Marxistas de todo o mundo marcham contra o racismo

O movimento de protesto desencadeado pelo brutal assassinato pela polícia de George Floyd, um negro desarmado, em Minneapolis, se espalhou pelo mundo. Em mais de 20 países, trabalhadores e jovens marcharam e se manifestaram contra o racismo, tanto nos EUA quanto localmente. Camaradas da Corrente Marxista Internacional (CMI) têm participado desses protestos, levantando palavras de ordem pela derrubada revolucionária do sistema capitalista inerentemente racista.

Canadá

Comícios antirracistas ocorreram em todo o Canadá em solidariedade aos protestos nos Estados Unidos, provocados pelo assassinato pela polícia de George Floyd.

Mais de 5 mil pessoas inundaram as ruas de Toronto em 30 de maio. O protesto ocorreu após a morte de Regis Korchinski-Paquet, uma mulher negra e indígena de 29 anos de idade que caiu da varanda de seu apartamento no 24º andar enquanto a polícia de Toronto estava presente. Os manifestantes gritaram palavras de ordem, incluindo “Justiça para Regis“, “Outra vida negra“, “Abaixo a polícia” e “Sem justiça, não há paz“. Até 5 mil pessoas estavam presentes no auge do protesto, em sua maioria jovens radicalizados.

Mais de duas dúzias de nossos camaradas participaram do comício, que começou no parque Christie Pits. Um camarada da CMI fez um discurso poderoso que atraiu uma grande multidão e obteve aplausos entusiasmados, depois passou as próximas três horas liderando cânticos no megafone enquanto marchávamos. Centenas de manifestantes repetiram nossos slogans pedindo revolução, guerra de classes e a derrubada do Estado burguês racista, que estava ligado a assassinatos policiais no Canadá e nos EUA. No final da manifestação, nosso camarada fez outro discurso e apelou para que as pessoas se juntassem a nós, apresentando muitos novos trabalhadores e jovens interessados para ajudar a construir as forças do marxismo no Canadá.

Em Montreal, ocorreu um comício antirracismo ainda maior em 31 de maio, com aproximadamente 10 mil pessoas no auge. Os camaradas da CMI, tanto de La Riposte Socialiste quanto de Fightback, saíram com força, exibindo faixas e cartazes com slogans antirracistas que ligavam a luta contra o racismo à luta de classes. Os camaradas distribuíram panfletos em inglês e francês, e lideraram cânticos, alguns dos quais se mostraram bastante populares e levaram muitas pessoas a se juntar ao nosso contingente.

O clima geral era muito militante. Este não foi o mesmo movimento Black Lives Matter de alguns anos atrás, mas representou um salto qualitativo na consciência de muitos jovens que estão procurando idéias. A crescente abertura ao marxismo ficou evidente no final da demonstração, quando nossas mesas foram inundadas por pessoas, muitas das quais compraram nossa literatura e pediram para se envolver.

Em Calgary, milhares de pessoas marcharam pelas ruas em 3 de junho, no terceiro protesto da cidade contra a brutalidade policial e o racismo desde a morte de George Floyd. A marcha solidária começou no bairro de Kensington e continuou até a prefeitura. Nossos camaradas marcharam com cartazes e distribuíram panfletos ligando a luta contra a violência policial à necessidade de uma revolução socialista.

Comícios semelhantes ocorreram em cidades e vilas do Canadá. Como esse movimento está ocorrendo em meio a uma pandemia sem precedentes, cada um de nossos companheiros nos comícios usava uma máscara o tempo todo e se submeterá a uma quarentena por 14 dias. Nossos contingentes também trouxeram suprimentos de desinfetante para as mãos e máscaras extras. A disposição de tantos milhares de pessoas em se unir nessas condições é uma prova do crescente humor militante da sociedade, principalmente entre os jovens.

Os Países Baixos

Os camaradas de Revolutie, o grupo da CMI na Holanda, estiveram presentes na demonstração de solidariedade em Amsterdã. Nem os organizadores, nem o prefeito e a polícia esperavam mais do que algumas centenas de pessoas para uma demonstração que foi organizada cerca de 24 horas antes. Em vez disso, testemunhamos mais de 5 mil pessoas na praça central de Dam.

Havia pessoas de todos os tipos de origem, mas a maioria era jovem, e havia muitos jovens negros da classe trabalhadora e dos bairros pobres de Amsterdã presentes. Obviamente, o protesto foi solidário com a revolta nos EUA e mostrou aversão à violência policial racista, mas muitos sinais e discursos deixaram claro que o racismo também é um grande problema na Holanda. A violência policial é menos geral do que nos EUA, mas ainda assim a polícia holandesa está repleta de comportamento racista e tem seu próprio histórico de violência letal contra os negros. O mais infame foi o assassinato pela polícia de Mitch Henriquez em Haia, em 2015, que foi estrangulado e espancado, causando tumultos depois.

Havia algumas preocupações sobre o uso do distanciamento social, uma vez que a densidade na praça fazia com que a distância de 1,5 metro não pudesse ser mantida. Pelo menos 90% dos manifestantes usavam máscaras e tentavam manter a distância, mas, a certa altura, a praça estava cheia demais. Isso poderia ter sido evitado, transformando o comício em uma marcha a pé para a Praça do Museu, que é muito maior. O movimento deve expor os políticos burgueses hipócritas que falharam em fornecer proteção suficiente no último período e estão pressionando para reabrir a economia, mas que agora querem culpar uma “segunda onda” por conta dessa manifestação. Ao mesmo tempo, deve buscar medidas preventivas e convocar demonstrações nas maiores praças abertas, porque o clima mudou e mais pessoas estão prontas para serem mobilizadas!

Isso foi confirmado positivamente por outras demonstrações de solidariedade. Os protestos foram realizados em Haia, Groningen, Roterdã, Maastricht e estão planejados para Utrecht, Eindhoven e Tilburg. Todos eles tinham centenas de pessoas, e o de Roterdã foi pelo menos tão grande quanto o de Amsterdã. Tudo isso em um período em que as pessoas não usam o transporte público entre as cidades (em um pequeno país onde você pode chegar a todas as principais cidades em questão de horas), então são realmente os jovens locais que se mobilizam. Isso mostra que o movimento nos EUA foi um ponto focal para a radicalização de novas camadas, mesmo em países como a Holanda. Houve uma mudança fundamental na situação.

Grã-Bretanha

Em 31 de maio, milhares de pessoas marcharam da Trafalgar Square para a embaixada dos EUA, protestando contra os assassinatos racistas de Breonna Taylor e George Floyd pelas mãos da polícia. Embora esses nomes sejam novos para nós, o problema é antigo. Como resultado, o protesto não foi apenas sobre as mortes de Floyd e Taylor, mas, de maneira mais geral, sobre a brutalidade policial.

Em suas próprias palavras, os ativistas de Black Lives Matter estão “exigindo reconhecimento e responsabilidade pela desumanização da vida negra nas mãos da polícia. Pedimos soluções radicais e sustentáveis que afirmem a prosperidade das vidas negras”.

Esse objetivo amplo foi refletido na demonstração, com as pessoas cantando “Diga meu nome, George Floyd“, “Não consigo respirar” e “Black Lives Matter“.

A multidão era jovem, diversa e enérgica. Muitos motoristas de ônibus buzinavam em solidariedade ao movimento; um sinal claro de apoio dos trabalhadores, apesar de suas rotas estarem sendo interrompidas.

Houve alguns cânticos de “uma solução, revolução”, mas o foco estava principalmente na instituição da polícia.

Em uma tentativa de acalmar a multidão, policiais chegaram aos portões de Downing Street, para tentar conversar com os ativistas. Como era de se esperar, isso não acalmou a situação, mas levou a um cântico irritado de “Diga seu nome! Saia do seu emprego!

A manifestação foi pacífica e poucas prisões foram feitas. No entanto, existem muitos vídeos on-line de policiais provocando incidentes com manifestantes, causando uma escalada na situação, sem dúvida procurando justificar prisões.

Vi um desses incidentes surpreendentes com meus próprios olhos: quando os protestos estavam acabando, um policial caminhou direto para um dos cartazes dos manifestantes e tentou agarrá-lo. Quando o manifestante segurou o cartaz, o policial ficou muito agressivo e zangado e começou a gritar. Felizmente, a multidão restante disse ao policial para se acalmar e ele se afastou.

O Met alegou inicialmente que cinco prisões foram feitas: três delas por violar os regulamentos de distanciamento social da Covid-19. Esta é uma farsa completa: quase todos os manifestantes usavam máscaras, mas nenhum policial usava uma. Como sempre, a polícia acredita que está acima de suas próprias leis.

Várias centenas de pessoas também se reuniram em St. Peter’s Square, Manchester, exigindo justiça para George Floyd e o fim da brutalidade policial e do racismo.

Considerando que a manifestação foi convocada com um dia de antecedência e em condições de bloqueio, a participação foi muito impressionante. Os manifestantes usavam máscaras e tentavam manter o distanciamento social.

A manifestação parecia uma ação popular completamente independente, liderada por um punhado de jovens negros e consistindo predominantemente de jovens – negros e brancos – com cartazes caseiros.

No começo, nos ajoelhamos em um momento de silêncio, antes de marchar pelo centro da cidade. O clima era muito enérgico, com cânticos de “Black Lives Matter” e “sem justiça, não há paz“. Cartazes e palestrantes pediam solidariedade com os negros nos EUA, além de denunciar o racismo do Estado britânico.

O protesto nos dá um indício do aumento da fermentação na sociedade, que se acelerou nas últimas semanas. O fato de um incidente do outro lado do Atlântico ter sido capaz de atrair um grande e enérgico protesto de novos rostos, mesmo durante o confinamento, é uma indicação desse clima de raiva.

Quaisquer ilusões na reforma do sistema estão sendo rapidamente destroçadas. A conclusão que está sendo tirada é cada vez mais clara: todo o sistema precisa ser derrubado. Como os ativistas de Socialist Appeal inscreveram em nossas faixas, nas palavras de Malcolm X: “Você não pode ter capitalismo sem racismo“.

Na quarta-feira, 3 de junho, dezenas de milhares se reuniram no Hyde Park, em Londres, com um cortejo que marchou até Downing Street. Os cânticos mais comuns foram: “Justiça para Belly Mujinga“; “Diga o nome dele, George Floyd“; “Diga o nome dela, Breonna Taylor“; e “Black Lives Matter“.

A manifestação contou com a participação de ativistas de Socialist Appeal de Londres, que participaram para mostrar apoio ao movimento insurrecional nos EUA contra a violência policial. Distribuímos centenas de folhetos, citando Malcolm X e outros revolucionários negros, ligando a questão do racismo ao sistema capitalista.

Um camarada tinha um cartaz que dizia “fim do racismo = fim do capitalismo“. Isso levou muitas pessoas a pedirem para tirar uma foto – um sinal inconfundível do clima radical dessas manifestações.

Um grupo de jovens entrevistados por Socialist Appeal mostrou mais evidências disso, afirmando que “enquanto você tiver um sistema capitalista, haverá racismo. Está na hora destruí-lo!

Isso mostra como a consciência revolucionária se transformou, especialmente entre os jovens. Mas também que o movimento ainda exige liderança para mostrar o caminho para uma alternativa positiva.

A tarefa a seguir é continuar explicando que a única maneira de combater o racismo sistêmico é com o socialismo.

Após o protesto em massa no centro de Londres, os ativistas organizaram uma reunião e uma manifestação de massa em frente à Hackney Town Hall, à noite. A manifestação foi organizada com muito pouco tempo por ativistas locais e, portanto, a publicidade foi muito limitada. E, no entanto, chegaram até mil pessoas (é difícil dizer, especialmente com o distanciamento social), preenchendo completamente a praça.

Um ativista da NEU falou sobre o racismo nas escolas e a necessidade de os sindicatos estarem na vanguarda da organização da luta contra o racismo.

O conhecido ativista antirracista Patrick Vernon também falou e disse que quando a crise do coronavírus terminar, devemos construir uma nova sociedade livre de todos os fanatismos.

Oktay Shabaz, da organização comunitária curda DayMer, fez um excelente discurso, citando Fred Hampton: “Vamos combater o racismo não com o racismo, mas sim com a solidariedade“.

O tamanho do protesto foi uma inspiração, mostrando quão profunda é a raiva contra o racismo, quão internacional é esse movimento e quanto potencial ele tem.

A manifestação de solidariedade e a alta participação foram energizantes. Para que o movimento avance, essa energia agora precisa ser canalizada para demandas claras e radicais.

Por um lado, a exigência de acabar com os assassinatos racistas pelas mãos da polícia parece sincera e estava sendo feita em voz alta no protesto.

Mas, por outro lado, devemos enfatizar que isso não pode ser alcançado dentro do sistema capitalista. Essa violência policial e esse racismo são um sintoma da violência e do racismo inerentes ao capitalismo: um sistema baseado na exploração e na opressão.

Portanto, são necessárias demandas revolucionárias para o movimento Black Lives Matter (BLM).

A luta antirracista também deve estar ligada à luta de classes – com o movimento BLM unindo forças com o movimento trabalhista para expulsar esse governo conservador racista.

O assassinato de George Floyd é uma centelha que acendeu todo o material combustível acumulado de raiva e descontentamento na sociedade – nos EUA e na Grã-Bretanha. A tarefa agora é organizar trabalhadores e jovens radicalizados – negros e brancos – contra o verdadeiro culpado: o capitalismo.

Estávamos demonstrando solidariedade com os que protestavam nos Estados Unidos, em resposta ao assassinato de George Floyd. Mas essa morte por si só não pode explicar adequadamente por que milhares de pessoas apareceram em todo o mundo, inclusive em Londres, para protestar em meio a uma pandemia mortal. Este foi um protesto contra a violência desenfreada e o racismo vistos sob o capitalismo, particularmente a partir da polícia.

De 2013 a 2019, a polícia dos EUA matou 7.666 pessoas; e americanos negros tiveram 2,5 vezes mais chances de serem mortos: o “Reino Unido não é inocente“. Embora a polícia britânica mate com menos frequência, constitui uma força repressiva que é frequentemente violenta e igualmente discriminatória.

Estamos cansados das palavras vazias dos funcionários públicos, que constantemente alegam que não permitirão que esses crimes aconteçam novamente; que afirmam que estão prontos para fazer mudanças. Mas nada muda. Em vez disso, apenas obtemos mais do mesmo.

Um dos principais cânticos do protesto foi “sem justiça, não há paz“. Mas que tipo de justiça devemos exigir? A prisão e condenação de todos os quatro policiais e a elevação da acusação a Derek Chauvin de assassinato em terceiro grau para assassinato em primeiro grau?

Este seria certamente um primeiro passo. Mas não será suficiente. Este não é o caso de uma “maçã podre” em um sistema que funcionaria normalmente. Em vez disso, a morte de George Floyd foi uma das inúmeras mortes causadas pela brutalidade policial.

Para alcançar a verdadeira justiça, precisamos de uma transformação completa na sociedade. O capitalismo – e as instituições designadas para defendê-lo – são  inerentemente racistas. Para ver mudanças reais e duradouras, precisamos varrer a força corrupta e repressiva do Estado e o sistema capitalista a que ele serve.

Áustria

Em Viena, 50 mil pessoas marcharam e – o que a torna uma das maiores manifestações nos últimos anos (provavelmente superada apenas pela manifestação sindical contra o dia útil de 12 horas em 2018). Mesmo antes da manifestação, era tangível que um clima diferente havia se apoderado de toda a nação. Um camarada informou que seus colegas foram trabalhar na H&M com “vidas negras importam” escritas em suas camisas.

Na demonstração, a polícia agiu quieta e quase invisível e até mostrou um cartaz de “vidas negras importam” em um carro. O comportamento deles parecia planejado de acordo com o governo da cidade. Os organizadores eram ativistas da Juventude Socialista e social-democratas “anônimos”, enquanto os palestrantes eram artistas e ativistas.

Uma dos nossas camaradas vienenses deveria falar na demo principal, mas à medida que a manifestação crescia os organizadores a eliminaram, já que havia “muitos palestrantes”. A camarada fez o discurso de qualquer maneira com um megafone, duas vezes, e recebeu uma resposta muito boa da multidão ao redor. A massa de participantes era desorganizada, muito jovem, e mais proletária e de caráter migrante em comparação com as greves climáticas. O ânimo foi em grande parte da demo muito enérgico, confiante e vocal. Quase nenhum grupo organizado de esquerda era visível com bandeiras etc., além de nós. Os camaradas venderam uma grande quantidade de material, mostrando o quanto suas ideias revolucionárias foram bem recebidas pela multidão.

Suécia

O movimento nos EUA após o assassinato de outro homem negro desarmado, implorando por sua vida quando estava morrendo por sufocamento nas mãos da polícia, se espalhou internacionalmente. Houve manifestações nas três maiores cidades da Suécia, com 8 mil participantes em Estocolmo, 2 mil em Malmö e outra planejada em Gotemburgo para o domingo.

Nesta quarta-feira, Revolution (a CMI na Suécia) participou do protesto em Estocolmo que, apesar da pandemia, reuniu 8 mil participantes. Uma hora antes do início do protesto, já havia milhares reunidos no Sergels Torg. O clima era radical, quase elétrico. A maioria dos que aderiram à manifestação era jovem, e muitos estavam, sem dúvida, protestando pela primeira vez em suas vidas. Máscaras faciais e luvas foram distribuídas. Cânticos como “Black Lives Matter“, “No Justice – No Peace“, “Smash Racism” e “Fuck SD” (referindo-se ao racista partido dos suecos-democratas) ecoavam no meio da multidão. De Sergels Torg, a manifestação se moveu para a cidade, onde foi recebida com aplausos dos espectadores e dos carros que buzinavam para mostrar apoio.

Quando a manifestação terminou, a polícia atacou os manifestantes que estavam pegando o metrô da estação central. Eles atacaram, com spray de pimenta e cassetetes, crianças de 12 anos desarmadas e jogaram uma jovem de 15 anos no chão de pedra, causando concussões e várias fraturas. Dois manifestantes prestaram contas na TV estatal SVT sobre como a polícia usou spray de pimenta contra seus amigos ajoelhados. Vídeos se espalharam nas mídias sociais mostrando como a polícia, com a proteção do pescoço levantada para esconder os números de identificação em seus capacetes, perseguia dezenas de jovens em fuga com cassetetes.

Desde então, houve um grande debate na mídia sueca sobre o fato de que esses protestos ocorreram apesar da pandemia.

Entendemos perfeitamente que alguns profissionais de saúde achem imprudente protestar em meio a uma pandemia. Ao mesmo tempo, temos que dizer que há problemas muito piores do que um grupo de jovens reunidos por algumas horas para protestar contra o racismo. Muitos tinham máscaras faciais, desinfetantes para as mãos ou até luvas, e tentavam manter a distância física, a que também eram incentivados a fazer nos eventos do Facebook. Eles fizeram o que podiam para restringir o risco de espalhar a infecção, ao contrário de, por exemplo, alguns empregadores no atendimento de idosos e em hospitais, que ameaçaram demitir trabalhadores se usassem máscaras!

Portanto, não temos simpatia ou compreensão pela campanha massiva de difamação contra os protestos, que ocorreram na mídia e através dos políticos responsáveis por cortes e austeridade.

Os marxistas já questionaram muitas vezes a “prudência” de se manter uma produção não essencial. Por que a Volvo Cars, em Gotemburgo, com 6.600 funcionários, mantém a produção na fábrica todos os dias? Nós realmente precisamos de mais carros agora? Os trabalhadores não deveriam ser mandados para casa com salário? Quantos bilhões mais os proprietários da Volvo precisam ganhar?

Muitos fatores de risco igualmente grandes permanecem abertos todos os dias sem nenhuma crítica que valha a pena mencionar, como shoppings, bares e restaurantes lotados. É evidente que os horários restritos que levaram à superlotação de ônibus, bondes e trens do metrô e locais de trabalho sem equipamento de proteção adequado são muito mais perigosos do que qualquer demonstração individual.

O conservador Kristoffer Tamsons (do partido Moderaterna) escreveu um post sulfuroso no Facebook dizendo que a manifestação em Estocolmo era “idiota”, “irresponsável” e que a polícia deveria “se posicionar” mais “claramente e a tempo”. Em linguagem clara, ele exigiu que a polícia fosse ainda mais violenta.

Na realidade, Tamsons e outros políticos de direita hipócritas são os reais responsáveis pelo grande número de mortes em Estocolmo. A culpa pelas mais de 4.600 mortes causadas pela Covid-19 na Suécia é do governo, da direita e do sistema capitalista que eles defendem. Foram eles que realizaram as privatizações e os cortes que causaram o caos nos cuidados com a saúde e com os idosos muito antes da Covid-19. Eles adotaram políticas que forçaram os serviços públicos a se ajoelharem e que, após três meses de uma crise que sabiam que estava chegando, ainda não foram capazes de resolver a questão dos equipamentos de proteção adequados nos serviços de saúde.

Os amigos de Tamsons no Moderaterna ficaram ricos com o contrato público para a construção do hospital Ny Karolinska sjukhuset. Dezenas de bilhões de coroas suecas – no hospital mais caro do mundo – foram desperdiçadas do orçamento da assistência médica e foram diretamente para um punhado de parasitas ricos da classe dominante.

Os culpados pelas muitas mortes são os políticos que atacaram a segurança do emprego e, de todas as formas, garantiram uma situação em que um em cada quatro idosos, em Estocolmo, esteja trabalhando sob contratos casuais. Dessa forma, eles forçaram os idosos a manter contato com muito mais pessoas do que o necessário – o que sabemos ser um fator que contribui para o alto número de mortes.

No mesmo post do Facebook, Tamsons tentou fingir que é contra o racismo. Esta é uma declaração risível vinda de uma pessoa que é membro de um partido cujo líder, Ulf Kristersson, disse outro dia que é um “lixo” quem não colaborar no parlamento com os democratas suecos (de direita e racistas). Um partido que grita por políticas mais repressivas a cada segundo e cujos parlamentares propuseram uma moção para enviar os militares aos bairros pobres de Estocolmo. A justa indignação e frustração da classe trabalhadora, segundo eles, deve ser enfrentada com violência, violência e ainda mais violência – especialmente se pertencem aos bairros nomeados! Este é o verdadeiro significado da conversa vazia sobre “lei e ordem”.

Tanto a Autoridade de Saúde Pública quanto o nosso ministro Social-Democrata do Interior, Mikael Damberg, criticaram a manifestação como “irresponsável” e “ilegal”. Alguém poderia perguntar à Autoridade de Saúde Pública, que está falando em nome do governo, que já declarou há muitas semanas que em breve chegaremos à imunidade de rebanho em Estocolmo: que responsabilidade você tem se as pessoas não levarem suas recomendações a sério?

O racismo não é apenas o risco de sofrer brutalidade policial, como a líder democrata-cristã, Ebba Busch-Thor, deixou bem claro quando disse que o alto número de mortes nos bairros pobres de Rinkeby-Kistas e Spånga-Tensta se deve a “diferenças” culturais e ao analfabetismo. Essa tentativa de pintar a classe trabalhadora dos bairros das grandes cidades como um bando de idiotas sem esperança, na realidade apenas expõe a remetente dessa mensagem.

Qualquer criança de cinco anos pode entender que muitas pessoas trabalhadoras vivem nos bairros – enfermeiros assistentes, faxineiros e motoristas de ônibus – que, através de seu trabalho, carregam grande parte da sociedade nos ombros. Mas esses trabalhadores têm empregos onde não se pode “trabalhar em casa“; eles vivem onde a falta de moradia leva a condições de vida estreitas, e onde a pobreza aumenta o risco de adoecer. O fato de tantos terem sido infectados nessas áreas é simplesmente mais uma expressão brutal da sociedade de classes sueca. Não é de admirar que muitos que participaram dos protestos sejam dessas áreas.

Também na Suécia, a polícia assedia rotineiramente os jovens dos bairros por conta da aparência ou cor da pele “errada”. E, aqui também, a polícia faz o que quer. Apenas uma fração das queixas contra a polícia leva alguém a ser acusado. E, como o programa de TV Dokument inifrån mostrou, o policial que cometeu assassinato muitas vezes pode se safar, se apenas alegar que foi em legítima defesa.

Foi revelado publicamente na mídia que o jargão racista é comum na polícia. Por exemplo, um policial disse na cantina da polícia que “devemos colocar todos os afegãos em um avião, sobrevoar o Afeganistão e jogá-los fora“. Nenhum de seus colegas reagiu. Em 2009, foi revelado que, no material educacional interno da polícia em Skåne, eles usavam nomes como “Neger Neggerson” e “Oscar the Neger” [Neger é a forma racista de chamar os negros na Suécia].

Na Suécia, assim como nos EUA, o racismo é um veneno que a classe dominante de todas as maneiras tenta utilizar para dividir a classe trabalhadora. Os protestos na Suécia são, portanto, muito mais do que apenas a solidariedade com a luta nos EUA. São sobre o racismo também em casa. O que o ministro do Interior Damberg disse sobre a irresponsabilidade dos manifestantes é, portanto, o cúmulo do cinismo. Embora faça pouco para salvar vidas, este governo social-democrata está se preparando para levar a cabo uma política muito mais racista do que antes. Recentemente, eles nomearam uma comissão para facilitar o cumprimento da ordem de que os não-cidadãos, condenados por crimes, deixem o país. E um comitê, que trabalha em nome do governo, propôs uma lei para tornar as leis de migração mais severas, incluindo, por regra, tornar temporárias as autorizações de residência, a possibilidade de usar uma etiqueta eletrônica para as pessoas ordenadas a deixar o país e que as pessoas que obtiveram o pedido de asilo recusado não devam poder apresentá-lo novamente durante dez anos. A mensagem do governo e da direita é: continuemos a executar políticas para destruir a vida dos trabalhadores comuns – e que não ousem protestar!

O movimento nos EUA uniu pessoas de diferentes raças e origens, protestando contra o racismo que eles percebem como o inimigo comum, mesmo que isso afete mais severamente aos negros. O movimento inspirou os oprimidos em todo o mundo – começando pela Europa e pelas Américas – a se unir e lutar. O racismo deve ser combatido com força, se quisermos derrotar a pequena minoria de capitalistas que estão ficando ricos com o nosso trabalho. Recusamo-nos a lutar pelas migalhas de pão de nossos governantes – exigimos toda a padaria! Revolution (a CMI na Suécia) está, portanto, participando de todo coração nos protestos – e, como todos, fazemos isso com máscaras, distanciamento físico e senso de responsabilidade.

Aos profissionais de saúde, dizemos: “Esses protestos sob a pandemia são um mal necessário. Mas temos que lutar contra o sistema que permitiu à pandemia ganhar consequências tão devastadoras. Para combater a Covid-19, precisamos de mais recursos para cuidados de saúde e para os idosos, além de equipamentos de proteção – e não uma proibição das manifestações”. Aos políticos, dizemos: “Você não vai nos enganar e não tente culpar os outros. São seus cortes e privatizações que levaram a esse alto número de mortes“. Aos capitalistas, dizemos: “Seu sistema está condenado. Podemos ver através de suas mentiras racistas e continuaremos a expor sua exploração e opressão. Os trabalhadores carregam toda a sociedade nos ombros, enquanto vocês ricos nada mais são do que parasitas e ladrões. Os EUA estão apenas mostrando o início do verdadeiro potencial revolucionário da classe trabalhadora e da juventude. Aprenderemos com esse movimento e, mais cedo ou mais tarde, daremos o próximo passo. Na mesma medida em que você teme o movimento, ele nos inspira confiança e esperança. Em breve, seu tempo acabará. O socialismo vencerá”.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXIST.COM

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