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Novembrada: história, comemoração e apagamento

No último sábado (30/11), comemorou-se os quarenta anos da Novembrada. Esse acontecimento se tornou marcante na história de Florianópolis, afinal não é todo dia que um presidente da república é expulso de uma cidade na base de tapas. Colocando em evidência a liderança dos estudantes em movimentos sociais, a Novembrada se constituiu em uma revolta sem uma coordenação ou direção central. Naquele dia, 30 de novembro de 1979, os moradores da cidade desabafaram todos os sofrimentos pelos quais vinham passando ao longo de anos de ditadura iniciada em 1964.

Nos anos anteriores à explosão popular, houve uma piora nas condições de vida da população, em especial o aumento dos preços de produtos básicos. Poucos dias antes da visita presidencial, houve inclusive um aumento no valor dos combustíveis. A ditadura enfrentava uma de suas piores crises, fosse pelo crescimento eleitoral da oposição consentida, materializada no MDB, fosse pelo fim do período de crescimentos sucessivos do PIB, conhecido como “milagre brasileiro”. O que continuava a crescer era o arrocho salarial e a desigualdade provocada pela exploração capitalista. Como resposta a essa situação, em todo o país havia um processo de ebulição, que parece ter encontrado seu marco simbólico em Florianópolis.

Um dos aspectos que chama bastante a atenção passa pela narrativa que se construiu pelos setores stalinistas a partir do acontecimento, mais precisamente, como a história oficial da Novembrada se transformou na ação coordenada de um grupo político específico. Passou-se, assim, para a história a narrativa de que a Novembrada teria sido uma explosão de massas dirigida ou, pelo menos, fortemente influenciada, pela ação do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Essa interpretação é equivocada em, pelo menos, dois fatores.

Primeiro, porque vinham ocorrendo intensas mobilizações nos meses antecedentes, em especial na UFSC, onde algumas lutas chegaram a reunir em alguns momentos milhares de pessoas. Essas mobilizações locais se inseriam nos marcos de mobilizações e greves nacionais, que misturavam reivindicações econômicas com a palavra de ordem de “abaixo a ditadura”. Se naquele 30 de novembro de 1979 os trabalhadores de Florianópolis espontaneamente atenderam à agitação do grupo de estudantes da UFSC, deve-se a um processo de politização e lutas que vinha ocorrendo desde os meses anteriores.

Um segundo fator tem relação com as organizações que participaram da mobilização. Embora a narrativa oficial atribua grande ênfase ao papel pretensamente assumido pelo PCB, o partido era, no melhor dos casos, mais uma entre outras organizações presentes. Essa narrativa oficial é bastante desonesta principalmente por procurar apagar o papel que tiveram os diversos setores que compunham o movimento pró-Partido dos Trabalhadores (PT). Uma das jovens presas era vinculada a esse movimento e o coordenador do comitê pela libertação dos presos também o era, ambos vindo posteriormente a se incorporar a Organização Socialista Internacionalista (OSI).

Passados quarenta anos desse processo, é fundamental fazer um balanço, no sentido de orientar as ações do presente. Por um lado, seria fundamental desmistificar a história que o stalinismo criou, atribuindo ao PCB ou suas dissidências o protagonismo sobre uma ação promovida por diferentes setores da sociedade. É preciso localizar o acontecimento dentro do processo político maior e mostrar a variedade de sujeitos da esquerda que fizeram a Novembrada.

Por outro lado, é fundamental partir dessa experiência como forma de pensar a esquerda, mais precisamente, a necessidade de construir uma forte organização revolucionária. Uma direção revolucionária enraizada nos estudantes e trabalhadores poderia, além de dirigir o processo, transformar a revolta de Florianópolis em uma revolução, colocando em dificuldades não apenas a ditadura, mas o próprio capitalismo. Nem a desorganizada espontaneidade dos trabalhadores nem o controle burocrático do stalinismo parecem ser caminhos para se forjar essa organização.

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