“Não é correto você chegar lá na rua e dar marmita”

A declaração que dá título a esse texto é da primeira-dama do estado de São Paulo, Bia Doria, em conversa com a socialite Val Marchiori registrada em um vídeo que viralizou nas redes sociais na semana passada. 

Nele, Bia, que é presidente do Fundo Social de São Paulo, conta que não se deve doar marmitas a quem mora nas ruas. “Porque a pessoa tem que se conscientizar de que ela tem que sair da rua. A rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua”. Ao que Val Marchiori responde: “Você estava me explicando e eu fiquei passada, porque eles não querem sair da rua porque no abrigo eles têm horário para entrar, eles têm responsabilidades, limpeza e eles não querem.” 

O vídeo foi publicado nas redes da própria socialite na quinta-feira (2/7) e gerou revolta entre os internautas. Várias entidades de defesa dos moradores de rua emitiram notas protestando contra as declarações. 

As palavras dessas duas senhoras, proferidas de dentro do Palácio dos Bandeirantes – e sem máscaras de proteção contra a Covid-19 – são comparáveis à famosa frase atribuída à Maria Antonieta às vésperas da Revolução Francesa. Em um passeio que deu com seu cocheiro, a rainha da França perguntou por que toda aquela gente parecia tão desgraçada. “Majestade, não há pão para comer”. Ao que ela respondeu: “Se não tem pão, que comam brioches”. 

Essa atitude não é isolada na história. No livro “A História da Revolução Russa”, Leon Trotsky relata as extravagâncias da corte durante a Primeira Guerra Mundial, pouco antes da Revolução de 1917, quando o povo passava fome: 

“O pão e o combustível faltaram na capital: isto não impediu que o joalheiro Faberget, fornecedor da corte, não se vangloriasse de jamais ter feito tão bons negócios. Vyrubova, dama de honra da tzarina, conta que nunca em temporadas anteriores foram encomendados tantos ornamentos luxuosos, nem se comprou tantos diamantes como no inverno de 1915-1916.”

A semelhança entre os últimos casais reais russo e francês já foi muito explorada na literatura, e não é mera coincidência. Esses comportamentos e declarações indicam o descolamento da classe dominante da realidade durante períodos em que o sistema dominante vigente chegava ao seu limite. Mostram a total incapacidade de interpretar a vida real e de governar. 

Aos que têm o mínimo de consciência social consola que também esteja registrado na história o que costuma acontecer com a cabeça desses governantes. 

Em janeiro deste ano, uma pesquisa da Prefeitura de São Paulo, revelou que a população de rua na cidade subiu 53% entre 2015 e 2019. São pelo menos 24.344 seres humanos vagando sem emprego, casa, comida, água, condições básicas de higiene e sobrevivência, expostos ao frio, à violência e ao total desalento. Já não fosse ruim o suficiente, quem conhece SP percebe que os números reais são ainda maiores que os oficiais. 

Além disso, a pesquisa é de janeiro, antes do coronavírus e do aprofundamento da crise financeira dos últimos meses. Em 30 de junho, o IBGE divulgou que o país perdeu 7,8 milhões de postos de trabalho em relação ao trimestre anterior e que o número de empregados com carteira assinada caiu para o menor nível da série histórica. Pela primeira vez, menos da metade da população brasileira em idade de trabalhar tem emprego. 

Já os abrigos de São Paulo, onde Bia Doria afirma que as pessoas não querem ir para não terem responsabilidades, não atendiam nem metade do número oficial de sem tetos em janeiro. 

É certo que a situação está chegando a um patamar insustentável. Em todo o mundo explosões sociais formam uma onda revolucionária. Urge a tarefa da construção do partido revolucionário que leve as classes exploradas à superação deste sistema em decomposição. 

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