacionados ao clima – seria de aproximadamente US$ 2,6 trilhões em 10 anos.

Além dos gastos planejados com infraestrutura, o plano de Biden propõe cerca de US$ 282 bilhões para o desenvolvimento de medidas de resposta ao clima ao longo de uma década. Mas, o combate efetivo às mudanças climáticas exigiria esse tipo de investimento em uma base anual – e precisaria que fosse igualado por governos em todo o mundo. Em 2019, o investimento em energia renovável nos Estados Unidos era de aproximadamente US$ 55 bilhões anuais – muito longe do que é necessário.

Além disso, o plano de Biden já encontrou considerável resistência por parte dos legisladores de ambos os partidos e precisaria do apoio de todos os democratas para que este projeto fosse aprovado. Se for aprovado, provavelmente será de forma ainda mais reduzida, deixando a porta aberta para um aprofundamento ainda maior da catástrofe climática.

Os lucros capitalistas definem o cronograma

A propriedade privada e a produção para o mercado significam que todas as decisões devem servir a um objetivo subjacente: retornar um lucro para acumular capital. Esta lei básica da economia política capitalista se sobrepõe em cada etapa da conversão de combustíveis fósseis em energia renovável. Se deixada para os capitalistas, a transição acontecerá em uma linha do tempo impulsionada pela motivação do lucro – não pela ciência e pelas necessidades coletivas da humanidade.

Embora haja uma crescente especulação de investidores em energias renováveis, ainda não é um mercado maduro ou estável para investimentos, no que diz respeito a grandes gestores de ativos e investidores institucionais. Ou seja, há lucros maiores a serem obtidos em outro lugar. Provavelmente levará anos para que os investidores mudem organicamente seus portfólios para mercados renováveis ​​em grande escala, pois há necessidade de um alto grau de certeza para que os maiores investidores movam seu capital para um novo mercado.

Biden oferece o exemplo daqueles que gostariam de se mover mais rapidamente nessa direção, então provavelmente veremos uma aceleração dessa transição em comparação com os anos anteriores. No entanto, esta transição ainda é, em última análise, guiada pela motivação do lucro e, considerando a escala das mudanças envolvidas, qualquer ponto de inflexão real só virá muito depois da presidência de Biden – quando então pode ser tarde demais para evitar os piores cenários.

Conforme descrito no Acordo de Paris, limitar o aquecimento global a um aumento de 1,5 graus exigiria um corte de 50% nas emissões até 2025 e uma redução de 80% nas emissões até 2035. Em escala mundial, o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) projeta que a transição para a energia renovável exigirá um aumento exponencial nos investimentos de agora até 2050, aumentando anualmente em US$ 550 bilhões em relação a cada ano anterior. Esse número só aumentará se continuarmos a queimar ainda mais combustíveis fósseis. Mas, o investimento global anual atual em energia renovável é de apenas US$ 300 bilhões – muito aquém do que é necessário.

Além desses custos, são necessários US$ 100 bilhões por ano para ajudar os países capitalistas menos avançados a cumprir suas metas de transição para 2025. Após séculos de pilhagem imperialista, os ex-países coloniais continuam a transferir US$ 2 trilhões anuais para os países ricos por meio de pagamentos de dívidas, fuga de capitais e repatriação de lucros. De acordo com o IIASA, manter esses países mais pobres no caminho para cumprir a meta de 1,5oC até 2050 exigirá um financiamento “consideravelmente maior”.

Além do ritmo inadequado da transição para fontes de energia limpa, já há sinais claros de que os capitalistas forçarão a classe trabalhadora – especialmente no setor de energia – a arcar com o peso das mudanças. Demissões e ataques aos salários, benefícios e condições geraram greves e bloqueios recentes neste setor, fornecendo um vislumbre das amargas batalhas de classes no horizonte.

O socialismo é o único caminho a seguir!

Enfrentar a crise climática não é uma questão de apertar o cinto e fazer pequenas mudanças aqui e ali, mas, sim, de um remanejamento completo da forma como a humanidade gera e utiliza energia em todo o mundo. Para efeito de comparação, a Segunda Guerra Mundial foi a luta coletiva mais cara em que a humanidade já embarcou. Seu custo total foi de cerca de US$ 4 trilhões de hoje. Os custos financeiros do combate às mudanças climáticas superarão essa soma.

Para administrar seus negócios durante a guerra, os capitalistas foram forçados a entregar grandes setores da economia à administração ou à propriedade do Estado. Essas nacionalizações foram em sua maioria temporárias, generosamente compensadas e realizadas no interesse geral da classe dominante. Para realmente combater as mudanças climáticas, devemos ir muito além disso. Não podemos deixar aos caprichos dos capitalistas a reorganização de suas operações quando se tornar lucrativo para eles. A natureza da crise clama por uma economia socialista planejada sob o controle democrático da classe trabalhadora mundial. Em vez de ser restringida pela lógica arbitrária da motivação do lucro, a humanidade requer o controle consciente de suas forças produtivas para organizar racionalmente e levar a cabo uma luta unida contra as mudanças climáticas.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.
PUBLICADO EM SOCIALISTREVOLUTION.ORG

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