Mário Pedrosa e o trotskismo

No dia 5 de novembro completou-se 40 anos da morte de Mário Pedrosa. Nascido no dia 5 de abril de 1900, em Timbaúba (PE), Mário Pedrosa é reconhecido principalmente como um dos fundadores das primeiras organizações trotskistas no Brasil. Depois de romper com o Partido Comunista do Brasil (PCB), começa a militar nas fileiras do trotskismo, ainda na Europa, a partir de 1929. No Brasil, participou da criação do Grupo Comunista Lenin (CGL), que passa a publicar o jornal A luta de classes, em maio de 1930. Esse primeiro grupo, politicamente frágil e duramente atacado pelos stalinistas, teve uma curta existência, constituindo-se no embrião da Liga Comunista (LC), fundada em janeiro de 1931.

Coube a essa primeira geração de trotskistas elaborar algumas das primeiras e mais importantes análises sobre a situação política e econômica e o desenvolvimento histórico do Brasil, a partir de uma perspectiva marxista. Enquanto as análises stalinistas repetiam os esquemas teóricos impostos pela Internacional Comunista, Mário Pedrosa e seus camaradas procuravam fazer uma análise da situação concreta da realidade do Brasil. Um dos textos mais brilhantes desse esforço foi o chamado “Esboço de uma análise sobre a situação brasileira”. Nesse texto, Mário Pedrosa e Livio Xavier mostram a validade teórica e política do desenvolvimento desigual e combinado, central nas análises de Trotsky. Em certo momento, Pedrosa e Xavier afirmam:

“As lutas políticas que a República conheceu até agora e que se produzem, geralmente, por ocasião das eleições presidenciais, desenrolam-se ao redor dos grupos políticos dominantes no estado de São Paulo. A diferenciação econômica entre os estados da federação acentua-se cada vez mais. A burguesia de São Paulo, aliada à de Minas Gerais, conquistou o governo federal. Os representantes parlamentares dos estados secundários tornaram-se representantes do poder central nos estados, ao invés de – segundo a ficção constitucional – representar os estados juntos ao poder central. Mas o processo econômico estendeu-se pouco a pouco a todo o território brasileiro e o capitalismo penetrou todo o Brasil, transformando as bases econômicas mais retardatárias. À medida que progride economicamente, o Brasil integra-se cada vez mais à economia mundial e entra na esfera de atração imperialista. Com a Grande Guerra e o protecionismo, o crescimento industrial acentuou-se, complicando as relações de classe e os problemas decorrentes”.1

Contudo, apesar da extrema qualidade nas análises realizadas pelos trotskistas, a realidade concreta se mostrou bastante difícil para a pequena organização recém-fundada. Em âmbito internacional, fascismo e nazismo ganhavam força, principalmente depois da chegada de Hitler ao governo na Alemanha, em 1933. No Brasil, uma expressão disso foi a organização conhecida como Integralismo, combatida duramente pelos trotskistas. No dia 7 de outubro de 1934 ocorreu a chamada Revoada dos Galinhas Verdes, quando uma frente única antifascista, com a participação dos trotskistas, em unidade com setores do PCB e outros grupos de esquerda, dispersou um ato dos integralistas, em São Paulo.

Em âmbito internacional, depois da derrota da resistência dos trabalhadores na Espanha, Hitler e seus aliados em outros países, como é o caso de Mussolini na Itália, arrasta o mundo para mais uma guerra. Nesse processo, enquanto organização internacional, os trotskistas se dispersam. Isso se acentua principalmente depois do assassinato de Trotsky por um agente de Stalin, em agosto de 1940. Politicamente havia problemas na IV Internacional, antes mesmo do assassinato de Trotsky, como o mostrou a formação de uma tendência “antidefensistas” no SWP dos Estados Unidos. Mário Pedrosa aderiu às posições desse grupo, que discordava da posição trotskista de defesa da União Soviética diante de uma ameaça imperialista, sem defender a burocracia stalinista, e sim as conquistas da Revolução de Outubro.

Como expressão das dificuldades organizativas internacionais, no Brasil também os trotskistas se dispersaram, ainda que alguns agrupamentos tenham tentado manter um fio de continuidade, como foi o caso do PSR, uma fusão do que restou dos antigos militantes trotskistas com uma dissidência do PCB dirigida por Hermínio Sacchetta, em 1939.

Mário Pedrosa, ainda que tenha deixado a militância formal na IV Internacional, nunca deixou de lado os princípios que o moveram a ser um dos fundadores do trotskismo no país, em particular o internacionalismo, a necessidade de construir uma direção para os trabalhadores e o combate ao stalinismo. Esses posições se evidenciam em alguns de seus textos, entre os quais uma passagem de Opção brasileira, quando faz um balanço do golpe de 1964 e critica as posições desenvolvimentistas que impregnavam a esquerda na época. Nessa obra, publicada em 1966, Pedrosa afirmava:

“Não há burguesia capitalista que tenha, em seu todo, interesses globais em uma política de industrialização como querem Furtado e outros intelectuais […]. Eles só querem fábricas quando as perspectivas de lucro são tranquilas. A classe dirigente industrial brasileira decepcionou os desenvolvimentistas”.2

E completava, discutindo uma perspectiva estratégica:

“nosso paradigma não pode ser nenhum país subdesenvolvido ou mesmo industrial secundário. O nosso paradigma deve ser a Rússia dos primeiros planos quinquenais, embora muito mais modernizados. Estabelecendo um quadro de potencialidade de desenvolvimento entre o ponto de partida soviético e o ponto de partida brasileiro, verificar-se-á poder partir o nosso de um nível técnico social bem mais alto e já sob um ângulo de visão democrático e socialista”.3

Portando, diferente da maioria da esquerda, impregnada pelas ideias stalinistas e nacionalistas, para a qual a burguesia poderia ser uma aliada estratégica no Brasil, Mário Pedrosa era enfático em afirmar, por um lado, que essa era uma aliança improvável e, por outro, que deveríamos almejar os planos dos primeiros anos da tentativa de construção do socialismo na Rússia.

Pedrosa seguia como um crítico do stalinismo também no âmbito das artes. Como parte das comemorações dos 50 anos da Revolução Russa, escreveu:

“Depois da vitória de Stalin, o Partido interveio diretamente no processo interno da criação artística para pedir aos escritores e artistas um serviço 100% de propaganda em favor dos projetos de investimentos, de reformas administrativas e para prestígio de seus quadros dirigentes, e o todo coroado pelo endeusamento do Líder Supremo, cabeça coroada da burocracia. Esta, depois de vencidas as primeiras fases da guerra civil, depois de abafadas as vozes autorizadas dentro do Partido, suprimida qualquer veleidade de autonomia e democracia nos sindicatos operários, nos sovietes e por fim dentro do próprio Partido, passou a ser o grupo dirigente único e soberano, no Estado e no país”.4

Mário Pedrosa se engajou, em seus últimos anos de vida, na construção do Partido dos Trabalhadores (PT). Enquanto os stalinistas continuavam a se afogar na colaboração de classes e afundavam na lama do MDB, a antiga geração de trotskistas e algumas novas organizações que lutavam sob a bandeira da IV Internacional, participavam ativamente das amplas mobilizações dos trabalhadores que, além da independência de classe e da luta contra a ditadura, colocavam no horizonte a possibilidade de construção de um partido operário independente. Pedrosa escrevia em setembro de 1979:

“Um novo momento histórico aparece com força de projetar em todas as camadas da população, até ontem sem presença nem esperança, uma nova luz. Essa nova luz se concretiza nessa grande generalização de classe dos militantes operários que, coroando todas as suas lutas, se reúnem para formar o novo partido dos trabalhadores do Brasil, bandeira que nenhum brasileiro não-comprometido com a dominação das classes dirigentes pode desconhecer. O Partido dos Trabalhadores é o grande projeto de transformação do Brasil. Já agora ele começa por afastar de seu caminho toda essa legislação carunchosa dita trabalhista que nos oprime e especialmente oprime os que trabalham e são assalariados neste país e que nunca conseguiram ser considerados como povo, tendo sempre vivido sem as distinções que em toda parte marcam um povo”.5

Pedrosa faleceu em novembro de 1981. Na ocasião, Plínio Mello, parceiro de militância de Pedrosa desde a década de 1920, escrevi na páginas do jornal O Trabalho:

“Com a morte de Mário Pedrosa, perde o movimento operário brasileiro não só um dos líderes mais lúcidos e combativos, mas, ainda, aquele que melhor vinha interpretando através de sua atuação de militante socialista, a estratégia a ser seguida pelas novas gerações revolucionárias em nosso país. Por isso mesmo, seus ensinamentos precisam ser rememorados como tarefa fundamental destinada à formação dos novos militantes daquele movimento”.6

Essas palavras se mostram ainda atuais, passados 40 anos desde a sua morte. Pedrosa deixou um legado insubstituível para o marxismo, seja pela sua atuação política sob a bandeira da revolução, seja pelo seu papel como crítico de arte marxista, seja como intérprete da realidade brasileira. As novas gerações de trotskistas devem fazer uso desse legado no caminho para construção do partido operário mundial e suas seções nacionais.

1 Mário Pedrosa e Lívio Xavier. Esboço de uma análise sobre a situação brasileira. In: A Luta de Classe. n. 6. Ano 2. Rio de Janeiro, fev-mar. 1931.

2 Mário Pedrosa. Opção brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 237.

3 Mário Pedrosa. Opção brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 41.

4 Mário Pedrosa. A revolução nas artes. Correio da Manhã, novembro de 1967.

5 Mário Pedrosa. Sobre o PT. São Paulo, Ched Editorial, 1980.

6 Plínio Mello. Mário Pedrosa 1900-81. O Trabalho, São Paulo, nº 131, novembro de 1981, p. 10.

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