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Maio de 1968 na França: revolta no coração do capitalismo

No início do ano de 1968, a burguesia francesa respirava uma calmaria ímpar. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a possibilidade de novos conflitos armados entre os estados europeus era nula, e as tensões entre americanos e soviéticos na cortina de ferro não passaram disso. Internamente, os serviços públicos de bom nível e o crescimento econômico do pós-guerra garantiram uma relativa paz social. Contudo, essa suposta paz capitalista encontraria seu fim naquele que se tornaria um dos mais relevantes movimentos de massa da história, que se iniciou na França e se espalhou pelo resto do mundo.

A intensidade e a rapidez com que as revoltas se espalharam surpreenderam os desavisados, a burguesia e, naturalmente, os reformistas, desesperados que eram e são para manter a paz entre explorados e exploradores. As lembranças das multidões de estudantes e trabalhadores tomando as ruas e gritando palavras de ordem revolucionárias os perturba até hoje. Por isso, eles se alinham à burguesia na tarefa de distorcer o que de fato ocorreu na França há exatos 50 anos, apresentando este importante acontecimento da história como se fosse uma espécie de puberdade tardia da juventude francesa.

Na verdade, a aparente tranquilidade que imperava na sociedade francesa escondia um descontentamento crescente da juventude e do proletariado com o regime de Charles de Gaulle. No poder a quase 10 anos, o ex-general veterano de duas guerras mundiais ocupara antes o cargo de Ministro de Assuntos Argelinos. Nessa posição, dirigiu a escalada das atrocidades cometidas pelo Exército francês na sua então colônia, tendo ajudado a articular a onda de torturas, sequestros e execuções que, décadas depois, inspiraria os militares sul-americanos.

A derrota na Argélia contribuiu para o aumento da polarização social na França. E como acontece frequentemente na luta de classes, seria a juventude a primeira a manifestar a ebulição crescente. No dia 22 de março, um grupo de estudantes e intelectuais de esquerda ocupa o prédio de administração da Sorbonne. Incapaz de atenuar o conflito, a direção aplica medidas disciplinares e, no dia 2 de maio, decide fechar o campus. Quatro dias depois, mais de 20 mil pessoas protestam contra o autoritarismo e sofrem violento ataque da gendarmerie. No dia 10, novo protesto, dessa vez com massiva presença de estudantes secundaristas, é igualmente reprimido.

Manifestação em maio 68

A partir desse momento, surge aquela que é a única força capaz de alterar a balança de forma decisiva: a classe operária. Em solidariedade aos estudantes, a CGT, até hoje a maior confederação sindical francesa, convocou uma manifestação na qual compareceram mais de 1 milhão de pessoas. A polícia, intimidada, saiu das ruas. Por toda a parte, surgiam ocupações de fábricas, prédios públicos e estações de rádio e TV, para o desespero da direção reformista da central. Somente em Paris, mais de 400 comitês populares surgiram. Nesses locais, as pessoas registravam suas queixas e debatiam os rumos da sociedade.

A situação tornou-se tão desesperadora para a burguesia que de Gaulle fugiu para a Alemanha Ocidental. Dali, ele planejava organizar uma reação sangrenta, mas não demonstrava muito entusiasmo. Afinal, o Estado burguês na França estava de joelhos. A economia nacional estava em grande parte sob o controle dos trabalhadores. A juventude seguia dando provas de sua disposição de luta. Os comitês ganhavam cada vez mais força. Todas as condições propícias para uma revolução socialista vitoriosa estavam dadas. Bastava o direcionamento dos comunistas e socialistas e o capitalismo francês, um dos mais importantes do mundo, deixaria de existir.

Mais uma vez, no entanto, o stalinismo e o reformismo uniram-se para impor uma derrota aos trabalhadores e a juventude. Utilizando a desculpa de que o Exército francês estava nos arredores da capital, ambos os partidos concordaram com a realização de novas eleições, que deram vitória à de Gaulle. Os grandes atos de rua se dissiparam. As ocupações de fábricas, universidades e outros setores vitais da economia foram desfeitas. A juventude, a faísca que desencadeou o movimento de massas, ficou desolada com tamanha traição. Os comitês regionais, que chegaram a controlar regiões inteiras de Paris e outras cidades, sumiram. Tudo em nome do eterno compromisso dos reformistas com a ordem vigente.

Desde 1968, outros movimentos de massas eclodiram no mundo, inclusive no Brasil. E, assim como ocorreu na França naquele ano, a revolução foi impedida pelo caráter traidor das direções burocráticas e reformistas do proletariado. O estudo da experiência dos trabalhadores e jovens franceses em Maio de 1968 serve para compreendermos que a tarefa do período atual segue sendo a mesma de 50 anos atrás: a derrubada do capitalismo. A única forma de obtermos a vitória é a firmeza em um programa revolucionário, bem como o apego aos trabalhadores e jovens organizados sob a bandeira do marxismo.

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