Marx e a revolução

Hoje comemora-se os 202 anos do nascimento de Karl Marx. Combatido pelos reacionários, temido pela burguesia, deturpado por reformistas e oportunistas, sua obra continua a ser a principal arma que os trabalhadores possuem para superar o capitalista e construir uma sociedade marcada pelo fim da exploração. Suas formulações teóricas, construídas ao lado de Friedrich Engels, não apenas permitem uma compreensão materialista e dialética da realidade, como são a manifestação consciente do proletariado na luta pela revolução. Neste dia, passando mais um aniversário de Marx, fazemos uma homenagem a partir da reflexão sobre a revolução em sua obra mais conhecida, o Manifesto Comunista, de 1848.

Não são raras as interpretações que apontam para uma natureza teleológica do marxismo, afirmando que, para essa corrente de pensamento, a revolução seria um processo que levaria inevitavelmente para o socialismo ou mesmo para o comunismo. O Manifesto Comunista seria um dos principais exemplos que expressam essa teleologia marxista, na medida em que a maior parte das leituras realizadas acerca dessa obra afirmam que os autores previam que o capitalismo logo entraria. Mas, nessa obra, de forma geral, a “iminência” da revolução que derrubaria o poder da burguesia é perceptível apenas ao final, quando se afirma:

É sobretudo para a Alemanha que se volta a atenção dos comunistas, porque a Alemanha se encontra às vésperas de uma revolução burguesa e porque realizará essa revolução nas condições mais avançadas da civilização europeia e com o proletariado infinitamente mais desenvolvido que o da Inglaterra no século XVII e o da França no século XVIII; e por que a revolução burguesa alemã só poderá ser, portanto, o prelúdio imediato de uma revolução proletária.[1]

Nos capítulos anteriores, além de levar ao público pela primeira vez de forma sistemática conceitos fundamentais do materialismo histórico, como “relações de produção” e “meios de produção”, os autores demonstram a existência de um antagonismo de classes na sociedade capitalista. Traçando comparações entre as formas de exploração do trabalho em momentos históricos anteriores, como no sistema escravista da Antiguidade ou o feudalismo medieval, Marx e Engels apontam as lutas de classes como o fundamento da “história de todas as sociedades até hoje existentes”.[2] Em sua análise do capitalismo os autores mostram o antagonismo entre a exploração capitalista e a luta do proletariado, que tem como pano de fundo as contradições das relações de exploração capitalistas, estrutural ao próprio sistema.

Marx e Engels apontam que essas contradições não são eternas, ou seja, chegaria um momento em que o proletariado derrubaria o poder da burguesia e construiria um Estado proletário. Contudo, como os autores mostram em seu texto, a dinâmica própria do capitalismo permitiria encontrar formas de superar suas crises cíclicas. Marx e Engels também apontam que a derrubada do capitalismo não seria um produto natural do antagonismo de classes entre burguesia e proletariado, mas resultado da ação política organizada dos explorados. Essa ação política organizada teria um partido à frente, reunindo os segmentos mais conscientes da classe trabalhadora. O caráter estratégico que possui a necessidade da construção do partido possivelmente mostra a principal tarefa do Manifesto comunista: apresentar uma síntese das elaborações teóricas e políticas da Liga dos Comunistas, da qual Marx e Engels eram membros, enquanto possível direção política que poderia levar o proletariado à vitória na revolução.

O Manifesto comunista foi escrito para uma conjuntura política específica, quando a Europa se via agitada pelo fantasma da revolução:

um cataclismo econômico europeu coincidiu com a visível corrosão dos antigos regimes. Um camponês que se insurgia na Galícia, a eleição de um papa “liberal” no mesmo ano, uma guerra civil entre radicais e católicos na Suíça no fim de 1847, vencida pelos radicais, uma das perenes insurreições autônomas da Sicília, em Palermo, no início de 1848, foram não só a indicação prévia do que estava para acontecer, mas se constituíam em verdadeiras comoções prévias do grande tufão.[3]

Não era apenas da boca dos socialistas – que se dividiam nas mais variadas correntes, como é mostrado em um dos capítulos do Manifesto comunista – ou dos comunistas que saía a palavra “revolução”, mas também das classes médias europeias e mesmo da burguesia. O continente todo esperava pela revolução e todas as classes, cada qual com seus próprios partidos, tinham uma compreensão do processo em marcha. O Manifesto Comunista tornou públicas as posições de um desses partidos, que em seu programa procurava expressar o projeto político do proletariado e em suas ações organizar os trabalhadores na luta contra a exploração capitalista. Pouco tempo depois da publicação do Manifesto comunista, embora não diretamente sob sua influência, foram travadas na Europa grandes jornadas de lutas:

a revolução que eclodiu nos primeiros meses de 1848 não foi uma revolução social simplesmente no sentido de que envolveu e mobilizou todas as classes. Foi, no sentido literal, o insurgimento dos trabalhadores pobres nas cidades – especialmente nas capitais – da Europa Ocidental e Central. Foi unicamente a sua força que fez cair os antigos regimes desde Palermo até as fronteiras da Rússia.[4]

O processo revolucionário colocava-se contra os resquícios do Antigo Regime, ou seja, na defesa do aprofundamento das revoluções sob direção da burguesia ocorridas nos séculos XVII e XVIII. Contudo, em 1848, esses resquícios eram defendidos pela própria burguesia, que havia se aliado aos seus antigos inimigos buscado estabilizar os regimes políticos e, dessa forma, controlar o poder do Estado. Portanto, a burguesia era também um inimigo a ser derrotado por uma revolução encabeçada pelos trabalhadores, o que explicaria a fórmula expressa no Manifesto comunista de que a burguesia, em um cenário possível, devido à pressão revolucionária, seria obrigada a reformar o regime e levar adiante algumas transformações sociais e políticas. Contudo, na continuidade desse processo, a própria burguesia viria a ser derrubada. Essa é, de forma simplificada, a fórmula da “revolução em permanência”, esboçada no Manifesto comunista, sobre a qual escreveram Marx e Engels em outro texto, redigido em 1850. Enquanto os reformistas se limitavam a comemorar as eventuais vitórias parciais, os revolucionários não poderiam se contentar com essas medidas, devendo “exacerbar as propostas dos democratas, que de qualquer modo não agirão de modo revolucionário, mas meramente reformista, e transformá-las em ataques diretos à propriedade privada”.[5]

Ainda que a exposição acerca do processo da revolução iminente feita no Manifesto comunista tenha se mostrado equivocada, essa parte conjuntural não supera em importância o conjunto das discussões apresentadas e, principalmente, a primeira exposição da dinâmica da exploração capitalista. Os autores perceberam antecipadamente a complexidade social e política dos acontecimentos que se desenrolariam naquela conjuntura, ao analisar as contradições do sistema capitalista. Mesmo que Marx e Engels não tenham conseguido prever a dinâmica exata do processo revolucionário em curso na conjuntura de 1848, vinham desenvolvendo a única forma possível de não apenas explicar aquele processo e sua dinâmica econômica e política, como também de perceber como essa conjuntura de encaixa no próprio desenvolvimento histórico do capitalismo. Na análise conjuntural, Marx e Engels parecem ter subestimado a capacidade que tinha o capitalismo em superar crises e superestimado as possibilidades do proletariado alemão, incorporando essas lições nas análises que desenvolveram posteriormente sobre tática e estratégica.

Não foi o proletariado que subiu ao poder depois dos processos revolucionários da conjuntura de 1848. O produto dessa revolução que atravessou o continente europeu foi a consolidação de governos “republicanos”, paulatinamente pondo fim aos resquícios do Antigo Regime. Marx e Engels fizeram importantes balanços daquelas revoluções, intervindo, por meio da Liga dos Comunistas e de outas organizações operárias, nos processos políticos posteriores. Além disso, deixaram como legado não apenas um rigoroso método de análise para entender as contradições e dinâmicas do capitalismo, mas também referências fundamentais para as ações táticas e estratégicas das gerações posteriores de revolucionários.

Passados mais de dois séculos desde seu nascimento, o legado de Marx e de todos aqueles que que contribuíram para o desenvolvimento de sua teoria continua vivo e ainda mobiliza trabalhadores em todo o mundo.

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Referências

[1] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 69.

[2] MARX & ENGELS, 2005, p. 40.

[3] HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: Europa 1789-1848. 10ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 332.

[4] HOBSBAWM, 1997, p. 329.

[5] MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Mensagem do comitê central à Liga dos Comunistas [1850]. ______. In: Luta de classes na Alemanha. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 74.

Este artigo é uma versão corrigida de texto anteriormente publicado no blog Espaço Acadêmico.

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