Foto: Maria Magdalena Arréllaga

Paraguai à beira do colapso na saúde: mais do mesmo em uma situação muito pior

Em um contexto de estagnação pela repercussão da crise econômica mundial, que se iniciou antes da pandemia, além de um surto de dengue em curso, as autoridades paraguaias implementaram em março de 2020 medidas para amenizar o surto da Covid-19 e o impacto da pandemia.

O governo de Mario Abdo Benítez do Partido Colorado, decretou a implementação de medidas de distanciamento social e controle sobre a circulação de pessoas. O Banco Central do Paraguai reduziu a taxa de juros e flexibilizou temporariamente as regras de concessão de crédito — para não penalizar as reestruturações e extensões de crédito. Foi desenvolvido e implementado um pacote fiscal contra a crise, aprovado pelo Parlamento, que inclui gastos adicionais em programas de saúde e proteção social, subsídio para trabalhadores informais e formais, apoio a pequenas empresas, realocação de linhas de gastos não prioritários e moratória sobre multas por atraso nos pagamentos de impostos. Para financiá-lo, o Governo foi autorizado a aumentar o limite de endividamento em 1.6 bilhão de dólares.

Todas, consequentemente, medidas paliativas que amorteceriam o impacto durante um tempo. Porém, evidentemente, se o motor não funciona, a carroceria e a pintura não te leva para onde quer ir. Com essas medidas, o que fizeram foi esconder por um tempo as graves deficiências que hoje explodem na face do governo de Marito Abdo.

De junho a agosto de 2020 começou a aumentar as taxas de contágio no Paraguai. Apesar do rápido aumento, a taxa de contágio no Paraguai não é a mais alta da região, no entanto, é quase igual.  Se é semelhante à de alguns países da região, que ainda estão suportando o impacto da pandemia, o que está acontecendo no Paraguai para que seu povo saia às ruas pedindo o impeachment do presidente e o sistema de saúde esteja à beira do colapso?

O grande problema no Paraguai é que ele vem de um sistema de saúde altamente deficitário. Observe que somente agora, na pandemia, depois de já ter recebido um crédito de US$ 1,6 bilhão, pôde-se aumentar as unidades de terapia intensiva no sistema nacional de saúde. No início da pandemia, o número de leitos atingia pouco mais de 350 unidades (em todo o Paraguai, um país de 7 milhões de habitantes e 1,6 milhão de pessoas abaixo da linha da pobreza). Agora, colocando a máquina estatal para funcionar a todo o vapor, atingiu-se apenas a marca de 630 leitos de UTI — repito, para 7 milhões de habitantes e desses 1,6 milhão de pessoas abaixo da linha da pobreza.

Qual é o agravante?  Ou seja, neste momento, o que tornou a situação ainda pior?

É que, desde aproximadamente 8 a 10 dias, o sistema de saúde atingiu a ocupação de 100% dos leitos de terapia intensiva. Não é 99%, é 100% dos leitos de terapia intensiva. Isso significa que para conseguir um leito deste tipo no Paraguai, ou acontece um milagre ou aumenta-se as vagas de UTI. Ou devemos esperar que alguém morra para liberar lugar.

Os paraguaios tradicionalmente costumavam atravessar a fronteira para outros países, como a Argentina, para receber a atenção médica que no país seria impossível receberem. Hoje em dia isso não é mais possível, já que as fronteiras estão fechadas. Os paraguaios estão isolados diante de um sistema de saúde que nunca foi saudável. Porém, em uma situação de pandemia mortal, muito pior do que antes.

Soma-se a isso o colapso que vivem os trabalhadores da saúde, que trabalham sem descanso, com poucos equipamentos, sem medicamentos e com uma previsão de piora, sendo que o governo recebeu até agora apenas 4 mil doses de vacina, no total, e com vistas à terceirização do serviço de vacinação — que pioraria ainda mais o acesso dos 1 milhão e 600 mil paraguaios que (oficialmente) já estavam abaixo da linha de pobreza, antes de iniciar a pandemia.

O silêncio do presidente diante das manifestações deixa muita incerteza. Suas medidas são direcionadas principalmente para a troca de ministros, destituindo alguns e esperando dias para nomear os sucessores. Não são medidas que vão melhorar a situação do sistema de saúde, e sim ações destinadas a acalmar os movimentos internos do Partido Colorado, que já vinham pedindo a cabeça de alguns ministros para diminuir a possibilidade de um impeachment.

Os manifestantes já queimaram uma parte da sede do Partido Colorado. Até o momento, as medidas de restrição na circulação de pessoas em determinados horários, de longe, não tem nada a ver com o combate a pandemia, a não ser a evitar a mobilização das pessoas.

A oposição oficial, formada pelo PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico —  direita neoliberal) e pela Frente Guazú (união de partidos de centro-esquerda), não faz quase nada contra a crise e as acusações do governo — a única coisa que o governo busca ao apontá-los como organizadores e culpados da destruição, é tentar criminalizá-los.  Isso se deve, também, porque, sendo maioria no judiciário, o Partido Colorado tem em suas mãos o julgamento judicial dos principais líderes desses partidos e ainda de outros.

Hoje estamos nas horas decisivas para saber se nosso sistema de saúde vai colapsar no estilo do que se viu no Equador no início de 2020, ou se a situação será revertida pelo governo.

As perdas dos entes queridos e a impossibilidade de velá-los; os pacientes nos corredores esperando que surja uma vaga; as duvidosas medidas do governo —  que são evidentemente insuficientes; o iminente colapso do sistema de saúde; e um pedido de impeachment rejeitado unanimemente pelo Partido Colorado e pela maioria no Congresso, resultaram em uma explosão social, cujo slogan é “que se vayan todos” (fora todos).

As desconfianças no governo já vinham se formando das ações que imprimiam duplo sentido, para alguns a aplicação da lei e punição, para outros não. Isso evidenciava a questão de classes na aplicação das leis. Para o pobre a lei, para os ricos “amizade”. Uma quarentena total no início, mas que logo se converteu em uma quarentena para alguns e a obrigação de trabalhar para outros, e com redução salarial.

Em maio, já eram mais de 600 mil denúncias no Ministério do Trabalho por demissões alegando a quarentena total. Os patrões obrigavam os trabalhadores a comparecerem no local de trabalho, mesmo havendo uma lei de quarentena total. Muitos foram demitidos e recontratados com a metade do salário.

O governo mostra seu desinteresse em acabar com a pandemia ao rejeitar as doações da China. Foram 1,4 milhão de doses que não chegaram, porque os Estados Unidos exigem que o país siga cooperando com Taiwan e negando relacionamento com a China, como nação e como setor privado.

Neste momento, torcemos para que o pior não aconteça. Entretanto, não vemos o governo tomando medidas direcionadas a melhorar a situação e não acreditamos que tomarão posições que resolvam os problemas, a não ser as de interesse dos poderosos do Paraguai.

Mais do mesmo, em uma situação pior.

TRADUÇÃO DE FABIO RÁMIREZ.

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