Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

O governo Bolsonaro e o impasse sobre o novo ministro da Educação

A incapacidade de Bolsonaro para indicar o novo ministro da educação é fruto da instabilidade do governo, das disputas internas sobre quem deve ocupar este cargo e que interesses necessita privilegiar. Este problema se manifesta de forma mais destacada neste momento, porém não é uma novidade. O primeiro ministro da Educação indicado por Bolsonaro, o “olavista” Ricardo Vélez, durou menos de 100 dias no cargo. A sua breve gestão foi marcada por uma enxurrada de declarações estupidas e decisões desastrosas. Em uma entrevista concedida para Revista Veja, no início de 2019, Vélez afirmou que “o brasileiro, viajando, é um canibal (…) rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”. Logo em seguida, enviou uma carta para as escolas em que recomendava aos diretores a filmagem dos alunos cantando o hino nacional e/ou lendo o documento que utilizava o slogan de campanha de Bolsonaro. Estes episódios, entre outros, provocaram uma reação de setores da burguesia que operam dentro do ministério da educação de forma permanente e exigem que seus negócios fluam perfeitamente. No início de abril, antecedido por outros “olavetes” que ocupavam cargos no ministério da Educação, Ricardo Vélez foi demitido. 

Para substituir Ricardo Vélez, Bolsonaro nomeou Abraham Weintraub que durou um pouco mais de um ano no cargo. Weintraub foi mais resiliente que seu antecessor apesar de possuir um comportamento semelhante e também ser filhote do astrólogo desbocado, Olavo de Carvalho.  Assim que assumiu o cargo, Weintraub determinou cortes no orçamento das Universidades e Institutos Federais e anunciou o programa “Future-se” que previa a gestão do ensino superior por meio de organizações sociais (OSs) e a captação de recursos na iniciativa privada. Como resposta, foi obrigado a enfrentar manifestações de estudantes e trabalhadores em educação em todo o país e que só não foram mais radicalizadas e massivas pelo bloqueio das direções do movimento estudantil e sindical. 

Abraham Weintraub Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Durante o período que permaneceu no ministério, além de medidas concretas de ataque a educação, Weintraub protagonizou uma série de episódios que combinavam ignorância, trapalhadas e preconceito. Em uma participação na Comissão de Educação do Senado, um mês após sua nomeação, Weintraub chamou Franz Kafka de Kafta, confundindo o nome do famoso autor checo com o de uma comida de origem árabe. No final de 2019, conduziu o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de forma desastrosa, permitindo vazamento do tema da redação e problemas na divulgação das notas, o que prejudicou ainda mais os milhares de estudantes que almejavam acessar as parcas vagas disponíveis no ensino superior. Sem falar nas inúmeras tuitadas com erros de português grosseiros e xenofobia contra os chineses.

Os episódios citados anteriormente não foram suficientes para derrubar Weintraub que possuía (e ainda possui) uma grande afinidade política com Bolsonaro e ao mesmo tempo acenava com medidas que agradavam o mercado. Somente após a reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, em que declarou que colocaria os “(…) vagabundos todos na cadeia, começando no STF”, a situação começou a ficar insustentável, o que o obrigou a sair do cargo e do Brasil como se estivesse fugindo, já que sua demissão foi assinada por Bolsonaro apenas após o momento que pisou em solo norte-americano. 

Logo após a saída de Weintraub, abriu-se a discussão sobre quem iria substituí-lo. Alguns setores da burguesia ligados aos partidos do centrão pretendiam emplacar Renato Feder, atual secretário de educação do estado do Paraná, que possuí um perfil menos polêmico, é intimamente ligado ao setor empresarial e defende um programa privatizante para educação. Renato Feder não emplacou e Bolsonaro resolveu nomear Carlos Alberto Decotelli da Silva, oficial da reserva da Marinha que havia trabalhado com Sergio Moro e Paulo Guedes. Não durou mais de cinco dias. Uma combinação de informações mentirosas sobre sua formação e desculpas estapafúrdias fez com que Decotelli deixasse o cargo logo após assumir. Em seu currículo constava que havia concluído o doutorado na Universidade de Rosário, Argentina, informação desmentida pelo reitor na universidade. Decotelli ao tentar explicar a situação afirmou que sua tese “estava com um ponto de corte muito longo, estava muito profunda” e, por isso, seria necessário “submetê-la novamente”. Uma situação sui generis, afinal não existe relatos, na história da pós-graduação, de estudantes que tenham sido impedidos de concluir o doutorado em virtude da extrema profundidade da tese. Além de acusações de plágio em sua dissertação de mestrado defendida na Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

Após o fracasso da indicação de Decotelli, voltou-se a cogitar o nome de Renato Feder para o ministério da educação. Porém tal intento fracassou novamente. Segundo a CNN-Brasil, a empresa Multilaser industrial S.A, que Renato Feder é sócio, possui dois contratos com o governo federal. O primeiro é de dezembro de 2019 no valor de R$ 14,2 milhões para fornecer tablets ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o segundo de 15 de maio deste ano, no valor de R$ 313 mil, para fornecer 100 mil máscaras ao próprio ministério da educação. Este fato, escondido até então pelo candidato a ministro, juntamente com a hostilidade de setores “olavistas” fez com que o próprio Feder declinasse da indicação. 

Renato Feder (E) e Carlos Alberto Decotelli da Silva

Bolsonaro, depois de seguidos fracassos, pretende anunciar hoje (07/07) o novo ministro da educação. Certamente será alguém comprometido com a destruição da educação pública e com a retirada dos direitos dos trabalhadores em educação. Não é possível esperar nada diferente do atual governo. Alguns setores da esquerda reformista clamam para que Bolsonaro se “comporte de acordo com a liturgia do cargo”, que indique alguém comprometido com a educação, entre outras asneiras. Este governo não pode ser reformado. Não existe possibilida de domesticar o atual governo. Bolsonaro precisa ser derrotado e derrubado pela ação independente da classe trabalhadora e da juventude. Único caminho para abrir uma perspectiva de futuro para os trabalhadores e jovens.

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