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Foto: Socialist Revolution

Os socialistas devem se preparar para a revolução?

Este artigo, publicado anteriormente em Socialist Revolution (revista da CMI nos EUA), argumenta que o pêndulo histórico está oscilando na direção de um eventual ressurgimento do movimento dos trabalhadores. O que precisa estar no lugar para que uma futura revolução tenha êxito? Que tipo de organização e programa pode levar a classe trabalhadora à vitória?

Quando ocorre um abalo sísmico na natureza, toda a pressão que se acumulou silenciosamente durante um longo período de aparente calma é repentinamente liberada, transformando de forma instantânea a paisagem. A reconfiguração da opinião pública sobre socialismo nos EUA teve efeito similar sobre a esquerda – desencadeou um debate que está empurrando os socialistas a fazerem perguntas mais interessantes sobre o que será necessário para transformar esta sociedade em nosso tempo de vida.

Em meio à agitação de ideias, perspectivas e atitudes, há uma tentativa urgente de dar sentido à presente época, de separar o que é possível do que é irrealista, de fazer um balanço do que é novo e do que é fundamentalmente imutável a respeito das tarefas que nos confrontam.

Há uma sensação agora de que os socialistas estão começando a nadar a favor da maré. Foto: Flickr, Mathiaswasik

A situação modificada está alimentando uma polêmica entre o otimismo revolucionário e o pessimismo desesperado. Essas atitudes em conflito refletem o choque dissonante entre o vigor da geração recém-radicalizada e o cansaço dos ativistas da velha guarda que foram arrancados da relativa tranquilidade do ambiente político “pré-sísmico”.

Por um lado, há uma sensação de que a maré histórica está se voltando contra o capitalismo e de que os socialistas estão começando a nadar a favor da corrente. A crescente angústia da classe dominante sobre a popularidade do socialismo – e mesmo sobre a própria sobrevivência do sistema capitalista – tornou-se um tema frequente na mídia. Já se passou um longo tempo desde que “deixamos tremer as classes dominantes” desse jeito, e, no entanto, em vez do otimismo encorajado que se esperava da crescente esquerda socialista, o conjunto de vozes que vendem o cinismo e o derrotismo é surpreendente.

“Bleak is the new red” [“A desolação é o novo vermelho”] anuncia Salvage, uma publicação trimestral “escrita para a esquerda desolada” – formada por veteranos do cenário ativista que “ganharam o seu pessimismo” e abandonaram suas organizações, abatidos e cansados de serem informados de que a revolução estava chegando, só para ser perdida mais uma vez. Na falta de uma perspectiva equilibrada de como a luta de classes estava se desdobrando, alguns socialistas descobriram que suas expectativas não estavam em sintonia com a realidade. Em vez de desistir de seus esquemas e de ajustar suas perspectivas, abandonaram por completo a esperança. Agrupamentos como Salvage buscam conforto em se intitular como “revolucionários pessimistas” – como se houvesse algo novo ou revolucionário ao se adotar uma perspectiva sombria sobre a história. Longe de ser uma contribuição séria ao debate estratégico, esta é apenas uma variação particularmente sombria de um velho tema.

Felizmente, a perspectiva sombria dos restos da fase anterior não reflete o estado de ânimo dos milhões que estão chegando hoje às ideias socialistas. Mas o chamado “pessimismo revolucionário” encontra outros expoentes, mais sutis, que conseguiram se posicionar no debate atual sobre estratégia socialista. Um deles é Vivek Chibber de Jacobin, cujo artigo “Nosso Caminho ao Poder” presta homenagem à organização leninista do partido como o único modelo comprovado de ser politicamente efetivo, e até admite que, “Dada essa história, é difícil de se imaginar uma forma para a esquerda se organizar como uma força real sem uma variante da estrutura que os primeiros socialistas enfrentaram – um partido baseado em quadros com uma liderança centralizada e coerência interna”.

No entanto, depois de aplaudir os bolcheviques por seu êxito tático em se enraizar na classe trabalhadora, ele passa do tópico da organização ao campo da estratégia, e o tom de admoestador de professor da NYU [New York University] vem à tona, assegurando ao leitor que a Revolução de Outubro tem hoje menos a nos oferecer sobre a questão da estratégia:

Pode-se descrever isto como uma estratégia de ruptura com o capitalismo. Agora não há nenhuma dúvida de que as décadas desde o início do século XX até a Guerra Civil Espanhola podem ser descritas como um período revolucionário. Foi uma era em que a possibilidade de uma ruptura poderia ser seriamente contemplada e uma estratégia construída em torno dela. Havia muitos socialistas que defendiam uma abordagem mais gradualista, mas os revolucionários que os criticaram não viviam em um mundo de sonhos. O caminho russo, por assim dizer, era viável para muitos partidos. Mas, a partir da década de 1950, as aberturas para este tipo de estratégia diminuíram. E, atualmente, parece uma total alucinação pensar o socialismo através dessas lentes.

A ideia básica é que estamos vivendo em uma era pós-revolucionária, na qual a luta de classes tradicional e a insurreição estão consignadas ao passado remoto. Ser realista é baixar a cabeça em desânimo e aceitar a necessidade de uma estratégia “gradualista” – isto é, reformista. Mas o que há na época atual que nos força a descartar o tipo de revolução que os bolcheviques realizaram? O professor nos responde:

Hoje, o Estado tem uma legitimidade infinitamente maior junto à população do que os Estados europeus tiveram há um século. Além disso, seu poder coercitivo, seu poder de vigilância e a coesão interna da classe dominante conferem à ordem social uma estabilidade de magnitude superior à que tinha em 1917… Hoje a estabilidade política do Estado é uma realidade que a esquerda deve reconhecer.

Esta avaliação de nossa época é francamente desconcertante, numa época em que os governos do mundo estão mais desacreditados do que nunca, e em que o sentimento anti-establishment é quase universal. Recentemente, um inquérito patrocinado pela União Europeia perguntou a mais de meio milhão de pessoas, com idades entre 18 e 34 anos, se “Participariam ativamente de um levantamento em grande escala contra o governo no poder se isto acontecesse nos próximos dias ou meses?” Entre os jovens gregos, 67% responderam afirmativamente, como o fizeram 65% na Itália, 63% na Espanha, 61% na França – dificilmente um testemunho da legitimidade do Estado entre a juventude, que representa os futuros batalhões da luta de classes.

Igualmente intrigante é a reivindicação de uma maior “coesão interna” da classe dominante – num momento em que o tradicional “centro” liberal praticamente desmoronou e a polarização extrema é a característica política definidora da situação global. Nos EUA, o próprio presidente é um dos principais fatores de desestabilização. Parece que não passa uma semana sem uma nova crise constitucional ou um imenso escândalo que mina a fachada de legitimidade das instituições estatais. O regime à cabeça do mais poderoso país capitalista na terra pode ser caracterizado de várias formas, mas pode ser tudo menos “coeso” ou “estável”!

Para milhões de trabalhadores e jovens estadunidenses, o absurdo grotesco de se ter um bilionário racista na Casa Branca é um retrato moderno da decadência pré-revolucionária, num momento em que a desigualdade alcançou níveis quase insondáveis. Enquanto a ira e a polarização na sociedade se intensificam, não são os defensores de uma estratégia revolucionária que estão vivendo em um mundo de sonhos. Imaginar que estamos caminhando para um período prolongado de crescimento capitalista e estabilidade política, como durante o auge do pós-guerra, e pedir a esquerda para moderar suas ambições de acordo com isso – esta é a posição alucinante.

O regime à frente do país capitalista mais poderoso da Terra é tudo, menos “estável”. Foto: Socialist Appeal

O otimismo revolucionário não tem nada a ver com a esperança de que a revolução está logo ali na esquina. É um ponto de vista histórico mais amplo que olha além do momento presente e vê os fatores que prometem uma intensificação da luta de classes com base nas contradições inerentes ao capitalismo. O otimismo confiante da burguesia é uma coisa do passado. Tinha uma base material. Durante um período, o desenvolvimento das forças produtivas permitiu à humanidade se erguer e aumentar o seu domínio sobre a natureza. Hoje, a mesma classe que supervisionou esse progresso está agora se interpondo em seu caminho, e esse impasse social só pode ser rompido pela ação revolucionária de nossa classe.

Os capitalistas são incapazes de evitar um novo ataque aos padrões de vida e ao meio-ambiente. Os revolucionários otimistas são simplesmente os que veem a pressão se formando ao longo de uma linha de falha que há muito parecia estar inativa sob a superfície. Tal como acontece com o momento de um terremoto, o momento preciso em que a ira acumulada vai virar uma explosão revolucionária não pode ser predeterminado. Mas descartá-lo completamente é como chegar à conclusão de que a atividade sísmica ao longo de uma linha de falha particular é coisa do passado – quando é um fato da vida que nenhuma linha de falha permanece latente para sempre.

Para aqueles que podem ver que o pêndulo histórico promete um eventual ressurgimento do movimento dos trabalhadores, a questão estratégica é: O que precisa estar no lugar para que uma futura revolução tenha êxito?

Por isso é indispensável voltar às lições do bolchevismo, como muitos socialistas estão fazendo hoje. O interesse maior na concepção organizacional de Lenin é um indicador promissor da futura trajetória da esquerda.

Então, o que é uma organização de quadros? Em seu sentido mais geral, um quadro é uma estrutura organizacional – a palavra significa “quadro” em francês – consistuido de pessoal experiente capaz de formar e treinar rapidamente uma organização ampliada quando as condições tornam isso necessário ou possível. O termo é mais comumente utilizado no meio militar para significar “um grupo chave de oficiais e de pessoal alistado necessário para estabelecer e treinar uma nova unidade militar”. Os paralelos entre guerra e revolução fornecem uma ilustração útil da função dinâmica de uma organização de quadros.

O processo de mobilização em tempo de guerra depende da habilidade de uma classe dominante de erguer um exército com a máxima eficiência, e é o papel do quadro militar absorver a afluência de novos recrutas ou conscritos e organizá-la em destacamentos prontos para a batalha no menor espaço de tempo possível. A dinâmica essencial da organização de quadros é sua capacidade de propagar sistematicamente um método ou um corpo de especialistas a partir de uma estrutura de pessoal inicialmente limitada até uma força numérica exponencialmente maior.

Esta correia de transmissão é a operação essencial e, para que o Estado-Maior fique qualificado para exercer essa tarefa, os próprios oficiais são obrigados a passar por uma extensa preparação em uma academia militar. Além de um treinamento completo da ciência, da estrutura e do protocolo militar, o currículo em West Point é projetado para fornecer aos líderes militares uma educação teórica completa incluindo história, filosofia, economia, relações internacionais, línguas estrangeiras e até mesmo psicologia e literatura.

Para preparar-se para o sucesso de uma futura revolução, precisamos voltar às lições do bolchevismo. Foto: domínio público

A analogia destaca um aspecto central da organização de quadros de Lenin que é muitas vezes negligenciada nos relatos modernos do legado do bolchevismo. A Revolução Russa se tornou possível porque os milhares de quadros das fileiras do partido passaram por duas décadas de treinamento na improvisada academia revolucionária do bolchevismo – centenas de círculos de estudo clandestinos e de grupos de discussão que coletivamente impregnavam esses indivíduos com a dinâmica visão de mundo revolucionária oferecida pela teoria marxista. No início de 1917, os bolcheviques somavam 8.000 membros – uma gota d’água para um país de 185 milhões de habitantes – mas, durante os próximos oito meses esse quadro de revolucionários profissionais cresceu mais de trinta vezes e conquistou virtualmente toda a classe trabalhadora para o seu programa.

Eles conseguiram enraizar-se na classe e isto constituiu uma parte crucial da educação política dos quadros. Nesse ponto, podemos absolutamente concordar com os construtores pela base – se os socialistas não estiverem incorporados na classe trabalhadora, não se pode falar de conquistar a classe para um programa socialista. Onde o bolchevismo diverge dos projetos de construção pela base de hoje é no conteúdo do que está sendo incorporado, e no como isso é feito. O método científico do marxismo e as ideias, perspectivas e programa que dele deriva, são a informação genética que torna possível a revolução – sempre e quando sejam transmitidos em massa à luta de classes. A educação política dos círculos marxistas nunca foi uma cereja no topo do bolo – foi o fator chave que tornou possível Outubro de 1917.

A conquista do poder político e econômico pela classe trabalhadora estadunidense é absolutamente possível em nossa época. O que se necessita é treinar os quadros que possam intervir na intensificação da luta de classes e transmitir um programa que transcenda os limites do capitalismo de uma vez por todas.

Tradução de Fabiano Leite.

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