Marcha em Berlim Oriental, no dia 19 de janeiro de 1953, com homenagens a Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Foto: Keystone / Arquivo Hulton / Getty

Os voos altos e baixos da águia: Rosa Luxemburgo e a Rússia

A Rússia e a Alemanha formavam o epicentro dos debates teóricos e das ondas revolucionárias do final do século 19 e início do século 20. Nos dois locais, a efervescência política produzida pela revoltosa classe trabalhadora estava sob a influência das sociais-democracias1 e dos sindicatos, onde, de modo geral, os dirigentes reivindicavam a herança de Karl Marx e Friedrich Engels. Reforma e revolução, massas e vanguardas, intelectuais e proletários, camponeses e operários, nacionalismo e internacionalismo, conselhos e parlamentos, por todos os lados os temas pululavam no campo da luta de classes.

Nesse contexto de intensas disputas, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Vladimir Lenin, Leon Trotsky e tantos outros, militaram juntos, debatendo, divergindo, se apoiando e se afastando a partir de suas intervenções na luta de classes. Figuras que devem ser compreendidas como revolucionárias com seus erros e acertos, não como mártires aclamados por um abominável culto à personalidade, típico do stalinismo. Somente a partir disso pode-se começar a entender os voos altos e baixos de Rosa Luxemburgo frente às revoluções russas e aos bolcheviques. Aliás, apenas com a análise materialista e dialética da história pode-se compreender a crucial importância do método e da política desenvolvida pelos bolcheviques, seja para as situações russas e alemãs do século 20, seja para a luta revolucionária em nosso tempo.

A Águia Rosa Luxemburgo

Nascida em 5 de março de 1871, em Zamoṡc, uma pequena cidade da Polônia ocupada pela Rússia czarista, Luxemburgo iniciou sua militância na clandestinidade, inserida no movimento operário de Varsóvia. Essa posição lhe obrigou a fugir do país antes mesmo dos dezoito anos, devido à perseguição política do Império, refugiando-se na Suíça. Assim, vê-se que a relação de Luxemburgo com a luta de classes na Rússia deu-se desde o início de sua vida política.

Em Zurique, estudou Ciências Naturais, Matemática, Direito e Economia Política e aos 22 anos fundou, ao lado de Leo Jogiches, Julian Marchlewski e Adolf Warski, a Socialdemocracia do Reino da Polônia (SDKP). Em 1897, defendeu o que era reconhecido como doutorado, expondo sua tese sobre o desenvolvimento capitalista da Polônia e, um ano depois, mudou-se para Berlim, onde passou a militar na Socialdemocracia Alemã (SPD).

Após Karl Kautsky realizar o primeiro grande enfrentamento contra o reformismo, polemizando contra Eduard Bernstein, Luxemburgo deu prosseguimento ao combate com uma de suas obras mais potentes: Reforma ou Revolução, publicada em 1899. Tal produção de uma jovem militante foi como um furacão nas fileiras da socialdemocracia, pois atacava frontalmente o revisionismo desse consolidado dirigente, Bernstein – um sujeito que havia convivido com Engels e fora o executor do testamento de Marx. Nessa histórica e atual obra, Luxemburgo destrói os argumentos de que o capitalismo atingiria um desenvolvimento tamanho que o impediria de se afundar em crises, possibilitando sua transformação ao socialismo por iniciativas institucionais, ordeiras e pacíficas dirigidas pela socialdemocracia.

Desse modo, é marcante em toda sua militância, tanto a completa inserção nesse núcleo de acontecimentos que eram a Rússia e a Alemanha, quanto a polêmica e a crítica, como armas utilizadas sem pudor por Luxemburgo. É incontestável que a revolucionária produziu proficuamente, em qualquer situação que estivesse, contribuições fundamentais para o marxismo. E, sem dúvidas, foi uma militante incansável, tendo como seu principal objetivo de vida a revolução em permanência e o comunismo. Contudo, grandiosa como era, seus equívocos foram igualmente monumentais.

O Papel da Polêmica

Intencionalmente ou não, uma das características que se sobressaem de dirigentes que desenvolvem um papel de destaque na história, se confere na habilidade de polemizar corretamente, não por um desvio personalista, mas com o intuito de construir uma política revolucionária. Esse salutar desprendimento diante do conflito está presente em (e entre) Luxemburgo, Lenin e Trotsky. Inclusive, tais polêmicas podem parecer até mesmo acima do tom para a atualidade, caso o leitor chegue desavisado nestes textos, mas o papel da polêmica é peça importante para o debate construtivo entre os revolucionários e, principalmente, contra os oportunistas.

Nesse sentido, Lenin foi um ferrenho polemista que realizava a crítica com esse único propósito de desenvolver um partido capaz de ser a vanguarda dos trabalhadores, atuando com a política certeira e denunciando até os mais prestigiados deturpadores do marxismo. O mesmo se viu em Trotsky, que levou às últimas consequências a defesa da revolução permanente, polemizando desde a socialdemocracia russa até a burocracia stalinista, o que resultou no seu brutal assassinato a mando de Joseph Stalin, em agosto de 1940. Com Luxemburgo, entre voos altos e baixos, não foi diferente. Desde a sua tese de doutoramento até os últimos momentos de vida, ela também travou conflitos, sendo o derradeiro contra os traidores da revolução alemã, que possuem total responsabilidade de seu assassinato, em janeiro de 1919.

Assim, podemos entender que não há outra forma de defender a revolução e o marxismo senão pela rigidez teórica, a militância disciplinada e até polêmica na medida correta, como igualmente ensinaram Marx e Engels desde a década de 1840. Levantamos tal questão por ser nisso que consiste as controvérsias de Rosa Luxemburgo quanto às revoluções russas e ao bolchevismo.

Dito isso, é preciso salientar que, de fato, as posições de Luxemburgo sobre a Rússia, em inúmeros momentos, foram manipuladas por anticomunistas e “socialistas democráticos” para contrapor drasticamente a revolucionária alemã à Lenin e Trotsky. Mas isso não apaga seus erros, como em 1903 e em 1918, quando ainda estava encarcerada. Vejamos quais foram.

A Rosa e a Rússia: os voos altos e baixos da águia

 “O ultracentralismo defendido por Lenin aparece-nos como impregnado não mais de um espírito positivo e criador, mas sim do espírito do vigilante noturno. Toda sua preocupação destina-se a controlar a atividade do Partido e não a fecundá-la, a restringir o movimento ao invés de desenvolvê-lo” (Rosa Luxemburgo, 1903).2

“O leitor que se der ao trabalho de estudar as fontes de primeira mão acerca da luta de nosso partido compreenderá, sem dificuldade, que o que a camarada Rosa Luxemburgo diz sobre “ultracentralismo” equivale, concreta e praticamente, a burlar-se do que foi nosso congresso e, abstrata e teoricamente, uma simples vulgaridade do marxismo, uma tergiversação da autêntica dialética marxista” (Vladimir Lenin, 1904).3

A maior atenção e dedicação de Rosa Luxemburgo aos trabalhadores da Rússia inicia-se a partir do ingresso do marxismo nos círculos políticos do país, na década de 1880, e, fundamentalmente, com as grandes greves que surgem em 1896, dois anos antes da fundação do Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR). Essa análise se expressou com contundência na brochura Greve de Massas, Partido e Sindicatos, publicada em 1906, onde ela defendia que o desenvolvimento das mobilizações do fim do século 19 transformaram as reivindicações econômicas dos grevistas em pautas políticas, o que fizeram eclodir a Revolução de 1905. Mas para Luxemburgo, mesmo antes de 1905, o movimento de massas já era mais potente que uma direção centralizada. Diante disso, no bojo dessas análises, Luxemburgo produziu uma famosa polêmica contra Lenin, que pode ser sintetizada com os excertos acima, mas que aprofundaremos.

Está claro que Luxemburgo havia saudado com entusiasmo a Revolução de Outubro, como visto na carta para Louise Kautsky, datada de 24 de novembro de 19174, onde expõe que sua crucial preocupação sobre a revolução é a paralisia da socialdemocracia na Europa ocidental, que poderia asfixiar o poder soviético. Nada mais correto que isso, Luxemburgo estava certa. Em seus artigos desse momento, a revolucionária alemã demonstrou sua oposição ao espontaneísmo das ações das massas, condenou as políticas conservadoras das direções socialdemocratas, que freavam a radicalização da classe trabalhadora, e a adaptação da II Internacional ao parlamentarismo burguês – questões sobre as quais compactuava com Lenin. Contudo, coligou-se com os críticos do bolchevismo, defendendo uma completa autonomia dos comitês locais contra o centralismo. Uma flagrante contradição por si só, ao saber que somente a ação espontânea das massas é incapaz de tomar o poder, ao mesmo tempo da contrariedade à formação de uma vanguarda disciplinada, educada, reconhecida e centralizada, como sendo a importante arma para converter a revolta geral em ação consciente.

Essa incongruência de Luxemburgo, que obviamente ofuscava seu entendimento da revolução na Rússia, era, sobretudo, produto do desconhecimento das disputas internas, posições políticas e, principalmente, votações congressuais da socialdemocracia do país. A dirigente alemã também supunha que Lenin e seus camaradas acabavam por ordenar um único sistema de organização contra qualquer outro. Na realidade, o que faziam esses revolucionários era reiterar a convicção nos métodos para as organizações marxistas: a soberania da democracia nos congressos, a disciplina, a crítica e a correção do sistema organizacional “seja ele qual for, sempre e quando contradiga os princípios do partido” (Lenin, 1985, p. 42).

Como parte crucial dessa crítica de Luxemburgo a Lenin, se evidenciava outra suposição: “o Comitê Central aparece como o verdadeiro núcleo ativo do partido e as demais organizações como simples instrumentos executivos” (Luxemburgo, 1985, p. 13). Ainda acrescentava que Lenin atribuía poderes absolutos ao Comitê Central com a finalidade de varrer os intelectuais do partido5, pois, segundo Luxemburgo, Lenin os tinha como meros oportunistas, que possuíam uma “tendência inata à autonomia e à desorganização”, uma espécie de aversão à disciplina:

 “Segundo Lenin, os intelectuais se mantêm individualistas e inclinados à anarquia, […] enquanto entre o proletariado autêntico consegue, mediante seu instinto de classe, uma espécie de voluptuosidade com a qual se abandona ao pulso de uma sólida direção e a todos os rigores de uma disciplina impiedosa” (Rosa Luxemburgo, p. 26, 1985).

No combate, Rosa equivoca-se com relação ao que Lenin defende sobre a organização da direção revolucionária. No II Congresso do POSDR, ocorrido neste mesmo ano de 1903, a minoria derrotada chegou a acusar Lenin de defender a subordinação do Comitê Central aos organismos que funcionavam fora dessa instância. Ademais, tratar a disciplina operária, realmente preconizada por Lenin, como algo “instintivo” significa uma distorção do materialismo histórico-dialético, como se o fato do proletariado ser a vanguarda da revolução fosse uma escolha subjetiva.

Inclui-se a crítica que Lenin fazia à minoria e aos intelectuais, o culto da espontaneidade, que o bolchevique creditava ao receio destes em se afastarem das massas, pois, supostamente, estariam subindo mais alto que a “simples satisfação das suas necessidades diretas e imediatas” (1977, p. 150). Na realidade, isso não passa de uma presunção e, na prática, “preparar o terreno para converter o movimento operário num instrumento da democracia burguesa” (1977, p. 130) ao rebaixar as reivindicações.

Diante disso, a justificativa principal de Luxemburgo para se opor ao centralismo democrático (único método capaz de fazer pulsar vida nos órgãos do Partido) era o de que não haveria dúvidas sobre a necessidade de a socialdemocracia russa ser um partido unificado, mas que a única discussão versava sobre ser uma organização mais ou menos centralizada. Infelizmente, a polêmica de Luxemburgo é derivada do desconhecimento. As resoluções dos comitês locais, em diversos casos dirigidos pela fração menchevique, explicitavam que a real disputa se dava em torno da adoção ou não das votações em congresso, onde os bolcheviques saíram vitoriosos para representar o Comitê Central. Ou seja, em última instância, o debate menchevique era sobre golpear os eleitos. Em resposta a tamanho erro, Lenin provocou Luxemburgo concordando que a “submissão servil é funesta ao partido” (p. 44, 1985), mas, em seguida, indagou, ironicamente, se Luxemburgo considerava normal, em qualquer partido, que os derrotados no voto democrático constituíssem a direção dessa mesma organização.

Portanto, o fato é que em nenhum momento, os bolcheviques tinham o estatuto do partido como uma “arma por si mesmo” para “eliminar os oportunistas”, como atacou Luxemburgo. O que acontecia nesses momentos, no início do século 20, onde as disputas afloraram entre essas frações, era que a cada passo só se evidenciava o fim de qualquer “nexo ideológico entre os comitês”, isto é, entre bolcheviques e mencheviques, os revolucionários disciplinados e os reformistas que defendiam uma organização solta, respectivamente.

Assim, nos referidos anos, vê-se que o erro de Luxemburgo diante da revolução na Rússia foi adotar a torpe análise que acusava os bolcheviques de “ultracentristas”. Isso significa que Luxemburgo acabou por recusar a real democracia operária para adotar a frouxidão organizacional, como uma crença que o “movimento das massas” é o que traz a liberdade e a democracia, quase como em uma nota digna dos utopistas, enquanto Lenin se tratava da reencarnação de Blanqui6 do novo século.

Porém, o voo mais baixo entre as galinhas feito pela águia7 chamada Rosa Luxemburgo não se restringiu a essa querela. O segundo equívoco sobre as Revoluções Russas se deu anos depois, já com a tomada do poder pelos trabalhadores russos. Presa na Alemanha em 1915, devido a agitação antiguerra mundial e antinacionalista, Luxemburgo só foi solta pela Revolução Alemã em novembro de 1918, mas em setembro deste mesmo ano escreveu um artigo chamado A Revolução Russa. Nele, colocava sua posição sobre o processo que havia sido vitorioso há menos de um ano e que começava a enfrentar uma bárbara invasão dos 22 exércitos imperialistas, mais o exército czarista. Mesmo tendo escrito, não foi grande a intenção de Luxemburgo em publicar seu manuscrito, pois era uma espécie de rascunho a ser debatido, que foi entregue a Paul Levi, sobre o que trataremos adiante.

Nesse artigo, os canhões de Luxemburgo miraram os bolcheviques, tornando esse texto, posteriormente, em um libelo dos anticomunistas. Linhas que contemplam as deturpações e difamações à direção da Revolução de Outubro. As acusações de Luxemburgo inseridas nessa brochura são replicadas até nossos dias como se fossem premonições do que viria a ser a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas sob a ditadura stalinista. Além, claro, do método de citar frases soltas e descontextualizadas de Luxemburgo para transformá-la praticamente em uma liberal democrática. Com isso afirmam que a burocracia e a contrarrevolução não foram obras lideradas por Stalin, Bukharin e companhia, mas inerentes à política bolchevique. Questão essa que pode ser facilmente contradita com uma retórica feita por Alex Grant: se o stalinismo foi a progressão lógica do partido de Lenin, por que o assassinato e a completa destruição dos quadros bolcheviques da Revolução de 1917 foram necessários para o estabelecimento da ditadura stalinista?

Mas o fato é que Luxemburgo nunca publicou esse artigo, isso foi feito pelas mãos do já citado, Paul Levi, um inimigo da revolução, que o fez após a morte da autora, em 1922. Levi tratava-se de um ressentido que havia perdido a disputa dentro do Partido Comunista Alemão (fundado pelos Espartaquistas8 em 29 de dezembro de 1918) sobre a Ação de Março, resolução da III Internacional que encaminhava a tentativa de uma nova revolução no país. Após sua expulsão do partido, Levi quis explodir uma bomba contra a Internacional Comunista e os bolcheviques, publicando esse artigo de Luxemburgo. Seu intuito era somente difamar o Estado Operário Camponês Soviético, que nesse período ainda não havia sido degenerado pelo stalinismo, e bradar aos quatro cantos que ele era o verdadeiro defensor da democracia e do socialismo.

Nesse trabalho, Luxemburgo “denunciou” uma possível imposição ditatorial dos bolcheviques iniciada pela dissolução da Assembleia Constituinte – uma instituição liberal, que foi contraposta pelo total poder dos Sovietes – os Conselhos dos trabalhadores. Ela também julgava haver a supressão das liberdades de imprensa, de associação e de reunião, e se colocava contra o direito ao voto ser dado apenas aos que trabalhavam. Essa regra, por sua vez, foi posta em prática com o intuito de impedir a participação política da burguesia nos destinos da revolução.

A partir disso, é preciso esclarecer os fatos sobre a Assembleia Constituinte e sua dissolução “pelas mãos bolcheviques”. Após os liberais e os reformistas se recusarem a convocar a Assembleia Constituinte por quase um ano, desde a Revolução de Fevereiro de 1917, foi o Partido Bolchevique quem a organizou. Convocada para o dia 18 de janeiro de 1918, os resultados foram: 41% para o Partido Social Reformista (liberais dirigidos por Kerensky), 24% para os Bolcheviques, menos de 5% para os Kadets (fascistas dirigidos por Kornilov) e 3% para os Mencheviques. Porém, a questão é que, apesar dos camponeses terem votado nos reformistas, todos os demais setores ativos da classe trabalhadora russa estavam longe da disputa parlamentar. Estes se concentravam nos Sovietes, onde as eleições são diretas, os delegados podem ter seus mandatos revogados e não há nenhuma divisão entre legislativo e executivo. Onde a democracia realmente existe!

Quando a constituinte foi formada nesse 18 de janeiro de 1918, o duplo poder estava formado, as instituições liberais do Estado burguês já não valiam de nada, desde outubro de 1917. A prova disso é que os vencedores reformistas tentaram organizar uma manifestação em apoio à Assembleia Constituinte, mas poucos compareceram, era seu fim.

Apesar de toda a verdadeira história, foram esses elementos que formaram a pedra angular da acusação de Luxemburgo sobre as liberdades democráticas na Rússia após outubro, mas não foram os únicos temas. As questões agrária e da autodeterminação dos povos foram igualmente polemizadas contra os bolcheviques.

Segundo Luxemburgo, a política bolchevique de apropriação das terras pelos pequenos camponeses nos primeiros momentos da revolução, os tornaria inimigos da coletivização e, por consequência, do socialismo. Ela defendeu que a solução era a eliminação progressiva da pequena propriedade camponesa, pois seria a grande propriedade, a partir da sua estatização e industrialização, a base da agricultura socialista. Porém, aqui reside, mais uma vez, um erro teórico e incompreensão das condições russas. A política agrária soviética é exposta detalhadamente por Trotsky, tanto no período, quanto posteriormente, como podemos verificar na obra A Revolução Traída, de 1936, onde o bolchevique explica a necessidade inicial de se conquistar os camponeses, democratizando o acesso à terra, em contraposição à coletivização forçada, o que foi feito por Stalin em meados dos anos 1920. Além disso, é impossível realizar uma análise justa da política agrária soviética entre 1918 e 1921, sem considerar a destruição gerada pela Guerra Civil e a necessidade do “comunismo de guerra”. Embora tal obra de Trotsky tenha sido publicada anos após a morte de Luxemburgo, as condições da questão agrária soviética já pululavam em 1918, onde a revolucionária alemã, caso quisesse se ater devidamente ao tema, poderia ter consultado antes de condenar as ações bolcheviques.

A outra crítica contumaz de Luxemburgo, especificamente a Lenin e Trotsky, era a antiga polêmica sobre a autodeterminação dos povos. Luxemburgo possuía absoluta oposição ao nacionalismo, porém, nesse caso, falhava na compreensão dialética de como as contradições na luta de classes são cruciais para a revolução, pois, desde a Polônia, na década de 1890, recusava a defesa pela independência do país. Para ela, deveria seguir como parte da Rússia, pois assinalava que a Polônia era a região mais industrializada do império czarista, afirmando que a independência não seria benéfica econômica e politicamente para a classe trabalhadora polonesa. Trata-se de uma defesa derivada de um erro dialético de Luxemburgo, ao bradar que a autodeterminação dos povos era uma política reacionária. Na prática, Lenin e os bolcheviques também defendiam qualquer traço nacionalista como reacionário, porém, compreendiam que é uma questão puramente dialética a direção revolucionária cooperar nos processos de independências nacionais como um passo na luta socialista e internacional.  Contudo, para Luxemburgo, a contradição inerente às reivindicações independentistas, que colocam as massas trabalhadoras em movimento, podendo ser dirigidas por um partido revolucionário marxista, não passava de um “otimismo incompreensível” dos bolcheviques e, até mesmo, algo contrarrevolucionário. Na história da Revolução de Outubro, foi o Tratado de Brest-Litovsk, assinado por Trotsky, em 8 de março de 1918, que fizeram-na abrir este fogo contra a direção russa.

Apesar de todas essas críticas, Rosa Luxemburgo, em determinado momento do artigo, se aproximou da explicação de Trotsky sobre a Revolução Russa, quando afirmou que “em condições tão fatais, nem o mais gigantesco idealismo, nem a mais inabalável energia revolucionária seriam capazes de realizar a democracia e o socialismo, mas apenas rudimentos frágeis e caricaturais de ambos” (Luxemburgo, 2017, p. 28).9 Quer dizer, se assemelha à análise que o fundador do Exército Vermelho faz ao esclarecer que o socialismo (consequentemente, a democracia) não são produtos de uma revolução isolada, especialmente em um país atrasado como a Rússia. O máximo que essa revolução poderia alcançar seria o nível industrial e democrático do capitalismo desenvolvido, sendo “o regime soviético, com todas as suas contradições, não socialista mas transitório entre o capitalismo e o socialismo” (Trotsky, 1980, p. 36-37).10 Isto é, ambos entendiam que o salto devidamente socialista se dá apenas com a revolução permanente, a tomada do poder pelos trabalhadores nos países mais avançados do capitalismo.

Luxemburgo também apontava que, em 1918, o isolamento da Revolução Russa se deu pela traição socialdemocrata alemã à classe trabalhadora, impondo a derrota para a Revolução no país. Apesar disso, ao lermos com atenção, mais uma vez, exemplifica-se um equívoco de Luxemburgo sobre o papel da vanguarda, em especial, a utilização do método bolchevique, pois ela acaba por imputar certa culpa às massas trabalhadoras pelo atraso da revolução no Ocidente, ao dizer que:

“O despertar da combatividade revolucionária da classe operária alemã não pode provir de qualquer sugestão dos métodos de tutela da socialdemocracia alemã – que Deus a tenha –, que incitaria a massa a crer cegamente numa autoridade imaculada, quer a das próprias “instâncias”, quer a do “exemplo russo”. A capacidade de o proletariado alemão realizar ações históricas só nascerá […] da maturidade política e da autonomia intelectual, da capacidade de julgamento crítico das massas” (Rosa Luxemburgo, 1918).11

Ora, é evidente que os métodos da socialdemocracia alemã não seriam capazes de dirigir as massas trabalhadoras do país, de “despertá-las” para tomar o poder e dar continuidade à Revolução Russa. Não poderiam, justamente porque a socialdemocracia alemã não possuía a política e o método bolchevique, não mirou-se no “exemplo russo”, como a própria Luxemburgo havia indicado na brochura Greves de Massas, Partido e Sindicatos, de 1906.12 Mas como dito, o que lemos nas frases acima chega a estarrecer, pois Luxemburgo atribui à classe trabalhadora alemã – a mais avançada e organizada da Europa – uma incompreensão da realidade, uma imaturidade política e uma incapacidade de um julgamento crítico sobre a luta de classes. Seriam mesmo essas as debilidades das massas trabalhadoras da Alemanha, que estavam realizando a sua revolução, ou a ausência de um partido revolucionário disciplinado, educado, reconhecido e centralizado, como eram os bolcheviques? A resposta está dada pela história.

Diante de tudo isso, os erros de Luxemburgo sobre a Revolução Russa saltam aos olhos, mas não devem ser coletados para diminuí-la e muito menos para colocá-la do outro lado da trincheira. Rosa Luxemburgo foi uma fundamental revolucionária que voava aos céus acertando em inúmeras situações e buscando organizar o proletariado alemão. Suas críticas ao bolchevismo se davam no sentido de debater tática e estrategicamente a revolução, fazendo debates duros, mas sempre explicitando que se davam entre camaradas que se respeitavam e nutriam profunda admiração uns pelos outros. Mas, como já mostrado, Rosa também errava tão gravemente ao ponto de transformar-se em arma para Paul Levi.

Há de se fazer justiça que, ainda no artigo do cárcere, as últimas linhas de Luxemburgo buscam distinguir suas críticas aos bolcheviques das feitas pela direção da socialdemocracia alemã, reservando à Lenin, Trotsky e todos os bolcheviques, um papel “verdadeiramente revolucionário nos limites das possibilidades históricas” (Luxemburgo, 2017, p. 104). Ela também foi radical ao dizer que a revolução russa estava sendo esgotada pela “guerra mundial e estrangulada pelo imperialismo”. E finaliza complementando que os dirigentes bolcheviques foram os primeiros a dar o exemplo ao proletariado internacional, os capazes de ousar em meio a tantas adversidades. Para Luxemburgo, os russos abriram o caminho do socialismo para o mundo e, neste sentido, “o futuro pertence por toda parte ao “bolchevismo” (Luxemburgo, 2017, p. 105).

Em síntese, as posições que lemos de Luxemburgo são erros teóricos e, principalmente, pelo desconhecimento das condições russas, especialmente no manuscrito de 1918, visto que estava há anos presa e sem as devidas informações. Dessa forma, deve-se reiterar que a publicação póstuma deste artigo foi à revelia de camaradas realmente próximos de Rosa Luxemburgo, como Clara Zetkin. Trotsky chegou a escrever, em janeiro do mesmo ano, que se tratava de uma cegueira de Paul Levi, pois, assim como todos os revolucionários, Luxemburgo havia esclarecido muitas análises sobre a luta de classes e aprendido com os “golpes dos acontecimentos”. A publicação dessa crítica aos bolcheviques, que havia ficado trancada a sete chaves por quatro anos, era apenas uma tentativa de Levi atrair público para sua nova organização, o Grupo de Trabalho Comunista, que ainda em 1922, acabou se fundindo ao Partido Socialdemocrata Independente, tendo rompido por completo com o comunismo.

A Rosa e a Rússia: seus últimos meses

Ao sair da prisão, em novembro de 1918, pode-se ver mudanças drásticas quanto às polêmicas que levantou contra o que vinha acontecendo na Rússia, a partir da experiência da Revolução Alemã. O tema da democracia é o mais fundamental nas reavaliações de Luxemburgo, o que vai se mostrar com maior evidência na questão da Assembleia Constituinte.

Se anteriormente, Luxemburgo “condenava” os bolcheviques pela dissolução desta instituição, a Revolução Alemã deixou claro para ela que são os Conselhos de Trabalhadores e Soldados que proporcionam a verdadeira democracia. Em 18 de novembro de 1918, a revolucionária escreveu um artigo apontando que o objetivo da Revolução era garantir “todo o poder em mãos da massa trabalhadora, em mãos dos Conselhos de Operários e Soldados”. E alertou que o governo alemão havia convocado a Assembleia Constituinte para criar um contrapeso burguês diante dos sovietes, na tentativa de domar a revolução, “escondendo os fins socialistas”13. Enfim, Luxemburgo mirou-se no “exemplo russo”. Entretanto, isso não significou um mero sectarismo esquerdista, renegando a Assembleia Constituinte sem educar a classe trabalhadora, como acabou por realizar a jovem direção do Partido Comunista Alemão, que boicotaram as disputas eleitorais por um purismo infantil e deixaram a direção do processo revolucionário nas mãos oportunistas da socialdemocracia, liderada por Friedrich Ebert.

Portanto, o crucial é que Rosa Luxemburgo, após sua soltura em novembro de 1918 até seu assassinato em janeiro de 1919, corrigiu suas posições sobre os elementos que criticou, defendeu a revolução e apreciou o papel dos bolcheviques na Rússia. Se os livros e os contatos não a fizeram compreender a importância do método bolchevique, foi preciso a experiência concreta da Revolução Alemã, na qual seu estudo é tão capital quanto o das Revoluções Russas.

As lições

“Apesar de todos os seus erros, Rosa foi e permanece sendo uma águia. E não apenas os comunistas de todo o mundo irão velar pela sua memória, senão ainda sua biografia e suas obras completas servirão como úteis manuais para o treinamento de muitas gerações de comunistas em todo o mundo” (Vladimir Lenin, 1919).14

Na atualidade, em anos onde o capitalismo e o imperialismo vivem sua fase mais senil, nossa tarefa diante da história do movimento operário é nutrir a militância com os acertos e erros do passado, ao passo que construímos, no presente, a vanguarda política capaz de dirigir as massas trabalhadoras – os realmente capazes de fazer a humanidade sair de sua pré-história.

O proletariado internacional não aguenta mais tamanha exploração e opressão, as mortes pela espoliação do assalariamento e por doenças curáveis. Sua consciência se aflora com as condições degradantes de vida e pulsam, revoltando-se nas ruas, causando insurreições nos países dominados e no coração do sistema, como vimos nos últimos meses nos Estados Unidos. Entretanto, se são os movimentos das massas que promovem as insurreições, a história nos mostra que é o método desenvolvido pelos bolcheviques o mais eficaz para organizar e transformar, conforme entendimento de Lenin, a classe em si a classe para si, isto é, a ira em ação coordenada para o golpe definitivo no capitalismo e pela construção da sociedade socialista.

Os estudos e análises da Revolução Alemã, que durou menos de um ano, são encontrados na revista teórica da Corrente Marxista Internacional, América Socialista, em seu número 13, no marco da comemoração do Centenário desse acontecimento histórico para a classe trabalhadora, com o artigo 100 anos da Revolução Alemã, além da edição número 14 da América Socialista, que traz o artigo 100 anos do assassinato de Rosa Luxemburgo: uma homenagem à luta pelo socialismo, ambos de Maritania Camargo. Aos companheiros que se dedicarem a lê-los, terão os complementos necessários para a compreensão da importância da Revolução Alemã e de Rosa Luxemburgo.

Notas e referências:

1 Partidos que eram formados por inúmeras frações políticas, defendendo desde políticas reformistas e conciliatórias com o poder estabelecido até revolucionárias e socialistas, como destacaram-se os Bolcheviques.

2 LUXEMBURGO, Rosa. Questões de Organização da Socialdemocracia Russa. Artigo publicado em Die Neue Zeit, Stuttgart, ano 22, 1903/ 1904, vol. 2, p. 484-492; 529-535. In:______. Partido de Massas ou Partido de Vanguarda. Editora: Nova Stella, p. 24, 1985.

3 LENIN, Vladimir. Um Passo Adiante, Dois Atrás: Resposta de Lenin a Rosa Luxemburgo. Artigo escrito em 1904, enviado a Kautsky para ser publicado no órgão da socialdemocracia alemã Die Neue Zeit, sendo recusado, e só vindo a público pela primeira vez em 1930. In:______. Partido de Massas ou Partido de Vanguarda. Editora: Nova Stella, p. 56, 1985.

4 GOMES, Rosa Rosa de Souza Rosa. Rosa Luxemburgo e a Revolução Russa. NIEP Marx, Anais do Colóquio Internacional Marx e o Marxismo 2017: De O capital à Revolução de Outubro (1867 – 1917), Trabalho 382, p. 13. Niterói, agosto de 2017.

5  O que Lenin defendia para os intelectuais? A resposta está na obra Que Fazer, de 1902: “Para isso, é necessário que os intelectuais nos repitam menos o que nós próprios sabemos, e que nos dêem mais daquilo que ainda ignoramos, daquilo que a nossa experiência “económica” e fabril nunca nos ensinará: os conhecimentos políticos. Estes conhecimentos só vós, os intelectuais, podeis adquiri-los, e é dever vosso fornecer-no-los cem e mil vezes mais do que até aqui o tendes feito; além disso, não os deveis fornecer apenas sob a forma de raciocínios, brochuras e artigos (que frequentemente – desculpai a nossa franqueza! – são um pouco maçudos), mas indispensavelmente sob a forma de denúncias” (LENIN, Vladimir. Que Fazer? Problemas candentes do nosso movimento. Editora Avante, 1977, p. 123).

6 Louis Auguste Blanqui (1805-1881), revolucionário francês que defendia a implantação do comunismo por meio de pequenos grupos conspiracionistas, armados e secretos.

7 Lenin citava uma fábula russa do escritor Krilov para se referir aos erros políticos, conjunturais ou “eternos”, de alguns militantes. Na fábula, lembramos que as águias podem descer mais baixo que as galinhas, mas as galinhas nunca poderão subir às águias. Assim, os erros de Luxemburgo significavam que ela, apesar de toda sua capacidade e importância, era capaz de se equivocar ao ponto de deixar de voar para andar entre as galinhas.

8 Organização fundada por Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin, Karl Liebknecht e Franz Mehring. Desenvolvida a partir de 1914 e oficializada em 1916, passou a ser a ala de esquerda do Partido Socialdemocrata Independente, a partir de 1917.

9 LUXEMBURGO, Rosa. A revolução Russa. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2017. 124p.

[10] TROTSKY, Leon. A Revolução Traída. São Paulo: Global Editora, 1980.

11  LUXEMBURGO, Rosa. A revolução Russa. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, p. 30-31, 2017.

12 LUXEMBURG, Rosa. Questões de Organização da Socialdemocracia Russa. In: LOUREIRO, Isabel (org). Rosa Luxemburg: textos escolhidos. Volume 1. São Paulo: Editora Unesp, 2011, p. 326-327

13 FROLICH, Paul. Rosa Luxemburgo – Pensamento e Ação. São Paulo: Boitempo, 2019, 378p.

14 LENIN, Vladimir. Em memória de Rosa Luxemburgo: a águia da revolução proletária mundial e da Internacional Comunista à Época de Lenin e Trotsky. Disponível em: <www.scientific-socialism.de/MCLuxembCAP1.htm>. Acesso em: 19 fev. 2021.

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