PCO e o apoio a Putin contra a Ucrânia: uma caricatura do internacionalismo

O Partido da Causa Operária (PCO) está apoiando a guerra da Rússia contra a Ucrânia, esquecendo toda a política do marxismo de independência de classe e de defesa da classe operária, que é quem morre em todas as guerras entre burguesias. A justificativa parte da ideia de que o Estado burguês russo faz uma guerra para se defender contra a OTAN. O partido também se apoia no argumento de que o objetivo de Putin é a “desnazificação” da Ucrânia – o que Putin não faz nem no próprio país –, aceitando todas as “justificativas” apresentadas por Putin, como se ele fosse uma figura honesta e ilibada, que não representasse os interesses da classe que explora e oprime os trabalhadores.

A posição de Putin é a de sua classe burguesa, não a dos trabalhadores. Putin executa essa guerra para defender os burgueses que o mantém materialmente em seu cargo, quem lucra durante seu controle do governo, ou seja, da sua gerência do capitalismo na Rússia.

É evidente que não devemos também apoiar a OTAN, os imperialismos ocidentais e seu governo títere de Kiev nesta empreitada. Não se trata de cair na cantilena da imprensa burguesa internacional de que o governo de Zelensky é uma pobre vítima do algoz Putin. O governo de Zelensky foi apoiado por grupos fascistas na Ucrânia e dá suporte e armamento a esses, com o aval dos EUA. Não há bons moços nessa história. É uma luta entre burguesias e quem sofre com isso são os trabalhadores ucranianos. Por isso, a posição dos revolucionários diante desta guerra não deve ser a de apoiar um ou outro lado, mas de ser contra a guerra.

O que mantém Putin no governo

Entre as 10 maiores empresas russas, há um banco, três mineradoras, cinco são de extração de petróleo e apenas uma de refino de petróleo. A economia russa é a décima segunda maior economia do mundo, menos de 2% da economia mundial, não é diversificada nem industrializada e está distante da décima economia mundial, o Canadá, que tem a população 5 vezes menor e um PIB 20% maior.

Por ser predominantemente extrativista de petróleo, gás, e minerais, a economia russa se baseia essencialmente na exportação dessas mercadorias para a Europa – o país fornece um sexto de todas as commodities mundiais –, fornecendo cerca de 35% do suprimento de gás utlizado pela União Europeia (UE), por exemplo, sendo que os dutos que levam esse gás até os países europeus passam necessariamente pela Ucrânia.

Sem a venda desses recursos naturais, a Rússia tem grande parte da sua receita comprometida. Somente no ano passado, a Rússia obteve um saldo positivo, em seu balanço de pagamentos, de US$ 120 bilhões só com a exportação desses recursos. Esse dinheiro vai direto para integrantes do seu governo via estatais burocratizadas com os tipos mais criminosos de políticos burgueses, os apoiadores de Putin no Parlamento russo, ou via lucro das empresas privadas que apoiam e são resultado da privatização e sucateamento das antigas empresas da ex-União Soviética.

Ao contrário do que afirma o PCO, Ucrânia nestá muito longe de ser considerada um país imperialista. Sua economia é baseada principalmente em serviços e o país não produz nem as armas que usa nessa guerra. Os tanques e fuzis são todos russos, sendo muitos estão abandonados pela falta de manutenção. O êxodo de trabalhadores ucranianos que saem em busca de emprego está estimado entre 7 e 9 milhões de pessoas, quase 25% da população e metade da população em idade de trabalho. A economia ucraniana está  baseada mais de 60% em serviços, grande parte são call centers. É uma economia minúscula com apenas 10% do tamanho da Rússia em termos de PIB.

Outra forma que a burguesia russa utiliza para se manter no mercado mundial passa por tentar manter sua venda de armas. Enquanto a OTAN abocanha grande parte da venda europeia por obrigar países membros do seu tratado a comprar sua própria produção, mantendo assim uma reserva de mercado poderosa, ela vende também armas para Taiwan, e a Rússia, por outro lado, fica com um mercado cada vez menor. Essa manobra de guerra é a continuação das lutas internas e externas para manter e expandir mercados que na era do imperialismo são impostas para os Estados nacionais.

Não há portanto chance alguma de a OTAN sair chamuscada dessa guerra. Qualquer que seja o resultado da batalha na Ucrânia, os países membros da OTAN podem fornecer munição estocada aos montes para a Ucrânia continuar matando trabalhadores enquanto Putin faz o mesmo. Quanto mais tempo dura a guerra mais munição é gasta e mais os fabricantes de armamentos ficam ricos e felizes. Por mais que as ilusões do PCO digam que esta guerra é contra a “nazificação” da Ucrânia, nenhum fato corrobora para essa afirmação. Pelo contrário, há grupos fascistas também apoiados pela Rússia lutando nas autoproclamadas repúblicas do Donbass.

Qual o papel de um partido revolucionário consequente?

Lenin explicou bem quais são as consequências da defesa de um governo em uma guerra de rapina promovida pelas burguesias de cada país:

“O social-chauvinismo é a defesa da ideia de ‘defesa da pátria’ na presente guerra. Dessa ideia decorrem, seguidamente, a renúncia à luta de classes durante a guerra, a votação dos créditos de guerra etc. De fato os social-chauvinistas praticam uma política antiproletária, burguesa, pois de fato preconizam não a ‘defesa da pátria’ no sentido de luta contra a opressão estrangeira, mas o ‘direito’ de tais ou tais ‘grandes’ potências de pilhar as colônias e de oprimir outros povos. Os social-chauvinistas repetem a mistificação burguesa do povo segundo a qual a guerra é travada pela defesa da liberdade e da existência das nações, e passam assim para o lado da burguesia contra o proletariado.” (Grifo nosso)

O que deveria ser feito por um partido que se propõe revolucionário seria a defesa da libertação dos povos de suas burguesias nacionais, porém, em uma luta conectada com uma Internacional, coordenando esforços para a libertação do proletariado mundial. Ao contrário disso, o PCO defende uma guerra onde se mata trabalhadores para deleite dos capitalistas que lucram de todos os lados, e como resultado só pode trazer mais tragédia para os diretamente envolvidos com o conflito.

O que Lenin chama de chauvinismo, ou seja, o nacionalismo, é exatamente o que o PCO aplica hoje como política, que se perde e não sabe a quem se dirigir. Muito se deve pelo fato de o PCO ser um partido nacional que ignora a luta de classes e adota a perspectiva teórica da burguesia… que falta faz uma Internacional!

Lenin também já mostrou qual é a política realmente consequente que deve ser defendida pelos marxistas e não essa adaptação vergonhosa ao nacionalismo que o PCO aplica:

“Toda a opressão nacional provoca a resistência das amplas massas do povo, e a tendência de toda a resistência da população nacionalmente oprimida é a insurreição nacional. Se não é raro observarmos (particularmente na Áustria e na Rússia) que a burguesia das nações oprimidas apenas fala da insurreição nacional mas de fato entra em acordos reacionários com a burguesia da nação opressora nas costas e contra o seu próprio povo, nesses casos a crítica dos marxistas revolucionários não se deve dirigir contra o movimento nacional mas contra o seu abastardamento, o seu aviltamento, a sua deturpação, que o transforma numa disputa mesquinha. Diga-se de passagem que muitíssimos social-democratas austríacos e russos esquecem isto e transformam o seu ódio legítimo à querela nacional pequena, vulgar, miserável, como as discussões e disputas para saber em que língua deve o nome da rua estar na parte de cima da placa e em que língua na parte de baixo, transformam o seu ódio legítimo a isto em negação do apoio à luta nacional. Não ‘apoiaremos’ o cômico jogo à república num qualquer principado de Mónaco ou as aventuras ‘republicanas’ dos ‘generais’ nos pequenos Estados da América do Sul ou de qualquer ilha do oceano Pacífico, mas não se segue daqui que seja permissível esquecer a palavra de ordem de república para os movimentos democráticos e socialistas sérios. Nós ridicularizamos e devemos ridicularizar a querela nacional miserável e o regateio nacional das nações na Rússia e na Áustria, mas não se segue daqui que seja permissível renunciar ao apoio à insurreição nacional ou a qualquer luta séria, de todo o povo, contra a opressão nacional. ” (Sobre uma Caricatura do Marxismo e sobre o “Economismo Imperialista”, Lenin)

Não é difícil encontrar nos mais diversos jornais as traições de Putin ao seu povo, como exemplo do que pontuou Lenin, outra premissa é o uso do chauvinismo, implementado na URSS desde Stalin, como forma de deturpar a necessidade real do trabalhador russo de se insurgir contra a opressão aplicada pelo imperialismo, em conluio com a burguesia nacional que lucra enquanto seu povo é expropriado pelos capitalistas internacionais das economias dos países mais poderosos.

Enquanto apoia sua burguesia nacional preferida, o PCO faz o inverso do que recomendava Lenin, deixando de lado os manifestantes russos presos todos os dias contra essa guerra que não interessa aos trabalhadores, que mata todos os dias, tanto russos quanto ucranianos.

Pelos motivos expressados acima, o papel da Corrente Marxista Internacional (CMI) nesta guerra é o de consistente oposição a esse conflito que não trará nenhum resultado positivo para os trabalhadores, e de uma sistemática construção entre a vanguarda que se insurge contra seu governo, contra a sua burguesia, como defendia Lenin.

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