Foto: John MacDougall/AFP

O capitalismo, os trabalhadores e a saúde mental

O adoecimento mental tem sido um dos fenômenos mais marcantes da sociedade capitalismo, produto das suas contradições e da exploração de classe, que se materializa em ansiedade, estresse, depressão, fobia social, desordens alimentares, automutilação, insônia, entre outras coisas. O massivo adoecimento se dá em meio a um cenário no qual se fala muito na necessidade do “sentir-se bem”, mas o fetiche de uma vida feliz, vendido pela classe dominante e baseado num certo entendimento de sucesso profissional e de família estável, além de pressionar as pessoas para que almejem alcançar conquistas muitas vezes irreais, esconde as contradições que levam os trabalhadores a situações de desgaste físico e mental, de sofrimento e adoecimento.

Na sociedade capitalista, os trabalhadores se veem pressionados pela manutenção ou ampliação da produtividade, ao mesmo tempo exigindo-se que sejam o que se convencionou chamar de profissionais “bem-sucedidos” e, ao mesmo tempo, devendo ter uma vida íntima feliz. Contudo, nesse sistema até mesmo essa vida pessoal está nas mãos do capital, de tal forma a não atrapalhar a produtividade. Portanto, exige-se que o trabalhador alcance a “felicidade”, desde que se mantenha o funcionamento e a manutenção da exploração sobre a força de trabalho.

Saúde mental e capitalismo

O tema da saúde mental deve ser entendido como parte da realidade concreta da exploração capitalista. Nesse sentido, associar a saúde mental, por exemplo, apenas a fatores biológicos de indivíduos isolados implica em excluir o seu caráter histórico e social. Os fatores biológicos não se explicam sozinhos, devendo estar articulados à dinâmica histórica e às contradições da sociedade. O ciclo vital do ser humano não pode ser determinado apenas biologicamente, na medida em que varia em diferentes épocas, a partir das condições materiais em que produz sua existência. Pode inclusive ter particularidades no interior das diferentes classes sociais em uma mesma época e sociedade, ou seja, em última instância, a forma de produção e reprodução da vida em sociedade determina a existência de diferentes transtornos físicos e mentais.

Nesse sentido, para pensar a saúde e a doença, é fundamental compreender as formas como se organiza o processo de trabalho e de produção de mercadorias e como isso impacta na vida das pessoas; essa compreensão permite entender como se adoece e se morre nas diferentes classes em determinada sociedade. No capitalismo, a burguesia precisa de trabalhadores aptos a produzirem em suas fábricas, ou seja, na lógica capitalista, o que determina ser saudável ou não é a capacidade do sujeito de trabalhar e manter-se produtivo. Marx destacava que o capital não tem “a mínima consideração pela saúde e duração da vida do trabalhador, a menos que seja forçado pela sociedade a ter essa consideração”.1

Neste modo de produção, ser ou não saudável está relacionado ao desgaste da força de trabalho. Esse desgaste aponta elementos que extrapolam as análises focadas apenas nas causas imediatas do adoecimento, devendo abarcar também os impactos físicos e psicológicos do processo de trabalho, no médio e no longo prazo, que afetam a vida e até mesmo o cotidiano do trabalhador. Marx comentava que o capital

“usurpa o tempo para o crescimento, o desenvolvimento e a manutenção saudável do corpo. Rouba o tempo requerido para o consumo de ar puro e de luz solar. Avança sobre o horário das refeições e os incorpora, sempre que possível, ao processo de produção, fazendo com que os trabalhadores, como meros meios de produção, sejam abastecidos de alimentos do mesmo modo como a caldeira é abastecida de carvão, e a maquinaria, de graxa ou óleo”.2

Engels, em seu clássico estudo sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra no século XIX, associava o adoecimento às adversidades “a que os operários estão expostos em razão das flutuações do comércio, do desemprego e dos salários miseráveis em tempos de crise”.3 Essa situação tinha graves consequências para os trabalhadores:

“Acontece com frequência que, acabando o salário semanal antes do fim da semana, nos últimos dias a família careça de alimentação ou tenha apenas o estritamente necessário para não morrer de fome. É claro que semelhante modo de vida só pode originar toda sorte de doenças; quando as enfermidades chegam, quando o homem – cujo trabalho sustenta a família e cuja atividade física exige mais alimentação e, por conseguinte, é o primeiro a adoecer –, quando esse homem adoece, é então que começa a grande miséria”.4

Nos últimos séculos o capitalismo passou por mudanças na forma de organização do trabalho, como respostas às suas crises cíclicas, garantindo a extração da mais valia. Essas formas de organização têm impacto também no cotidiano do trabalhador, como a perspectiva de controle inclusive sobre a vida privada, como é o caso do fordismo. Essa forma de organização do trabalho buscava ampliar a produtividade nas fábricas, garantindo uma maior extração de mais valia, afetando até mesmo a subjetividade.

Nas últimas décadas, o que marca mais profundamente o processo de organização do trabalho é o chamado toyotismo. Essa forma de organização da produção tem como uma de suas características o chamado trabalho flexível, exigindo do trabalhador um maior engajamento no processo de produção, também afetando a sua subjetividade.

Diante do desgaste físico e mental, os trabalhadores sofrem com o medo de serem descartados. Marx comentava que, para o capital, “as forças de trabalho retiradas do mercado por estarem gastas ou mortas têm de ser constantemente substituídas, no mínimo, por uma quantidade igual de novas forças de trabalho”.5 Suas condições física e psicológica, como a idade ou o desenvolvimento de doenças crônicas, podem se tornar um problema para a permanência no trabalho ou para encontrar um novo emprego, correndo o risco de ficar sem qualquer ocupação.

Portanto, para o trabalhador, o desgaste pode significar a expulsão do mundo da produção, afinal a exploração capitalista, ao exigir um determinado padrão de produtividade, seleciona os que suportam a sua intensidade, descartando aqueles que não mais possuem forças para se manterem produzindo dentro das necessidades do sistema. Essa é a base na qual se dá o avanço do adoecimento mental dos trabalhadores, afetando sujeitos de todas as idades.

Os trabalhadores e seu adoecimento

O adoecimento mental pode se manifestar por meio de diversos sintomas e transtorno, normalmente associados entre si, tendo relação com as diferentes formas de organização do processo produtivo. Por exemplo, a fadiga sentida pelo trabalhador tem relação com diferentes dimensões de sua vida cotidiana, como o deslocamento para o trabalho, as tarefas domésticas, questão de moradia, o acesso à educação, à alimentação e à saúde, entre outros. Não é possível analisar esses fatores de forma isolada.

Um doença que aparece constantemente entre os trabalhadores é a depressão, associada ao desânimo em relação à realidade e à própria vida, fazendo com que a pessoa perca a vontade não apenas de agir, mas até mesmo de ter qualquer interação com o mundo que a cerca. Não se trata de um mero desânimo diante de uma situação adversa momentânea, mas de um estado que se torna frequente ao longo de dias, semanas ou mesmo meses, que tem implicações físicas e mentais, podendo afetar a pessoas de diversas formas.

Outro transtorno mental é a ansiedade, relacionada ao sentimento de angústia, em que a pessoa se vê impotente diante de uma realidade que o oprime. A ansiedade pode ser caracterizada como uma carga de energia emocionalmente bloqueada, que gera tensões internas e se manifesta por meio de sintomas físicos e emocionais.

Um elementos que se relaciona a todos esses sintomas e transtornos é o estresse. Trata-se de um conjunto de reações do indivíduo diante dos problemas com os quais precisa lidar em seu cotidiano, provocando nervosismo, tristeza, apatia, entre outras coisas. O acúmulo desses sentimentos pode provocar uma diversidade de reações fisiológicas e psíquicas, que levam ao esgotamento. O estresse é uma doença da sociedade marcada pela forma toyotista de organização do trabalho, em que a produção passou por um profundo processo de automatização, em um cenário onde o crescimento das cidades desenvolveu gatilhos que podem estar literalmente em qualquer esquina ou mesmo dentro de casa.

Embora aqui expostas de forma separada, é perceptível que a depressão, a ansiedade e o estresse, entre outras formas de adoecimento, estão relacionados entre si, podendo ser não apenas a causa de uma ou outra, como uma possível manifestação de agravamento. Essas situações afetam física e mentalmente as pessoas, ainda que se busque separar sintomas e doenças de seus contextos, procurando mostrar os transtornos psíquicos como dissociados da realidade concreta e as formas de desgaste físico a eles relacionados como algo desligado da mente.

Uma das respostas mais comuns ao sofrimento e ao adoecimento é o uso de drogas, não apenas como um saída individual, mas também como recomendação de profissionais da área médica. O problema do abuso de drogas não é algo recente. No século XIX, Engels chamava a atenção para a questão do alcoolismo, relacionado isso à situação a que estavam submetidos os trabalhadores:

“Todas as ilusões e tentações se juntam para induzir os trabalhadores ao alcoolismo. A aguardente é para eles a única fonte de prazer e tudo concorre para que a tenham à mão. O trabalhador retorna à casa fatigado e exausto; encontra uma habitação sem nenhuma comodidade, úmida, desagradável e suja; tem a urgente necessidade de distrair-se; precisa de qualquer coisa que faça seu trabalho valer a pena, que torne suportável a perspectiva do amargo dia seguinte. Fica acabrunhado, insatisfeito, sente-se mal, é levado à hipocondria; esse estado de ânimo se deve principalmente às suas más condições de saúde, à sua má alimentação e é exacerbado até o intolerável pela incerteza de sua existência, pela absoluta dependência do acaso e por sua incapacidade de pessoalmente fazer algo para dar alguma segurança à sua vida. Seu corpo enfraquecido pela atmosfera insalubre e pela má alimentação requer imperiosamente um estimulante externo; a necessidade de companhia só pode ser satisfeita numa taberna, porque não há nenhum outro lugar para encontrar os amigos”.6

Esse cenário fica ainda mais complexo na atualidade, diante da massificação e da diversificação dos tipos de drogas. O uso recreativo se consolidou como uma resposta do indivíduo diante dos problemas e dificuldades a que está submetido, fazendo uso dessas substâncias com vistas ao relaxamento ou à distração. Contudo, diante da sua fragilidade psíquica, o consumo de drogas, se mantida sua regularidade, pode levar ao abuso e ao vício. O álcool e outras drogas legalizadas são de fácil acesso, tendo se tornado parte do cotidiano da sociedade. Além disso, há uma grande quantidade de drogas legalizadas, culturalmente encaradas e vendidas como remédios, que mostram um cenário ainda pior, na medida em que se tornaram as principais formas indicadas por médicos no tratamento para os transtornos mentais.

Certamente que, em certas situações, o uso de remédios deve ter seu uso recomendado, como um dos aspectos de um tratamento terapêutico mais amplo. Contudo, o que se vê são médicos recomendando de forma indiscriminada remédios, bem como a ação dos mais variados laboratórios, que fabricam todo o tipo de drogas que afetam a mente das pessoas, seja, por exemplo, para animar aquelas que estão em estado depressivo, seja para entorpecer aqueles que sofrem com transtornos de ansiedade. Assim, são criados de forma intencional dependentes de drogas legalizadas, que aceitam esse tipo de tratamento diante da promessa de resposta rápida aos sentimentos de angústia ou mesmo de desespero a que estão submetidos. Se num primeiro momento há uma sensação de melhoria, no médio e longo prazo fica evidente que seu efeito é efêmero e que somente será possível manter esse estado caso se amplie o consumo desses ou de outros medicamentos, levando ao vício.

Portanto, essas pessoa, que sofrem com ansiedade, depressão ou outros transtornos, na busca por ajuda profissional, são jogadas para outra doença, a da dependência química de substâncias que alteram seu comportamento. Isso tem um dupla causa no capitalismo, que, primeiro, leva as pessoas ao adoecimento e, depois, apresenta as drogas como uma resposta positiva, assim criando a dependência. Esse não é um problema individual, que o trabalhador deve encarar sozinho, mas algo que deve ser enfrentado pela sociedade de conjunto. Engels dizia que,

“nesse caso, o alcoolismo deixa de ser um vício de responsabilidade individual; torna-se um fenômeno, uma consequência necessária e inelutável de determinadas circunstâncias que agem sobre um sujeito que – pelo menos no que diz respeito a elas – não possui vontade própria, que se tornou – diante delas – um objeto; aqui, a responsabilidade cabe aos que fizeram do trabalhador um simples objeto”.7

Muitas pessoas encontram nas drogas, tanto as legais como as ilegais, uma forma de se manter produtivas. Não é incomum que até mesmo combinem dois tipos de remédios para reverter os efeitos um do outro ou que consumam álcool mesmo quando tomam medicação controlada. Diante das pressões da sociedade capitalista, esses trabalhadores são arrastados a alcançar a qualquer custo a produtividade exigida e almejar a felicidade fetichizada, pagando com isso o preço de desenvolver todo o tipo de doenças.

Perspectivas

Para começar a resolver o problema do adoecimento da classe trabalhadora, não resta outra coisa que não seja atacar sua causa, ou seja, é preciso construir uma nova sociedade, governada pelos trabalhadores, na qual a produção não esteja voltada para o enriquecimento privado. Essa nova sociedade somente poderá ser construída a partir de uma profunda transformação que coloque no horizonte o interesse do conjunto dos trabalhadores, fazendo uso do conhecimento científico acumulado pela humanidade e utilizando-o para o fortalecimento do conjunto das pessoas.

Contudo, um primeiro obstáculo para que se possa caminhar no sentido dessa solução passa justamente pelo fato de que uma das consequências do adoecimento físico e mental das pessoas é o abandono de quaisquer perspectivas de futuro, optando não por saídas complexas e de longo prazo, mas por soluções mais imediatas (consumo de drogas, saídas individuais, suicídio, entre outras coisas). Certamente não se trata de um erro procurar amenizar os sofrimentos provocados pela sociedade capitalista e sua fábrica de misérias, se dedicando a formas saudáveis de lazer e distração. Contudo, ao mesmo tempo, é preciso lutar contra uma das mais cruéis consequências do capitalismo, que é a perda do senso de coletividade e a busca de soluções baseadas no individualismo.

Uma nova sociedade, em que o lucro não esteja no centro de tudo e que o trabalho não seja um pesado fardo carregado pelas pessoas, pode ser um primeiro passo para que se possa viver uma vida mais saudável. Trotsky comentava que, “quanto mais o tempo de trabalho seja utilizado com consciência, mais a vida do operário se organizará de forma completa e inteligente”.8 Um novo mundo precisa ser construído, em que seja possível superar a miséria e o adoecimento, mas, para tanto, é fundamental que os trabalhadores transformem a realidade e se empenhem na luta pelo socialismo, superando, assim, as sequelas que a miséria capitalista impõe cotidianamente.

Referências:

1 Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, Livro I, p. 342.

2 Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, Livro I, p. 337-8.

3 Friedrich Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 141.

4 Friedrich Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 115.

5 Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, Livro I, p. 246.

6 Friedrich Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 142.

7 Friedrich Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008p. 142-3.

8 Leon Trotsky. Questões do modo de vida. A moral deles e a nossa. São Paulo: Sundermann, 2000, p. 35.

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