O governo Bolsonaro e o bebê de Rosemary

O filme “O bebê de Rosemary” (1968) é um clássico do gênero terror. Na trama, o casal Woodhouse se muda para um novo apartamento e tem contato com um casal de idosos ligados a rituais satânicos. O marido de Rosemary, Guy Woodhouse, é um ator de segundo escalão e faz um pacto com seus vizinhos trocando o sucesso pela inseminação de um filho do demônio em sua esposa. Isto acontece em uma noite em que o casal bebe além da conta e Guy se aproveita da situação para abusar de sua esposa inconsciente.

A campanha política de 2018, que findou com a eleição do atual presidente, foi gestada durante os anos dos governos petistas, de conciliação entre as classes, e pelo rompimento dessa conciliação, no processo de impeachment de Dilma. Com este fato consumado, a burguesia através do parlamento e do governo federal acelerou e aprofundou um conjunto de reformas que tiveram como objetivo a retirada de direitos trabalhistas e previdenciários, o que produziu uma redução generalizada do preço da força de trabalho brasileira e, deste modo, preservou e aumentou a taxa de lucro do grande capital em terras brasileiras. Um ritual no qual houve um pacto, assim como no filme, entre os diferentes setores da burguesia para impor a qualquer custo estas reformas que contou com a conivência dos dirigentes das grandes centrais sindicais e partidos de esquerda. 

Entretanto, com o aprofundamento da crise econômica e a piora da condição de vida dos trabalhadores a popularidade de Bolsonaro derrete e isso produz divisões e incertezas em setores da burguesia que se distanciam do governo, apesar de manterem unidade nos ataques aos trabalhadores. Isto ficou mais evidente com a erupção do coronavírus e a linha adota pelo governo federal e as declarações e decisões de alguns governadores. 

Governadores e parlamentares do DEM e PSDB começam a aparecer na grande imprensa com discurso contrário ao de Bolsonaro, sobre o combate ao coronavírus, e se apresentam como supostamente coerentes e equilibrados perante a opinião pública, angariando capital político.

Diante desta situação, o canal CNN Brasil, no dia 25 de março, utilizou explicitamente seu editorial do meio-dia pra ensaiar uma polarização Bolsonaro x Doria. Isso é conveniente para os dois setores da burguesia. De um lado Bolsonaro cria um novo inimigo e mantém seu público cativo. De outro, Doria inicia uma nova etapa de sua escalada política que começou com a eleição à prefeitura da cidade de São Paulo. 

Onde se encontra o filme utilizado como analogia nesta situação? Os gestores que iniciaram aquele ritual que colocou Bolsonaro no poder agora se recusam a assumir o seu bebê de Rosemary. Doria, quando lhe foi conveniente, abraçou a campanha Bolso-Doria e agora que o tiro saiu pela culatra, rejeita a sua criação grotesca. E, pior, quer se apresentar como alternativa política.

É preciso que os trabalhadores rejeitem as polarizações entre setores da burguesia, propagada pela grande imprensa. Doria e nenhum outro representante da burguesia é uma alternativa a Bolsonaro. Os trabalhadores precisam encontrar uma saída independente, colocando Bolsonaro, Doria e qualquer representante da burguesia para fora, evitando, assim, a gestação de um novo bebê de Rosemary na política brasileira.

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