O oportunismo político de nossa época

Editorial da 10ª Edição do jornal Tempo de RevoluçãoFaça sua assinatura e receba no seu e-mail!

A natureza do Bolsonaro é golpista, fascista. Por isso a importância desses nossos atos hoje em todo o Brasil”. O discurso de Gleisi Hoffmann na manifestação de 2 de outubro, na Avenida Paulista, concentra muito da análise petista que fundamenta sua política. Haveria um problema pessoal na figura do presidente da República. Bastaria a Câmara dos Deputados iniciar o processo de impeachment para o Brasil “ser devolvido ao povo e ser feliz de novo”. Uma crítica de conjunto ao sentido do governo consiste num risco para o PT, uma vez que aplicariam eles mesmos várias das políticas do governo e disputam para si o apoio da burguesia para governar. Contra essa figura odiosa, “golpista” e “fascista” e pela solução da crise política da República, promoveu-se dia 2 de outubro a articulação com 21 partidos e uma manifestação Fora Bolsonaro com celebração de missas e canto do hino nacional.

Enquanto direita e esquerda brasileiras se uniam por todo o país, Lula deixou claro a que se propõe o PT e a CUT. Um dia antes, esteve em uma fábrica de Diadema explicando como era necessário investir na indústria brasileira e aumentar a participação do setor no PIB. Investir nas empresas privadas, controladas por grupos imperialistas, com dinheiro público e a custo de engordar a dívida interna e externa. Já no dia dos atos, Lula optou por realizar agenda com caciques de partidos burgueses, uma mensagem clara sobre como compreende as manifestações da dita “Campanha Fora Bolsonaro”. Como justificativa explicou que sua participação estaria condicionada à presença de outros “presidenciáveis”, para evitar uma polarização política. Enquanto à militância as lideranças petistas agitam a consigna de “Impeachment Já”, na prática conduzem toda sua atividade com o sentido de preparar a vitória de Lula nas eleições de 2022.

Já o PSOL, que nasceu de uma cisão dentro do petismo reivindicando o socialismo, reconciliou-se com a direção do PT e sustenta uma política quase idêntica já há vários anos. O presidente do partido, Juliano Medeiros, utilizou o caminhão de som revesado por lideranças como Gleisi e Orlando Silva para explicar como a sigla em nada se distinguia de seu leito político, o PT e o PCdoB. Segundo Juliano, aqueles que estavam na Avenida Paulista dia 2 eram o “povo real”, em contraposição ao “povo de mentira” que havia ocupado o espaço no 7 de setembro. Sua análise mais penetrante foi explicar que a articulação alcançada naquela manifestação representava um novo momento na política nacional, em que se configurava uma luta entre aqueles a favor de Bolsonaro contra todo um outro bloco contra ele, na busca do impeachment.

Desenvolve-se assim a política oportunista liderada pelo PT e PCdoB, seguidos de perto pelo PSOL. O oportunismo foi definido por Lenin como uma agência da ideologia burguesa no seio do movimento operário, que tem como objetivo corromper a luta dos trabalhadores e colocá-los a reboque das forças sociais burguesas. O primeiro expoente dessa corrente política foi Eduard Bernstein, que já no final do século 19 introduzia uma série de revisões no marxismo e de ideias estranhas ao proletariado no seio da socialdemocracia alemã – como eram chamados na época os marxistas. Foi contra essas concepções e seus seguidores que se levantou Rosa Luxemburgo na Alemanha ao lutar contra os revisionistas. Também Lenin se insurgiu contra as variações russas dessa corrente, expressas, entre outros, pelos economicistas. Foi no enfrentamento a esses elementos que Lenin formulou sua ideia célebre: “Sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária”, onde defendia a doutrina do marxismo contra as deturpações daqueles que em nome dos trabalhadores propunham políticas oportunistas.

Não seria possível para Lenin imaginar que em seu nome, mais de 100 anos depois, seriam aplicadas todo tipo de práticas oportunistas, como hoje faz a Resistência do PSOL. Essa corrente tem articulado as reuniões da autodenominada “Campanha Fora Bolsonaro”, que busca desde o começo deste ano agrupar e colocar sob a direção do PT e da CUT todas as organizações e movimentos de esquerda do país. Cada um desses encontros é coordenado por militantes do Resistência e da CUT. Oriunda do sectarismo autoproclamatório do PSTU, essa corrente operou um giro de 180°. Depois de 13 anos denunciando histericamente os governos petistas, passando pela linha do “Fora Todos” durante o impeachment de Dilma, tornaram-se a tropa de choque da frente ampla e do reconhecimento do papel central de Lula na política brasileira. Patrocinam a cobertura de esquerda para a elaboração e a prática desenvolvida pela ala majoritária do PSOL e da política de colaboração de classes de Boulos. Completam sua orientação com uma série de ideias pós-modernas e identitárias da pequena burguesia sobre mulheres, negros, questões de gênero e drogas.

Contra o oportunismo político de nossa época, em primeiro lugar necessitamos defender e afirmar as ideias do marxismo. Isso nada tem a ver com o sectarismo bate-pau do PCO que tenta expulsar elementos de direita aderentes aos atos Fora Bolsonaro, e incentiva e apoia a agressão a Ciro Gomes na Avenida Paulista, no ato de 2 de outubro. Um sectarismo que se combina e encobre o profundo oportunismo dessa seita personalista, que após décadas se locupletando do dinheiro estatal do fundo partidário, adaptou-se completamente à política de Lula e do PT. Uma posição revolucionária na luta de classes parte da afirmação da estratégia da revolução social, da necessidade de destruição violenta do Estado por meio da ação de massas. Diante do terreno concreto, da história da luta de classes no Brasil, do desenvolvimento das forças produtivas e do nível de consciência das massas em cada momento, devem os revolucionários traçarem as táticas adequadas que os façam aproximar-se de seu objetivo mais geral.

Lenin repetia diversas vezes que a verdade é sempre concreta, e que não existem verdades abstratas. Marx e Engels explicavam na “Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas”, em 1850, na esteira da Revolução dos Povos, que em determinadas condições históricas e lugares uma aliança do proletariado com a burguesia poderia ser necessária. Porém, quando fosse realizada, sempre deveria ser feita mantendo a independência de classe, lançando toda desconfiança sobre o aliado de momento, e preparando-se para a ruptura e o abreviamento da derrubada do próprio aliado após a vitória contra o inimigo em comum em questão. Isso era assinalado numa época em que a burguesia ainda podia jogar um papel progressista e era parte do combate ao feudalismo e absolutismo. Hoje não é esse o caso. Nossa época é a da decadência imperialista, da destruição das forças produtivas e da marcha à barbárie conduzida pela burguesia por todos os lados. Toda ação conjunta com essa classe, em nossa época, deve ser feita, portanto, com 10 vezes mais cuidado do que na metade do século 19.

A presença de elementos e partidos de direita nos atos Fora Bolsonaro expressa a contradição e a crise dentro da própria correlação de forças da burguesia, e deve ser, ao contrário do esquerdismo infantil do PCO, explorada e utilizada para enfraquecer a base do governo Bolsonaro e a própria capacidade de ação dos burgueses. Isso de forma alguma se confunde com a política oportunista promovida pelo PT, PCdoB e PSOL de incentivar o protagonismo da direita nos atos e defender esta democracia dos ricos e para os ricos, assim como seu Estado, por meio da linha “Impeachment Já” e “feliz eleições 2022”.

Nas condições atuais do Brasil, a defesa do marxismo passa, em primeiro lugar, por assinalar a capitulação oportunista das grandes organizações que se reivindicam dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, a urgência desses se auto-organizarem e agirem com independência de classe. Em uma carta a Sorge, de 1886, Engels colocava a mesma questão com a qual nos defrontamos: ajudar os trabalhadores a se organizarem em um partido distinto das outras classes, a colocarem-se em movimento próprio, mesmo que com um programa confuso. As massas em ação, impulsionadas pelos seus próprios erros, e contando com a ajuda dos marxistas, estarão infinitamente mais preparadas para enfrentar a situação em que estão inseridas e o governo Bolsonaro. Incentivar essa ação independente, estimular sua auto-organização, agrupar em prol deste objetivo a vanguarda que quer mudar o sistema e combater o oportunismo. Esse é o sentido da atividade da Esquerda Marxista hoje ao agir em defesa do marxismo.

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