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O que significa a reorganização monetária em Cuba?

No dia 12 de outubro, o vice-primeiro-ministro cubano e ministro da Economia e do Planejamento, Alejandro Gil Fernández, apareceu no programa de televisão Mesa Redonda para falar sobre a estratégia econômica “visando impulsionar a economia e superar a crise global provocada pela Covid-19”. Uma parte central disso é a “reorganização monetária”, que gerou tantos rumores e incertezas em Cuba nos últimos meses.

Por um acidente da história, o episódio da Mesa Redonda coincidiu, quase exatamente, com o 60º aniversário da Lei 890 de “nacionalização por expropriação compulsória de todas as empresas industriais e comerciais” e da Lei 891 de nacionalização dos bancos, ambas aprovadas em 13 de outubro de 1960, e da lei da reforma urbana, de 14 de outubro de 1960, que expropriou as casas dos grandes proprietários e as entregou como propriedade aos seus inquilinos. Com a aprovação dessas leis, o capitalismo foi praticamente abolido em Cuba. E com base nisso, na propriedade estatal dos meios de produção, se sustentam todas as conquistas da revolução cubana nos campos da saúde, educação, habitação e libertação nacional etc., que sobrevivem até hoje, ainda que de forma enfraquecida.

Quais são as medidas que agora estão sendo propostas, por que estão sendo propostas agora e que impacto elas têm sobre aquela base material em que se baseia a revolução cubana?

As medidas do que se convencionou chamar de “reorganização monetária” em Cuba vão muito além da unificação da moeda. Dado que, em Cuba, não só existem diferentes moedas em circulação (o peso cubano CUP, o peso conversível CUC e as moedas livres conversíveis MLC), como também várias taxas de câmbio, as implicações são mais profundas.

Em primeiro lugar, o que se propõe é a eliminação do CUC e o restabelecimento do peso cubano como moeda central da economia. Se houvesse apenas uma taxa de câmbio, esta seria uma operação relativamente simples de retirar uma moeda de circulação e substituí-la por outra. O problema é a disparidade das taxas de câmbio. No setor estatal, 1 CUC equivale a 1 CUP e, portanto, a 1 dólar. Para o setor privado, a taxa de câmbio é de 24 ou 25 CUP para 1 CUC. Esse câmbio diferenciado provoca, entre outras coisas, uma sobrevalorização da moeda nacional no setor público, portanto, encarece as exportações e barateia as importações. Unificar a moeda ao mesmo tempo em que se unifica a taxa de câmbio implicará em uma forte desvalorização do peso cubano em relação às moedas estrangeiras. O que se pretende com isso é desestimular as importações e estimular as exportações, para assim tentar atrair divisas para a economia nacional. Inevitavelmente, isso fará com que os preços subam para os consumidores. Para amenizar o golpe desse aumento de preços, espera-se que seja implementado um aumento geral de salários que, segundo fontes oficiais, será de 4,9 vezes em relação ao nível atual.

No âmbito das medidas de incentivo às exportações, já foram assinados mais de 100 contratos de exportação e importação por empresas privadas cubanas. Embora esses contratos sejam canalizados por meio de empresas estatais, a verdade é que essas medidas enfraquecem o monopólio estatal do comércio exterior, que é uma das linhas de defesa do planejamento estatal da economia.

Além disso, algo muito perigoso, as medidas propostas incluem a eliminação do que é descrito como “subsídios excessivos e gratificações indevidas”. Na realidade, isso significa caminhar para a abolição do princípio da universalidade dos subsídios sociais e que estes sejam direcionados apenas para aqueles que “realmente precisam deles”. É um reconhecimento implícito do aumento da desigualdade social na ilha nos últimos anos, particularmente desde as medidas tomadas em 2011 no âmbito das Orientações do 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC), de eliminação de postos de trabalho no sector público e promoção de trabalho autônomo.

As medidas de “reorganização” também promovem incentivos salariais, que estarão vinculados à capacidade das diferentes empresas estatais de obterem divisas. Esta estratégia, considerada necessária para encorajar o trabalho com base no aumento dos salários, terá, na verdade, o efeito de intensificar a desigualdade social. Haverá empresas que, devido à sua atividade, estarão mais bem posicionadas para exportar seus produtos, cujos trabalhadores serão beneficiados, enquanto haverá outras que não poderão exportar, cujos trabalhadores receberão o salário-base, mas não os incentivos. Além disso, as empresas que não apresentarem lucro, após um período de adaptação, serão fechadas.

Isso vai na mesma direção geral da tentativa de aumentar a produtividade por meio do chicote do mercado capitalista: se uma empresa não é lucrativa, ela é fechada; se uma empresa for lucrativa, os bônus serão pagos aos trabalhadores. A autonomia das empresas é aumentada, o trabalho autônomo é mais liberalizado, a criação de pequenas e médias empresas é incentivada, tanto no setor público quanto no setor privado etc. Outro aspecto é a resolução 115 do Ministério do Planejamento (aplicável a partir de 2021), que afirma que os atores econômicos terão maior autonomia em termos de gestão da moeda estrangeira gerada pelas exportações, pelas vendas em moeda estrangeira, pelas vendas de mercadorias a empresas da Zona Especial de Mariel etc. Embora o governo retenha um percentual das divisas geradas, a maior parte (entre 80% e 100%, conforme o caso) ficarão com a empresa, seja ela estatal ou do setor “não estatal” (privado). O Estado abandona seu papel central na alocação de moeda estrangeira. Isto é grave porque significa uma dolarização parcial da economia, aumenta a desigualdade interna entre as diferentes empresas de acordo com o seu setor de atividade e, sobretudo, porque diminui a percentagem de divisas à disposição do Estado para exercer o planejamento central com base nos interesses da maioria.

Em geral, todas essas medidas econômicas apontam em uma direção nítida: menos planejamento, mais mercado livre. A linguagem utilizada oficialmente às vezes tenta encobrir esse fato. Por exemplo, em julho deste ano, quando o ministro do Planejamento apresentou a Estratégia Econômico-Social de Cuba, disse que uma de suas linhas gerais era “manter o planejamento”, que “é um ponto forte do nosso sistema”, mas depois acrescentou: “O que não significa alocação centralizada de recursos. Estamos dando passos no sentido de descentralizar a alocação administrativa de recursos” (ver: “Estrategia Económico-Social de Cuba en la etapa de recuperación”). Isso significa uma coisa e seu contrário. Na verdade, para ver com mais nitidez, deve-se ler também outra frase, um pouco mais adiante quando o documento fala em “regulação do mercado, principalmente por métodos indiretos”. Ou seja, o que se está considerando, evidentemente, é o retrocesso do planejamento e o avanço do mercado em diferentes aspectos da economia, entre eles a alocação de recursos, a circulação de moedas etc. Portanto, essas medidas são um retrocesso e solapam a base material em que se baseiam as conquistas da revolução cubana.

Não é apenas um retrocesso na base material da revolução, mas também de mais avanços em um processo de declínio da consciência que já vem se desenvolvendo há anos, no qual as soluções individuais são promovidas, a “eficiência” por meio da concorrência é priorizada acima das soluções coletivas, da cooperação, do controle social e da participação ativa e consciente da classe trabalhadora de forma organizada na resolução dos problemas.

É óbvio, e todos podem compreender, que a economia cubana (e a revolução) enfrenta uma série de obstáculos muito importantes que limitam as respostas que podem ser dadas. Esses obstáculos são parcialmente estruturais e foram agravados por razões circunstanciais recentes.

Elementos circunstanciais da crise econômica em Cuba

Vamos começar com os problemas mais imediatos. A economia cubana já havia entrado em uma situação muito complicada antes do início da pandemia da Covid-19 por três motivos. Por um lado, a chegada de Trump ao poder nos Estados Unidos em 2016 significou reverter uma série de medidas tomadas pelo governo Obama que, embora não suspendessem o embargo, eram favoráveis à economia cubana (tornando a política das remessas e do turismo mais flexível etc.). Não só isso, Trump também, na tentativa de reter o voto latino da Flórida, endureceu a agressão contra Cuba ativando o Capítulo III da Lei Helms-Burton, que permite ações contra empresas que lidam com empresas cubanas que usam bens nacionalizados pela revolução.

Como assinala um camarada cubano que revisou a primeira versão deste artigo, “os ataques do governo Trump não se limitaram a reverter as medidas de Obama e à ativação do Capítulo III. Talvez tenha sido o governo que mais medidas tomou para apertar o bloqueio e que tentou com mais ferocidade estrangular as fontes de renda da economia cubana. A perseguição a todas as transações e operações financeiras internacionais em Cuba foi brutal. Quase todos os meses — e nos últimos tempos, quase todas as semanas — surgem novas sanções e medidas que reforçam o bloqueio a Cuba”. De acordo com relatório apresentado por Cuba à ONU em julho de 2020, “de abril de 2019 a março de 2020, o bloqueio causou prejuízos a Cuba da ordem de 5,57 bilhões de dólares, o que representa um aumento de cerca de 1,2 bilhões de dólares em relação ao período anterior. Pela primeira vez, o montante total dos danos causados ​​por esta política em um ano supera a marca dos cinco bilhões de dólares, o que ilustra até que ponto o bloqueio se intensificou nesta fase”.

O segundo golpe na economia cubana nos últimos anos foi o fim dos contratos de envio de médicos cubanos ao Brasil, com a chegada de Bolsonaro ao poder no final de 2018. A isso se soma a mesma medida tomada na Bolívia após o golpe de um ano atrás. Além disso, os Estados Unidos realizaram uma campanha sustentada e sistemática contra a colaboração médica cubana, que é uma das principais fontes de receita do país, multiplicando a pressão contra os governos de todo o mundo para que não contratem médicos cubanos.

O terceiro é resultado da brutal recessão econômica na Venezuela, que começou em 2014 e parece não ter fim. Isso tem limitado gravemente as relações econômicas favoráveis ​​para Cuba que haviam se estabelecido, em termos de exportação de serviços e importação de petróleo a preços preferenciais.

A chegada da Covid-19 e a crise mundial do capitalismo que ela desencadeou agravaram ainda mais a situação da economia cubana. Em primeiro lugar, o impacto da própria pandemia em Cuba, com a paralisação da atividade produtiva de centenas de milhares de trabalhadores do setor estatal que, ainda assim, continuam recebendo seus salários. A isso deve ser adicionado o custo das medidas sanitárias, dos testes de PCR etc. Em segundo lugar, a Covid-19 paralisou completamente a importante indústria do turismo por mais de seis meses, com a consequente queda nas receitas. A tudo isso se soma a redução das remessas enviadas por cubanos do exterior, que também são afetados pela crise econômica nos Estados Unidos e na Europa. Além disso, as remessas também são afetadas pelas medidas punitivas aplicadas pelos Estados Unidos que, por exemplo, levaram à suspensão das operações de envio de dinheiro para a ilha pela Western Union a partir de 23 de novembro.

O colapso da atividade econômica mundial devido à crise capitalista, por sua vez, causou uma queda no preço do níquel exportado por Cuba, de 17 mil dólares a tonelada, há um ano, para 15 mil dólares atualmente. Não vamos esquecer que o preço do níquel foi de 28 mil dólares, em 2011, e atingiu o pico de 50 mil dólares em 2007 antes da grande recessão.

Nem todos os impactos internacionais em Cuba são negativos. O preço do petróleo que Cuba importa caiu significativamente dos 100 dólares o barril, entre 2010 e 2014, e dos 60 dólares o barril há um ano, para 37 dólares agora. Por outro lado, a pandemia permitiu a Cuba, temporariamente, encontrar outras saídas para sua exportação de serviços médicos. Mas esses dois fatores positivos estão longe de conseguirem equilibrar o impacto negativo dos outros golpes recebidos. Além disso, a queda do preço do petróleo é contrabalançada pela crescente pressão dos Estados Unidos sobre governos e empresas de outros países para que não vendam petróleo a Cuba sob ameaça de sanções e represálias.

É praticamente uma tempestade perfeita para a economia cubana que, apesar de muitas dificuldades, sobreviveu. De fato, é necessário destacar que a revolução cubana não só sobreviveu, mas que nos últimos meses enfrentou a pandemia de forma exemplar, apesar da difícil situação econômica. Isso só foi possível devido à existência de um regime socioeconômico que não é ditado pelo interesse do lucro privado capitalista.

Elementos estruturais da economia cubana

Mas é preciso dizer que, mesmo que fosse encontrada uma solução para todas essas dificuldades mais conjunturais, ainda subsistem elementos de fragilidade na economia cubana. Em primeiro lugar, a dependência do mercado mundial, dentro do qual Cuba é uma economia débil e subordinada, e, em segundo lugar, o peso morto da burocracia no funcionamento da economia planificada.

A primeira questão tem a ver com o fato de que a revolução cubana ocorreu em um país capitalista atrasado dominado pelo imperialismo. A construção do socialismo começa com base nas forças produtivas mais avançadas do capitalismo. Cuba em 1959 era um país cuja economia se baseava na exportação de matérias-primas (principalmente açúcar) e, portanto, estava totalmente à mercê do mercado mundial, no qual entrava em condições de dominação totalmente desiguais. As principais empresas e setores econômicos do país estavam nas mãos dos interesses estadunidenses com uma débil burguesia nacional de pés e mãos atados e subserviente ao vizinho do norte.

A revolução cubana, que começou com um programa nacional-democrático avançado que a princípio não questionava explicitamente o capitalismo, culminou na expropriação das propriedades da burguesia imperialista e “nacional”. Este é o sentido das leis de julho-agosto e outubro de 1960, há 60 anos, às quais nos referimos no início deste artigo.

Pode-se dizer que menos de dois anos após chegar ao poder, a revolução cubana havia cumprido o programa Moncada (um programa nacional, democrático e anti-imperialista), e no processo aboliu a propriedade privada dos meios de produção, expropriando a burguesia cubana e imperialista. A revolução cubana não poderia ter cumprido seu programa de outra forma.

Deste modo, um dos princípios da estratégia da revolução permanente ficou demonstrado na prática: na época do imperialismo, nos países capitalistas atrasados, a burguesia é incapaz de cumprir qualquer uma das tarefas pendentes da revolução democrática nacional. Elas só podem ser alcançadas superando-se os limites estreitos do capitalismo.

A teoria da revolução permanente, entretanto, tem outra parte. As tarefas da revolução socialista não podem ser concluídas em um único país, muito menos em um país atrasado dominado pelo imperialismo. A expropriação do capital em um país deve ser o prelúdio para a expansão da revolução para outros países e, em última instância, para a revolução mundial.

De certa forma, a própria história econômica da revolução cubana confirma esta segunda parte da tese. Os dois períodos em que a economia cubana teve o desenvolvimento mais importante foram durante sua conexão com a URSS (em particular de 1971 a 1986) e no auge da revolução bolivariana (de 2002 a 2013). A conexão da revolução cubana com a URSS teve um impacto negativo do ponto de vista de encerrar o período heroico (década de 1960) em que Cuba lutou contra a reacionária “coexistência pacífica” e, para estender a revolução, desafiou a visão mecânica e burocrática do “marxismo” vinda da Rússia stalinista, e assim por diante. Para a burocracia soviética, isso era uma ameaça, e o fortalecimento das relações econômicas foi acompanhado pela rígida imposição do modelo burocrático-stalinista em todos os aspectos da educação, ideologia, cultura, arte, vida política e política externa.

Também do ponto de vista econômico houve consequências negativas. As ideias de Che Guevara sobre a necessidade de industrializar Cuba e desenvolver sua classe trabalhadora foram abandonadas, e a ilha continuou a depender da exportação de açúcar. No entanto, em termos puramente monetários, a relação era favorável a Cuba, que vendia sua safra à URSS e aos países do Leste Europeu a preços superiores aos do mercado mundial e deles comprava manufaturados a preços inferiores aos do mercado mundial.

A relação de Cuba com a revolução bolivariana (apesar de a Venezuela nunca ter chegado a romper com o capitalismo) também foi muito favorável para a ilha. Certamente o foi do ponto de vista econômico, mas também o foi do ponto de vista político, com a chegada do novo ar fresco de entusiasmo revolucionário que soprava da Venezuela.

O outro aspecto estrutural que limita e restringe o desenvolvimento econômico de Cuba é a própria existência da burocracia. Nos últimos meses, muito se falou em Cuba sobre a necessidade de “liberar as forças produtivas” para que desenvolvam plenamente todo o seu potencial. Mas, em geral, isso significa acabar com o planejamento estatal da economia e soltar as rédeas do mercado como mecanismo dominante.

Na realidade, não é o planejamento estatal que restringe por si só o desenvolvimento das forças produtivas, mas o planejamento burocrático da economia. Teoricamente, em Cuba os trabalhadores são os donos dos meios de produção. Mas, na prática, eles não se sentem donos. Na medida em que não possuem mecanismos reais de controle e gestão para dirigir a economia, os trabalhadores se sentem alienados a ela. Além disso, em uma economia capitalista (“mercado”), existem, até certo ponto, mecanismos de controle automático. Se uma empresa não é eficiente (ou seja, se não adota os mecanismos mais avançados para desenvolver a produtividade do trabalho), ela é eliminada por seus concorrentes. Numa economia planificada, o único mecanismo possível que exerce esse papel de controle de qualidade, de eficiência econômica, é a gestão da economia pelos próprios trabalhadores. Se isso não existir, então o desperdício, a indolência e o embrutecimento burocráticos são galopantes. Na verdade, as medidas propostas agora e que se discutem há anos em Cuba, de certa forma, admitem essa premissa, ao se concentrarem no problema dos incentivos aos trabalhadores.

Em suma, os dois fatores inter-relacionados que afetam negativamente a economia cubana são o isolamento e a burocracia. Na verdade, a burocracia é justamente o reflexo do isolamento da revolução em um país atrasado.

Como enfrentar a crise da economia cubana?

Se partirmos dessas premissas, a conclusão é clara. Os problemas estruturais da economia cubana podem ser superados por meio da revolução mundial e da democracia operária. A primeira questão fala por si mesma. Se a revolução socialista triunfasse em um ou vários países do continente americano (Equador, Bolívia, Venezuela, Chile etc.), isso colocaria imediatamente a revolução cubana em melhor posição, tanto do ponto de vista puramente de intercâmbio econômico quanto do ponto de vista político da moral revolucionária. Uma revolução nos Estados Unidos seria ainda mais decisiva para mudar a situação da revolução cubana.

Com certeza, a revolução em outros países não depende da revolução cubana, ou pelo menos não depende exclusivamente dela. No entanto, a revolução cubana tem um enorme prestígio político e atua como um farol poderoso em todo o continente e além. Pode desempenhar um papel importante. Para isso, seria necessário, em primeiro lugar, que a política internacional fosse amplamente discutida em Cuba desde um ponto de vista revolucionário e socialista, não desde o ponto de vista limitado e reacionário da geopolítica. Embora existam espaços em Cuba onde se discute a situação mundial desde um ponto de vista autenticamente comunista, este não é o tom dominante do discurso oficial ou da mídia. Em geral, o discurso público tem o mesmo nível dos políticos reformistas de outros países; os excessos do capitalismo são criticados (em muitos casos se usa o eufemismo “neoliberalismo”), mas a partir de uma perspectiva que assume que as soluções são possíveis no âmbito do capitalismo. Mesmo no auge da revolução bolivariana na Venezuela, questões candentes levantadas por ela, como o movimento de controle dos trabalhadores, nunca foram discutidas com profundidade em Cuba.

Por outro lado, a democracia dos trabalhadores é o incentivo mais eficaz para aumentar a produtividade do trabalho. Se os trabalhadores sentem de maneira tangível que os meios de produção lhes pertencem, que a direção do país está em suas mãos, então terão interesse que funcione de maneira eficaz. Essa é a lição das experiências de controle operário na Venezuela e em qualquer parte do mundo. O que vale para uma fábrica vale para o funcionamento da economia como um todo.

Com relação aos problemas conjunturais, pode ser necessário fazer concessões parciais ao mercado, tentar atrair investimentos estrangeiros e exportar produtos para obter a moeda estrangeira necessária. Afinal, a NEP de Lenin na década de 1920 era apenas isso: uma série de concessões e recuos. A diferença é que Lenin apresentou essa política honestamente pelo que ela era: como concessões e recuos. As alavancas centrais da economia permaneceram nas mãos do Estado, e o monopólio do comércio exterior foi visto como um elemento-chave na defesa da propriedade estatal dos meios de produção. E, ao mesmo tempo, os bolcheviques da década de 1920 perseguiam uma determinada política de revolução internacional, construindo a Internacional Comunista, intervindo na política revolucionária da Alemanha, Itália, França etc.

No entanto, em Cuba são feitas concessões crescentes ao mercado e são enfraquecidos o monopólio estatal do comércio exterior e o planejamento. Essas concessões aumentam a desigualdade social e fortalecem os elementos burgueses e pequeno-burgueses que adquirem maior confiança e passam a expressar politicamente seus próprios interesses contra os interesses da propriedade do Estado. Mas essas concessões são apresentadas não como tais, mas como a solução, o caminho a seguir para resolver os problemas. Em vez de alertar para o perigo que representam, são apresentadas como uma panaceia e uma forma de “libertar as forças produtivas” e “construir um socialismo próspero e sustentável”.

Em seu discurso na Mesa Redonda, o Ministro Alejandro Gil destacou que “terapias de choque não serão aplicadas e sempre haverá atendimento e prioridade para as pessoas mais vulneráveis”. Essa preocupação é louvável. No entanto, o problema é que as forças de mercado quando desencadeadas têm uma lógica própria. As conquistas da revolução cubana se baseiam na propriedade nacionalizada dos meios de produção; se esta for enfraquecida e eventualmente extinta, as conquistas não podem mais ser garantidas. E isso independentemente da vontade subjetiva dos que empreendam este caminho.

A economia cubana está em uma situação muito difícil. Ninguém nega isso. O status quo é insustentável. Correto. Mas existem duas maneiras possíveis de sair do atoleiro. Uma leva ao domínio do mercado capitalista (à maneira chinesa ou vietnamita). A outra está no caminho da revolução mundial e da democracia operária.

Evidentemente em Cuba existe a resistência de muitos militantes e quadros comunistas à aplicação de medidas de mercado. Um sinal disso foi o debate sobre a reforma constitucional (ver: “Cuba: las amenazas y agresiones de Trump, la reforma constitucional y la situación económica”). O esboço inicial proposto removeu muitas referências ao socialismo e ao objetivo comunista final da revolução cubana. O texto finalmente posto em votação recuperou muitas das expressões originalmente apagadas. O motivo? A enorme resistência que essas propostas suscitaram na militância do Partido Comunista e nas camadas da população.

Outro indício dessa resistência às medidas de “mercado” é o aparecimento no Granma de um artigo intitulado “A bondade neoliberal dos assessores entusiastas” em maio deste ano. O artigo alertava, acertadamente, contra a promoção de pequenas e médias empresas privadas e da via chinesa ou vietnamita como solução para os problemas econômicos da revolução. No entanto, também não ofereceu nenhuma alternativa nítida. É interessante que, em sua resposta ao citado artigo do Granma, o economista cubano Pedro Monreal, de forma irônica, recomenda àqueles que se opõem às PYMES [Pequenas e médias empresas – NDT] privadas que “seria melhor irem para as ‘grandes ligas’ lendo Trotsky e a ‘Oposição de Esquerda’ de 1926” (Éramos pocos y parió Catana: una oposición de izquierda en Cuba?). Monreal é um economista pró-capitalista que deixou claro em mais de uma ocasião que “a estratégia econômica em Cuba deve se concentrar na substituição do planejamento centralizado”.

Monreal não se engana ao identificar a Oposição de Esquerda com uma política favorável ao fortalecimento do desenvolvimento industrial, planejado e contrário às concessões aos elementos burgueses, do campo e da cidade, que começavam a se desenvolver como uma ameaça à própria existência do poder soviético. O programa da Oposição de Esquerda combinava uma crítica à política econômica com uma defesa do regime democrático dentro do partido e do Estado e um ataque aos métodos burocráticos de censura de opinião. Sabemos como terminou essa história, a burocracia stalinista suprimiu toda oposição, expulsando-os do partido e depois eliminando-os fisicamente. É claro que essa mesma burocracia stalinista, quando o sistema de planejamento burocrático entrou em uma fase de estagnação nos anos 70 e 80 do século passado, entusiasticamente passou a se tornar proprietária privada dos meios de produção, saqueando a propriedade do Estado. A restauração do capitalismo na URSS e nos países do Leste, liderados por essa mesma burocracia stalinista, significou uma queda assustadora nos padrões de vida e o colapso da economia.

A revolução cubana está em uma encruzilhada crucial. Muitas das medidas propostas já foram discutidas há 10 anos (ver: “El congreso del PC Cubano ratifica las directrices económicas – el control obrero y el socialismo internacional ausentes de la discusión”). Algumas já começaram a ser aplicadas, ainda que parcialmente. Os resultados são visíveis. O aumento da desigualdade social, o crescimento de uma camada pequeno-burguesa com interesses próprios. O que agora se propõe é avançar ainda mais decisivamente neste caminho.

É importante abrir um debate sério sobre isso e que os comunistas possam intervir de maneira decisiva. A solução não é recuar para o mercado, enfraquecer e diluir a propriedade estatal dos meios de produção, que já tem 60 anos, mas caminhar para o internacionalismo revolucionário e a democracia operária.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXIST.COM

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