100 anos depois da greve geral de 1918 no Rio de Janeiro e da repressão que caiu sobre os operários, uma greve de professores em Belo Horizonte é duramente reprimida pela Polícia Militar que é dirigida pelo governador do Estado de Minas Gerais, Fernando Pimentel do PT. Nós nos somamos a todos que dizem: abaixo a repressão, atendam as reivindicações dos professores de BH

O instrumento que faltou à greve geral de 1918 no Rio de Janeiro

Em 2018 completam 100 anos da insurreição liderada pelos anarquistas em novembro de 1918 no Rio de Janeiro durante uma greve geral. Naquele momento o mundo estava balançado pela Primeira Grande Guerra Imperialista, pela Revolução Russa de Fevereiro de 1917 derrubou a monarquia russa e pela Revolução Bolchevique de Outubro. No Brasil, podemos citar alguns antecedentes importantes: a greve geral de 1917 em junho e julho, a repressão violenta de manifestações de operários têxteis em maio no Rio de Janeiro que despertou mais mobilizações, a impressionante demonstração de força de após a morte do sapateiro José Iñeguez Martinez pela polícia em São Paulo. O enterro do sapateiro, com mais de 50 mil participantes, se transformou em uma mobilização que se espalhou pela cidade criando assembleias locais e ligas operárias. A cidade de São Paulo então foi tomada pelos operários em julho e o governo burguês foi expulso. Estas foram algumas dentre muitas outras demonstrações da capacidade de auto-organização da classe.

Na crista desses eventos, em 1918 estoura uma greve geral no Rio de Janeiro e os grevistas, sob liderança de anarquistas como José Oiticica, Astrojildo Pereira, Manuel Campos e Agripino Nazaré, entre outros, estavam organizados em um conselho que tinha como objetivo a tomada do poder na até então capital federal do Brasil. Desconhecendo o caráter bolchevique da Revolução Soviética de Outubro de 1917 na Rússia, ou seja, a existência de um partido centralizado, forte, coeso e preparado para agir em tempos de legalidade ou ilegalidade, os anarquistas decidem ganhar a capital federal aproveitando a conjuntura favorável, que consideravam ser internacional, sem o instrumento adequado; olhavam para a Revolução Russa como a primeira de uma série de revoluções libertárias subsequentes. O anarcosindicalismo era o principal instrumento de luta dessa direção.

No início de 1918, os anarquistas criaram a Aliança Anarquista do Rio de Janeiro para reunir todos os grupos anarquistas em um só organismo. Em primeiro de março fundaram a central sindical UGT (União Geral dos Trabalhadores). Ambas durante perseguidas pelo aparato repressivo. Organizaram também um ato do dia primeiro de maio massivo. Em agosto, parte dos soldados do exército, depois da ordem para reprimirem uma greve, passaram para o lado dos grevistas da Companhia Cantareira e da Viação Fluminense. Visto o clima de convulsão social e de rebelião contra o Estado e o aparato repressor, os anarquistas planejaram derrubar o governo no dia de início de uma próxima greve geral que deveria ser organizada. O plano envolvia a tomada de prédios públicos, a prisão de autoridades, a destruição de infraestrutura de transporte, prisão de deputados, etc.

Em novembro de 1918 começa uma greve geral de grandes proporções, onde participam trabalhadores das fábricas de tecido, pedreiras, da construção civil e dos metalúrgicos. 400 trabalhadores reunidos no Campo de São Cristóvão, muitos deles armados, decidem colocar o plano da tomada do poder em prática e enfrentam a polícia, fazendo-a fugir. Em seguida ocupam a delegacia local. Entretanto, o sucesso foi momentâneo e curto.

Logo após o episódio no Campo de São Cristóvão foram realizadas prisões das lideranças anarquistas ao mesmo tempo, e uma repressão muito bem orientada rasgou os planos da tomada da capital. A maioria dos planos foi neutralizada antes de serem postos em prática. Jorge Elias Ajuz, tenente do exército, quem participava de todas as reuniões com as lideranças anarquistas, atuava como espião infiltrado das forças armadas e preparou a contenção das ações.

Concluímos a partir dessa experiência que a direção anarquista da insurreição de 1918 era baseada em uma organização frágil politicamente, pronta para agir apenas para aplicar poucos planos táticos específicos, sem capacidade de atuar e se manter sob repressão, sem quadros eleitos pela base do movimento. O erro dos anarquistas não foi apenas um tropeço tático, mas a demonstração de que não será possível transformar a greve geral em uma insurreição social e política bem-sucedida contra o sistema capitalista enquanto não houver uma instituição capaz de liderar o proletariado para a vitória.

Essa instituição precisa saber se adaptar aos ataques sem perder seu objetivo, ter em sua base quadros formados no dia-a-dia da luta de classes e no debate interno, ter uma linha política unificada. Lenin, que liderou a insurreição vitoriosa de Outubro, sintetizou muito bem teoricamente esse instrumento, o partido comunista. Infelizmente, os anarquistas só se deram conta do potencial e da necessidade do marxismo e do leninismo para a vitória após os anos 20, quando fundaram no Brasil um partido do tipo bolchevique. Ainda é hoje tarefa dos marxistas construir esse instrumento. É por isso nos organizamos na Esquerda Marxista, corrente do PSOL, seção brasileira da Corrente Marxista Internacional.

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