Motins na África do Sul: os pobres na ofensiva

Nos últimos dias, duas das províncias mais importantes em termos econômicos da África do Sul foram abaladas por tumultos generalizados. Os motins em Kwazulu-Natal e Gauteng foram alimentados pela raiva, desespero e frustração com o agravamento da pobreza e o impacto econômico das restrições da Covid-19.

Os distúrbios começaram após a prisão do ex-presidente Zuma por desafiar uma ordem do tribunal constitucional de prestar depoimento em um inquérito que investigava corrupção de alto nível durante seus nove anos no cargo. Protestos esporádicos começaram em KwaZulu-Natal na semana passada, com os apoiadores de Zuma pedindo sua libertação imediata. Os protestos logo aumentaram.

Grandes multidões, descrevendo-se como apoiadores de Zuma, bloquearam rodovias como a N3 e a N2, e incendiaram 28 caminhões na sexta-feira. O M7, que é uma rota estratégica de trânsito de carga para o Porto de Durban, e outras ligações provinciais e municipais também foram afetadas. Vários veículos foram apedrejados e a infraestrutura pública foi danificada, fazendo com que muitos passageiros não conseguissem chegar aos seus locais de trabalho.

No entanto, o problema imediato em torno de Zuma foi rapidamente colocado em segundo plano. Os tumultos desde domingo são muito diferentes dos de sexta-feira. Isso aconteceu depois que o governo anunciou a extensão de medidas rígidas de bloqueio, que atingiram de forma especialmente difícil algumas das camadas mais pobres da sociedade. São essas camadas que estão liderando os distúrbios.

O país vive atualmente uma terceira onda devastadora da pandemia. Para as camadas mais pobres, que sofreram o impacto das medidas de bloqueio, essa foi a gota d’água. O caráter dos motins e a composição dos amotinados mudaram novamente desde domingo. Reduzir o que está acontecendo atualmente a Zuma é extremamente superficial. Os principais alvos agora são shoppings, supermercados, armazéns e shopping centers.

Em outras palavras, esses distúrbios são por causa da fome. Eles são atos de desespero alimentados pelos graves danos que as medidas de bloqueio causaram. Um jovem disse a uma equipe de noticiários de televisão: “Não estou realmente preocupado com Zuma. Ele é um velho corrupto que merece estar na prisão. Estou pegando coisas da loja para minha mãe.” Isso representa o verdadeiro caráter desses protestos.

A escala dos motins

Os protestos se espalharam por áreas em Joanesburgo. Em Jeppe, a polícia lutou para dispersar um grupo de centenas de pessoas que haviam barricado a rodovia M2. Houve destruição de propriedades e saques. Multidões entraram em confronto com a polícia e saquearam ou incendiaram shoppings em cidades de Gauteng na terça-feira, com dezenas de pessoas mortas. Mais de 70 pessoas morreram até agora durante os distúrbios. Mais de 750 pessoas foram presas, enquanto lojas, postos de gasolina, bancos e prédios do governo foram forçados a fechar. Na terça-feira, o Estado enviou milhares de soldados para Durban e Joanesburgo enquanto a polícia parecia impotente nas províncias de KwaZulu-Natal e Gauteng.

A escala dos distúrbios lembra cenas da década de 1980, durante a luta contra o apartheid. A cidade portuária de Durban, onde os tumultos começaram no fim de semana, está envolvida em tumultos há dias. A maior refinaria de petróleo bruto do país, que está situada lá, foi forçada a fechar. Os protestos rapidamente se espalharam para outras partes da província, incluindo Pietermaritzburg, a capital da província.

Um barril de pólvora explodindo

Não é difícil entender o que está acontecendo aqui: foram anos de preparação. Os distúrbios são um reflexo da profundidade da pobreza que milhares de sul-africanos vivem no dia-a-dia. No país africano mais afetado pela pandemia da Covid-19, a imposição de repetidas restrições às empresas prejudicou uma recuperação econômica já frágil.

A crise ampliou o abismo entre ricos e pobres. O desemprego crescente deixou as pessoas cada vez mais desesperadas. O desemprego atingiu um novo recorde de 32,6% no primeiro trimestre deste ano. Mas os efeitos da pandemia vêm na sequência de anos de deterioração dos padrões de vida. Mesmo antes da pandemia, o desemprego já era de cerca de 30%.

A crise expôs o problema do desemprego da África do Sul. Mesmo antes da pandemia, o mercado de trabalho era marcado por altos níveis de desemprego e inatividade. Com uma população em idade ativa de quase 36 milhões de pessoas, apenas 15 milhões de sul-africanos estão empregados. O desemprego juvenil é o mais alto do mundo. Os níveis de desemprego para os jovens entre 15 e 24 anos é de 60%, estejam eles estudando ou se formando. Uma geração inteira cresceu tendo isso como sua realidade.

Desde o início da pandemia, mais de dois milhões dos trabalhadores mais pobres perderam seus empregos. A pandemia agravou a situação já difícil, pois os trabalhadores com salários baixos sofrem quase quatro vezes mais perdas de empregos do que os trabalhadores com salários altos. Em 2021, vimos uma recuperação modesta de empregos, mas isso está sendo destruído pelas restrições da terceira onda. Tudo isso equivale a um barril de pólvora prestes a explodir.

Crise econômica

A crise do capitalismo é especialmente aguda na África do Sul. A grande maioria das pessoas pobres e da classe trabalhadora estão sofrendo os piores efeitos desta crise: desemprego em massa, falta de moradia digna, educação inadequada, falta de terra e padrões de vida em queda rápida. A raiz desta situação está no sistema capitalista, que é incapaz de fazer as menores concessões aos trabalhadores e aos pobres.

A democracia formal foi alcançada em 1994 com a derrubada do odiado regime do apartheid, mas a riqueza dos capitalistas foi deixada intacta. A África do Sul continua a ser um país firmemente capitalista, rigidamente administrado e controlado por uma pequena minoria de capitalistas, banqueiros, proprietários de terras e empresas multinacionais gigantes. Eles se juntaram a uma elite voraz de capitalistas adventícios próximos ao Congresso Nacional Africano (CNA) e ao Estado.

As políticas capitalistas perseguidas pelo governo do CNA desde 1994, juntamente com a crise mundial do capitalismo, resultaram na estagnação econômica. Na verdade, a economia ainda não havia se recuperado do crash de 2008, quando foi atingida pelos efeitos desastrosos da Covid-19. Agora a pandemia está devastando ainda mais a economia.

A economia contraiu 7% no ano passado, pois as duras restrições para conter a propagação da doença no primeiro semestre do ano fecharam negócios e aumentaram os níveis de desemprego. Todos os danos econômicos causados ​​pela Covid só ficarão claros depois de alguns meses, e talvez só daqui a alguns anos. A crise na economia está tendo um impacto catastrófico nos padrões de vida, tornando uma situação já difícil totalmente insuportável para milhões de pessoas.

Impacto social

A África do Sul é uma dos países mais desiguais do mundo, tanto em termos de renda quanto de riqueza. Se olharmos para a renda, podemos ver que o 1% do topo obtém 20% de toda a renda, enquanto os 10% do topo ficam com 65% de toda a renda. Os salários reais dos 10% mais pobres encolheram 25% entre 2011 e 2015. Em contraste, a renda dos 2% mais ricos cresceu 15% no mesmo período. Enquanto isso, o 1% do topo viu suas rendas crescerem impressionantes 48%.

Os executivos, é claro, não dependem apenas de salários, mas também obtêm renda de outras fontes, como de ações. Claro, não foram esses gatos gordos superpagos que foram despedidos quando a produção parou.

A desigualdade de riqueza na África do Sul também é impressionante. O 1% mais rico possui 67% de toda a riqueza, os 10% mais ricos possuem 93%, enquanto os 90% restantes possuem parcos 7% da riqueza.

Na África do Sul, a pobreza existe em meio à abundância. O país tem uma economia relativamente bem desenvolvida e uma infraestrutura avançada. É um dos maiores exportadores mundiais de ouro, platina e outros recursos naturais; também possui setores de manufatura, finanças, energia e comunicações bem estabelecidos.

Apesar disso, a maioria das pessoas leva uma existência precária. Metade da população vive na pobreza. Alimentar nutritivamente uma única pessoa por um mês custa entre 530 e 670 rands. Um subsídio de apoio à criança de 440 rands por mês nem mesmo é suficiente para atender às necessidades nutricionais de uma criança, enquanto um subsídio para idosos de 1.860 rands fica muito abaixo do que é necessário para cobrir os custos de manutenção de uma família. Essa é a situação simplesmente no que diz respeito à alimentação, antes de levarmos em conta o custo de transporte, aluguel, luz, educação, roupas etc. O salário mínimo mensal de 3.500 rands é quase a metade do valor necessário para cobrir as despesas básicas de uma casa durante um mês.

A explosão dos pobres

No último período, houve uma retração no movimento da classe trabalhadora. Para ser mais correto, a vanguarda da classe trabalhadora se retirou de um período tempestuoso de intensa luta. Um certo nível de cansaço se instalou. Ao mesmo tempo, os trabalhadores estão desesperadamente resistindo a uma crise econômica que devastou os padrões de vida. Eles estão assimilando os golpes na esperança de que a tempestade diminua em breve. Na ausência de uma liderança revolucionária real, isso é natural. O CNA e o Partido Comunista da África do Sul (SACP), que são, historicamente, as organizações tradicionais da classe trabalhadora, estavam no governo realizando os ataques dos patrões em seu nome. Outras organizações, como a NUMSA, não conseguiram oferecer uma alternativa revolucionária, apesar de estarem em uma posição privilegiada para fazê-lo. O mesmo vale para a EFF.

À medida que a maré da luta de classes recuava de 2013 em diante, vimos outras camadas entrarem na batalha. Houve o maravilhoso movimento Fees Must Fall dos estudantes, que revelou o espírito revolucionário entre os jovens. Ganhou algumas concessões importantes, no entanto estas foram minadas, e o ônus de pagá-las foi colocado sobre os ombros de outras camadas da classe trabalhadora. O principal problema era que o movimento não se conectava com o movimento da classe trabalhadora em geral – embora o movimento estudantil fizesse algum contato com os trabalhadores que lutavam contra a terceirização. Assim, a luta permaneceu um movimento puramente estudantil, isolado da luta geral contra o capitalismo sul-africano.

Os estudantes são uma importante força auxiliar dos trabalhadores. Mas a luta dos estudantes não substitui a luta dos trabalhadores. As limitações de uma luta puramente estudantil podiam ser vistas no auge do movimento Fees Must Fall, onde, apesar de toda a conversa sobre “fechamento total”, nada realmente foi fechado além dos campi universitários. A economia ainda funcionava normalmente. Os bancos operavam, as minas funcionavam sem obstáculos, as fábricas funcionavam e os supermercados estavam abertos. Somente a classe trabalhadora poderia ter fechado a economia e ameaçado os patrões onde realmente dói – em seus lucros.

Na ausência de um grande impulso dos trabalhadores avançados nos últimos anos, outros elementos vieram à tona, como o aumento dos protestos comunitários dos pobres urbanos e outras camadas mais atrasadas. Os tumultos dos últimos dias fazem parte do mesmo fenômeno.

Esses distúrbios são um sério aviso para a classe dominante. Eles são um sinal da ira e da raiva profundamente arraigadas que estão borbulhando logo abaixo da superfície, à espera de um escape. A crise capitalista já produziu revoluções, manifestações de massa, greves e greves gerais em um país após o outro. Isso faz parte do mesmo processo.

Mas, no final das contas, esses distúrbios levarão a um beco sem saída. A destruição de shoppings e supermercados não oferecerá absolutamente nada à solução dos problemas da classe trabalhadora e dos pobres na sociedade. Na verdade, vai prejudicar os trabalhadores que foram flagrados na destruição. Algumas empresas podem fechar, causando mais perdas de empregos. As principais vítimas serão os pobres e os próprios rebeldes. Os pobres continuarão pobres depois que os motins acabarem. Também dá ao Estado e à mídia a desculpa para criminalizar os pobres e demonizar todos os que lutam por uma saída revolucionária. Na verdade, esses distúrbios são expressões de uma raiva impotente. A solução para a crise da sociedade sul-africana não é destruir os supermercados, mas tomá-los junto com o resto das alavancas dominantes da economia sob o controle democrático e a gestão da classe trabalhadora.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.
PUBLICADO EM MARXIST.COM

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