Milhares param a produção contra condições inseguras de trabalho na Espanha

A seguinte declaração dos trabalhadores na Espanha, que protestam contra a recusa dos patrões em tomar medidas de segurança adequadas à luz da pandemia de coronavírus, é um exemplo para o mundo inteiro. Não às condições de trabalho inseguras! Façam os patrões pagarem!

Ante a submissão dos governos à grande patronal, só a classe trabalhadora pode garantir a luta efetiva contra a pandemia. Os trabalhadores da Mercedes Vitoria, da IVECO Valladolid, os trabalhadores da construção de Amazon Dos Hermanas, Balay, Aernova, Continental… cerram fileiras ante a falta de medidas de prevenção nos centros de trabalho e mostram o caminho!

Os governos central e regionais autônomos, junto com os meios de informação, não se cansam de repetir que, para deter o contágio, todos temos que agir com responsabilidade e fiquemos em casa. Ainda mais, depois da declaração do estado de emergência, advertem que serão as forças policiais e o exército que imporão as medidas coercitivas que se tornarem necessárias. Ameaçam com a imposição de multas e sanções nos casos individuais de indisciplina. Mas todos os seus apelos à responsabilidade se detêm diante do muro intransponível da sacrossanta propriedade, as ordens não dizem respeito aos donos do Capital. As próprias medidas de isolamento que a todo momento publicam a partir dos grandes grupos midiáticos – que esses mesmos monopólios possuem e controlam – são sacrificadas no altar de seus lucros e ficam só nas portas das fábricas e nos centros de trabalho. Cada dia que passa milhões de trabalhadores enfrentam a incerteza. Precisam decidir o que é mais importante: sua saúde ou suas condições de vida e emprego.

Existe uma clara necessidade de informações precisas, mas nenhum comentarista ou autoridade ousa mencionar a dura realidade dos riscos à saúde, nem que o futuro de milhões de trabalhadores seja ditado por 100 famílias de oligarcas. São as mesmas pessoas que participam dos conselhos de administração do IBEX1 e que, sem responder ante ninguém, não hesitam em sacrificar a saúde de seus funcionários para manter seus lucros. E nos casos em que eles não conseguem manter seus negócios, eles já estão puxando os fios do poder para colocar amanhã todo o custo dessa crise em nossos ombros.

O exemplo de Mercedes-Vitoria

Ontem, segunda-feira (16/3), desde o início do turno da manhã na cadeia de produção de Mercedes Vitoria – a maior indústria de Euskadi2, com 5 mil trabalhadores em equipes e outros 12 mil como auxiliares – a tensão era palpável. A ansiedade tomava conta dos trabalhadores, todos tinham em mente a incongruência hipócrita de que, no rádio e na televisão, enchiam a boca para pedir às pessoas ficar em casa para deter o contágio, mas obrigavam a eles a trabalhar, descumprindo qualquer uma das medidas de segurança básicas, pondo assim em risco sua saúde e de suas famílias. No meio da manhã, a tensão desatou convertendo-se em ação coletiva.

Reunidos desde as primeiras horas com a direção da planta e ante a negativa por parte da gerência de tomar qualquer medida, o comitê de empresa em pleno se concentrou na linha no 10, para informar e exigir que se detivesse a produção, com aplausos e sob o grito unânime de “Parem agora!” os trabalhadores foram se aglomerando. O presidente do comitê tomou a palavra e explicou a centenas de trabalhadores do turno que, apesar das reiteradas exigências dos representantes dos trabalhadores, a gerência se negava absolutamente a deter a produção. Ante sua negativa, o comitê se pôs em contato com a Ertzaina (polícia basca) e com a inspeção do trabalho, para lhes pedir que constatassem o descumprimento flagrante das medidas preventivas. O resultado foi que, longe de agir, a equipe da Ertzaina, que se apresentou na fábrica, limitou-se a ouvir as explicações do gerente Titos na presença do presidente do comitê e, por sua vez, a inspeção do trabalho sequer se fez presente. Ante essa passividade criminosa de empresa e autoridades, os trabalhadores decidiram parar a produção e impuseram uma paralisação da atividade produtiva a partir do turno da tarde.

Diante da passividade criminosa das instituições que põe em risco nossa saúde e a de nossas famílias, os trabalhadores da Mercedes Benz, na IVECO; os trabalhadores da construção da Amazon, em Dos Hermanas; os trabalhadores de Aernova (uma fábrica aeronáutica em Alava); na fábrica de Balay, em Saragoça, e na fábrica de pneus Continental, em Rubi (Barcelona), estão entre as empresas mais importantes em que os trabalhadores tomaram a iniciativa. Eles disseram basta, apontando que a única maneira de parar a epidemia e derrotar a Covid-19 é com a mobilização e a disciplina coletiva dos trabalhadores.

Seu exemplo tem que ser generalizado, acreditamos que a posição de ELA (Sindicato da Solidariedade dos Trabalhadores Bascos), ao exigir a paralisação de todas as atividades não-essenciais e garantir os benefícios necessários para as pessoas afetadas, embora insuficiente, é um passo importante na direção correta.

Nenhuma confiança no Estado e na patronal! Só a mobilização e a organização do movimento dos trabalhadores pode garantir a defesa da saúde pública!

Paralisação imediata de todas as atividades não-essenciais!

Rejeição do plano patronal de descarregar todo o peso da pandemia sobre o orçamento público e que, tal como fizeram em 2008, seja a maioria assalariada os que paguemos a conta com reduções salariais, empregos precários e destruição dos direitos sociais!

Com o objetivo de colocar todos os recursos do país a serviço da saúde das pessoas, exigimos a nacionalização imediata dos seguintes setores estratégicos da produção:

  • O setor privado de saúde: laboratórios, hospitais, clínicas, fabricantes de equipamentos e suprimentos médicos, para que – sob a supervisão dos profissionais de saúde e de suas organizações – seja imediatamente executado um plano para fornecer o equipamento e os recursos necessários para que o trabalho seja realizado em condições seguras. Garantir a realização de testes e o fornecimento dos medicamentos necessários!
  • Exigimos a nacionalização do setor de energia, além da nacionalização imediata de grandes empresas de transporte, logística e distribuição e varejo para alimentos e bens básicos, começando pelas grandes redes de lojas e supermercados. Somente a Mercadona controla 30% da distribuição e venda desses produtos.
  • Nacionalização imediata de todo o setor financeiro e de seguros, com remuneração apenas no caso dos pequenos acionistas!

Vitoria-Gasteiz, 17 de março de 2020.

Notas:

1 O índice IBEX 35 (Iberia Index) é o principal índice de referencia da bolsa espanhola.

2 Comunidade Autônoma do País Basco, em basco: Euskal Autonomia Erkidegoa ou Euskadi.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXIST.COM

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