Mulheres Pelo Socialismo ES/MG: primeiros e importantes passos!

Nosso objetivo nesse texto é apresentar o trabalho iniciado em ES e MG através do Movimento Mulheres pelo Socialismo (MPS), divulgando nossas ações e incentivando a participação daquelas companheiras e companheiros que desejam se organizar. O trabalho foi iniciado através da organização de um clube do livro e de debates a partir de obras que tratam a questão da mulher a partir da perspectiva marxista. 

Nos dias 16 de junho e 8 de julho, o grupo de leitura do Comitê Fora Bolsonaro ES/MG promoveu dois encontros com o intuito de discutir a respeito do livro “Mulher, Estado e Revolução”, de Wendy Goldman. A proposta foi montar um clube do livro, enviando o arquivo em PDF um mês antes para os interessados, promovendo assim uma conversa sobre o vasto primeiro capítulo do livro de Goldman, que traz uma série de documentos de grande importância na luta pela emancipação das mulheres encampada pelos bolcheviques, que culminou na Revolução Russa de 1917 e nas demais conquistas da revolução. Buscando divulgar algumas pontuações da organização on-line feita então, apresentaremos algumas reflexões realizadas durante os debates 

No informe inicial foi apresentado o primeiro capítulo do livro em questão, que mostra um panorama das mulheres desde antes da Revolução Russa até depois da burocratização stalinista. Este grande material está repleto de apanhados históricos (atas de reuniões, leis promulgadas na época, antigas fotos) que mostram a realidade da sociedade russa após revolução, expondo provas de que as afirmações socialistas de então não foram utopias, foram reais: os fatos e avanços realmente aconteceram. 

Tal leitura descreve como a estratégia bolchevique situou os questionamentos sobre a condição feminina como de extrema importância. Uma prova disso foi a promulgação do Código do Casamento, da Família e da Tutela, que trouxe uma visão revolucionária baseada na igualdade de gênero e no fim da instituição familiar burguesa. Além disso fizeram uma série de ações com o intuito de levar o trabalho doméstico para o nível comunitário, abrindo espaço para a libertação da escravidão da mulher e possibilitando seu desenvolvimento em todas as esferas da vida. O capítulo expõe qual a realidade da classe trabalhadora e como isso entrava em confronto com as condições materiais russas da época, mostrando que as ideias bolcheviques eram até mesmo mais avançadas que as atuais formulações do feminismo pequeno-burguês.

O capitalismo criou uma contradição: deu a entrada feminina no mercado de trabalho, mas contribuiu para a ruína da estrutura familiar, com crianças e mulheres em serviços exaustivos e de pouca remuneração (e ainda assim, as mulheres estariam responsáveis pelo seio familiar). Somente no socialismo tal contradição seria resolvida. Nesse quesito, é importante ressaltar como Goldman prova que o partido não era unívoco a respeito dessa questão, pois, embora alguns teóricos achassem que a família estava definhando, eles apresentaram diversas diferenças. A autora cita na discussão diversos dirigentes, como Vladimir Lenin, que defendia a necessidade da socialização do trabalho doméstico, e Alexandra Kollontai, que ao contrário de muitas feministas modernas que defendem a redistribuição do trabalho apenas pelo sexo dentro da estrutura capitalista, afirmava a necessidade do trabalho ir para a esfera pública. 

O primeiro passo foi dado, no socialismo a instituição família como conhecemos definharia, e no comunismo deixaria de existir totalmente.

Após a apresentação do informe inicial, os comentários de todos os camaradas e ouvintes participantes deixou algo evidente: o livro de Wendy Goldman é uma essencial peça de educação para todas e todos, na medida em que expõe a luta e o pensamento de Marx, Engels, Lenin, Kollontai e desmente os falsos ataques das feministas burguesas que acusam os marxistas de não darem conta da questão da mulher. Já no início do debate, diversas camaradas que se incubem da tarefa de construir o  Mulheres pelo Socialismo no Espírito Santo expuseram a importância dessa leitura não somente para os militantes, mas como algo que deve ser compartilhado com as demais pessoas que se interessam por lutar pela emancipação da mulher e pela igualdade.  

Houve grandes comentários a respeito da sexualidade, demonstrando como a mulher era reprimida e como ainda temos isso de forma muito marcada. Através das gerações, a naturalização das concepções burguesas assusta, e na maioria das criações, essa ideologia foi enraizada. Em um comentário, expuseram um vídeo que estava circulando on-line há algumas semanas, sobre uma mulher que afirmava que a traição do marido é algo natural do homem, algo biológico, algo necessário. Isso nos faz perceber o quão profunda são as raízes do machismo. 

Outros comentários afirmaram que Wendy Goldman escreve sobre a questão sexual no primeiro capítulo, comparando as relações burguesas e as socialistas: na primeira, há sobretudo uma relação de poder e submissão; na segunda, há o fomento ao puro afeto e companheirismo. E nesse mesmo capítulo, é exposto do que realmente se trata: ambos os sexos têm impulsos naturais, determinados e moldados pela organização social. Isso foi exemplificado com a repressão das mulheres que eram obrigadas a terem seu corpo totalmente coberto no ato sexual e não podiam emitir nenhuma manifestação de prazer. É algo histórico e cultural e que precisa ser totalmente superado.

E mesmo os grandes teóricos, os pioneiros a pensar materialmente a questão da opressão à mulher, não estavam imunes aos pensamentos de seu tempo, com a afirmação da posição da mulher e homem e os trabalhos naturais. Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, recebendo metade do salário, existia um cenário terrível: serviços absurdos, homens desempregados, mulheres grávidas parindo entre as máquinas, e crianças criando deformações pelo excesso de esforço. Lutar contra a entrada da mulher no mercado de trabalho era, para muitos trabalhadores, uma forma de defesa da mulher e da família, tirando-as do trabalho considerado antinatural, pois havia a ideia de que o trabalho pesado era só para homens. Por meio do aprofundamento e maiores pesquisas, tais visões foram repensadas. No debate em questão, reforçou-se a ideia de que essas estruturas são históricas e não naturais, foram construídas culturalmente e se transformam junto com a estrutura da sociedade. 

Foi ressaltado que, infelizmente, muitas mulheres internalizam e normalizam discursos, reprimindo outras e a si mesmas ainda mais, que comprova a tese de que as ideias dominantes de um período são as ideias da classe dominante. Por isso, é clara a importância de continuarmos esse diálogo. Uma exposição da essencial educação contínua das gerações foi uma discussão gerada a partir do relato de um outro camarada que expôs tentar ao máximo quebrar com as influências do capitalismo, mas que mesmo assim sua esposa se sente explorada, sendo necessário que a mulher se imponha, caso contrário a situação não mudará. Após esse breve comentário, duas militantes explicaram que na visão marxista não é a luta individual que vai transformar as consciências, mas uma luta revolucionária que coloque homens e mulheres ombro a ombro contra a opressão da mulher no capitalismo, portanto, ao desviar o foco do indivíduo percebemos que não devemos culpabilizar a vítima. Muitas vezes, a mulher passa tanto tempo como subordinada que acaba contribuindo para a reprodução das relações burguesas, como relacionamentos abusivos que tomam a mulher como propriedade e escrava do homem, além da pressão social sofrida para ser perfeita, o que leva à baixa autoestima e outros diversos males. Todos esses pontos são reforçados diariamente pelo capitalismo e pelas relações sociais estabelecidas nesse sistema. É necessária união, com solidariedade para com a luta pela emancipação da mulher, e a contínua desconstrução das concepções fixadas do que é ser mulher.

Em um relato, foi apresentado mais um polêmico ponto de discussão: um camarada disse que antes da leitura deste 1º capitulo do livro de Wendy Goldman, ele já tinha ouvido que Marx queria acabar com a família. Sem um contexto, parece algo imoral, acabar com a base da sociedade, mas após a explicação do livro, tudo foi esclarecido: a família teve uma papel importante na organização da sociedade burguesa e precisa ser abolida pelo socialismo, no entanto, o próprio capitalismo já promoveu tal abolição, de uma forma completamente brutal, destruindo famílias pela demanda absurda de trabalho. O socialismo busca abolir a relação de propriedade privada que o homem exerce sobre a mulher, reproduzindo ne esfera doméstica as relações macroeconômicas do burguês com a propriedade privada dos meios de produção, e assim promover o livre amor. 

Mesmo com todos esses eixos de discussão, foi de total acordo que o mais impressionante nesse livro é o fato de os bolcheviques terem encarado toda essa luta como algo real, dando respostas claras e práticas a problemas que perduram até hoje (divórcio, aborto, socialização do trabalho doméstico). E nesse ponto que se desenvolveu a maior parte da discussão: a nova geração sempre cria empecilhos para as lutas (seja a luta feminista, luta antirracista, luta ecológica etc.), sempre há algo “mais importante” com o que se preocupar, não podendo ser possível levar a militância adiante. Mas isso é algo que a Revolução Russa desmentiu. Em meio a uma guerra civil, fomes e mortes, houve pensamentos e ações revolucionárias na luta feminina. Isso é algo que a juventude deve rever e usar como inspiração. E nesse livro se tem uma grande base: teóricos, documentos, leis… é necessário nos apropriarmos desses nomes e suas produções, de seus feitos, porque são de grande importância na luta, para não pegarmos uma visão distorcida feita pelos teóricos burgueses e por aqueles que se consideram “revisores” do marxismo. Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário, como dizia Lenin, por isso não adianta combater o machismo com uma teoria burguesa, mesmo ela se dizendo feminista, pois no capitalismo apenas as mulheres burguesas podem alcançar a liberdade em detrimento da maioria dos trabalhadores e trabalhadoras. 

O engajamento das pessoas na discussão levou à necessidade de construção do Mulheres Pelo Socialismo ES/MG, encarando essa tarefa já encampada nacionalmente de luta pela organização de homens e mulheres em torno da emancipação da mulher trabalhadora, e de explicação de que não será com ideias alheias à classe trabalhadora que vamos acabar com as opressões.

Participe do lançamento online do MPS ES/MG que será realizado no dia 27/08, às 19 hrs.

Junte-se ao Mulheres Pelo Socialismo!

Junte-se a um Comitê Fora Bolsonaro!

* Mariana Brito, militante da Esquerda Marxista e do MPS.

 

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