Imagem: Michel Jesus, Câmara dos Deputados

“Mamãe Falei”, o machismo e o cinismo do capitalismo

Na última sexta-feira, 04 de março, circularam as mensagens de áudio do deputado estadual de São Paulo, Arthur do Val (Podemos-SP), conhecido como “Mamãe Falei”. O deputado estava em viagem na Ucrânia sob a justificativa de prestar apoio à população. Em nome do Movimento Brasil Livre (MBL) e como seu integrante, Arthur supostamente levou alguns milhares de reais arrecadados em doações para apoiar os mais de um milhão de refugiados do país, mas o conteúdo dos áudios dissolve a anedota de bem feitoria, escancarando o real desprezo por uma população em sofrimento pela perda de suas casas, famílias e perspectivas.

Nos áudios, o deputado declara que a pobreza das mulheres ucranianas as torna “fáceis”, disse ele na mensagem: “elas olham, e eu vou te dizer, são fáceis porque elas são pobres!”.  E compara a “fila das refugiadas” às filas das baladas paulistanas “na melhor época do ano”. Como se não bastasse essa valoração repulsiva, anuncia ainda que voltaria ao país após o término da guerra, que acredita ser já no ano que vem. O motivo do deslumbramento do deputado diz respeito aos atributos físicos das mulheres da Ucrânia e, obviamente, à possibilidade de se aproveitar da vulnerabilidade econômica e social de vítimas da guerra para obter relações sexuais.

Embora afirme que suas palavras foram retiradas de contexto, o que teria gerado mal entendidos, é justamente por nenhuma palavra ter sido retirada do contexto dos horrores de uma guerra que se compreende perfeitamente o que as falas do deputado mimetizam: a exploração e o machismo, pilares da sociedade dividida em classes.

A opressão às mulheres está intimamente ligada ao sistema capitalista, pois alimenta as divisões e as diversas explorações da qual depende, o que faz do combate ao machismo, necessariamente, um combate ao capitalismo. O assédio sexual e a objetificação das mulheres é tática para sua depreciação e controle, abalando-as física e moralmente. Pesa também, neste sentido, o fato de que ao longo da experiência da humanidade, os conflitos e guerras geram consequências devastadoras. Para as mulheres (embora não só), a conquista do território e recursos incluem a violação sexual como forma de reforçar o poder e a conquista sobre a população subjugada, aproveitando-se do momento de fragilidade e vulnerabilidade.

A valoração das mulheres, neste caso, das mulheres ucranianas em situação de fragilidade, enquanto uma peça mais barata e, portanto, acessível, reproduz e reforça mais uma vez o mesmo oportunismo e dominação praticados tanto pelo deputado, quanto pelas leis de uma sociedade que se constrói a partir da desigualdade, exploração e opressão. E, nesse sentido, vale lembrar que as mulheres do Leste Europeu são umas das que mais sofrem com o tráfico internacional de mulheres e crianças para a exploração sexual em países da Europa Ocidental. A própria Ucrânia é um país com alto grau de procura para o turismo sexual organizado por uma rede criminosa, que oportunamente se instala frente à pobreza no país. Algo que tende a se agravar com a guerra em curso e toda a instabilidade provocada na região.

O deputado, ao retornar para o Brasil, retirou a pré-candidatura ao governo do estado de SP, pela qual faria dobradinha junto a Sérgio Moro na presidência. Diversas foram as mensagens de repúdio ao ocorrido, tanto de adversários políticos quanto de colegas de partido que agora se afastam de Arthur do Val para não se queimarem politicamente. Vários pedidos de cassação de seu mandato foram apresentados. O deputado se desculpou dizendo que errou e que deseja ser julgado “pelo que fez”, como se demonstrar tamanha leviandade em uma situação de crise humanitária já não fosse um comportamento hediondo.

Vale lembrar que sua postura machista e abusiva não é nova e resultado do deslumbramento ou de uma “molecagem”, como tentou justificar. Ainda em 2016, quando atuava como youtuber no seu canal digital que, hoje, lhe dá o apelido, foi autor de provocações contra estudantes mulheres secundaristas que defendiam o movimento de ocupação de escolas no Paraná. Arthur fez vídeos afrontando sexualmente as jovens, chegando a apalpar uma delas que procurou a delegacia da mulher para registro de Boletim de Ocorrência.

Sua escalada à notoriedade foi em parceria com MBL na produção de vídeos perniciosos que, longe de oferecer apoio e informação aos trabalhadores, ocupavam-se em violar espaços e intimidar pessoas que não estivessem dentro de sua métrica machista e reacionária a fim de constrangê-las, chamando isso de “denúncias”. Se valendo disso impunemente, o próprio MBL – o mesmo cujo membro Kim Kataguiri defendeu o direito à criação de um partido nazista – sustenta um falso moralismo anti-corrupção enquanto reproduz os mesmos vícios e trambiques políticos. O grupo chegou a repudiar as falas do deputado, como se não compactuasse com essa postura para tentar legitimar sua tentativa de autopromoção ao se lançar in loco para a Ucrânia.

As falas do deputado também chegaram ao atual presidente Jair Bolsonaro, que as qualificou como “asquerosas”. Pura hipocrisia, até pouco tempo Bolsonaro era aliado do MBL e de Arthur do Val, ataca-o agora por terem se tornado adversários políticos. Além disso, é amplamente conhecido o machismo de Bolsonaro, em 2019  ele declarou que o Brasil não poderia ser o país do turismo gay, mas abriu as portas do país para quem quisesse vir para “transar” com mulher, um claro incentivo ao turismo sexual.

O cinismo de Arthur do Val, e de seus pares, se fortalece na percepção da impunidade. Ele sugere, em sua defesa, que o fato de “não ter feito nada”, conforme alega, neutralizaria a gravidade de suas falas. A lógica da justiça burguesa, cumpre o papel de proteger a propriedade privada e a estrutura de uma sociedade de classes, ocupando-se em manter ares de temperança ao “punir” alguns perpetradores, enquanto pende um dos pratos da balança a favor  dos que detêm influência e poder político e econômico na sociedade. É pelo conhecimento prático deste funcionamento que o deputado confia que sairá levemente chamuscado desta situação. É o mesmo cinismo de Fernando Cury que manteve seus direitos políticos após assediar a deputada Isa Penna (PSOL-SP) ou mesmo de Jair Bolsonaro que, enquanto deputado federal, disse que a então deputada federal Maria do Rosário “não merecia ser estuprada por ser muito feia”.

Toda essa corja só tem lugar em uma sociedade profundamente degenerada e decadente, que perpetua a miséria para aplicar seus princípios oportunistas de poder e dominação em todos os níveis possíveis da existência humana. Essa escória deve ser varrida politicamente, assim como o sistema que a alimenta. Por isso, é necessário dispor de todos os instrumentos de denúncia disponíveis, fortalecendo, assim, os recursos para a luta necessária por uma sociedade livre da opressão, da exploração e do machismo.

O machismo de Arthur do Val é o machismo do sistema capitalista!

  • Pela cassação do mandato de Arthur do Val!
  • Abaixo o Machismo! Abaixo o capitalismo! Lutar pelo socialismo, por uma sociedade que liberte a mulher de toda violência e opressão!

 

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