Lutar contra os especuladores da pandemia: nacionalizar as grandes empresas farmacêuticas!

As notícias sobre vacinas potencialmente viáveis mostram um raio de luz no fim do túnel. Mas, enquanto os trabalhadores sofrem a pior parte da crise do coronavírus, os principais monopólios farmacêuticos começam a comemorar.

Milhões de pessoas em todo o mundo estão alegres porque logo estará disponível uma vacina da Covid-19.

Os governos burgueses, que dão prioridade aos lucros capitalistas sobre as vidas humanas, não conseguiram conter esta pandemia. As massas não confiam nos políticos e estão colocando suas esperanças em alguma cura. Mas não há cura para a enfermidade do sistema capitalista, que buscará tirar proveito deste avanço em detrimento da humanidade.

Incerteza

A classe dominante está ansiosa por uma vacina que funcione: não porque se preocupa com as pessoas que sofrem, mas porque quer voltar à atividade econômica “normal”. Portanto, foram investidas enormes somas de dinheiro público em uma variedade de fármacos candidatos à vacina.

Dois deles, um fabricado pela empresa Moderna, com sede em Boston, e o outro pelo gigante farmacêutico americano Pfizer, em colaboração com o seu sócio alemão BioNTech, produziram resultados provisórios que sugerem que têm uma eficácia entre 90 e 95%.

Se bem sejam estas cifras alentadoras, os ensaios clínicos ainda não estão completos. Ademais, existe um processo de apresentação de aprovações antes que a vacina possa começar a ser fabricada e distribuída.

A linha de tempo para um lançamento geral ainda não está clara1. O governo conservador, por exemplo, está afirmando que será dada prioridade aos “trabalhadores-chave”. Isso não inclui os professores, que correm o risco de infecção em salas cheias.

A rápida mudança também causou preocupações compreensíveis sobre a segurança, que também poderiam criar obstáculos à vacinação em massa. A culpa disso recai diretamente nos governos burgueses, cujas mensagens contraditórias e os descuidos com que tratou a crise minaram a confiança do público.

Interesses capitalistas

No entanto, o otimismo da classe capitalista se refletiu imediatamente em uma recuperação no mercado de valores, com o FTSE 100 subindo quase uns 5%.

Essas tão necessárias vacinas representam um tempo de bonança para os capitalistas farmacêuticos e seus acionistas. Isso inclui o ministro conservador britânico, Rishi Sunak, cujo antigo fundo de cobertura, Theleme Partners, investiu muito em Moderna. Isso mostra como o Estado burguês apodrecido está ligado aos interesses capitalistas por mil fios.

Enquanto isso, a corrida por uma vacina foi cinicamente explorada como parte de um cabo de guerra entre os governos burgueses. As grandes potências imperialistas estão competindo para que seus capitalistas cruzem primeiro a linha de chegada, obtenham patentes e superem seus rivais no cenário mundial.

No entanto, com os casos de Covid-19 aumentando vertiginosamente em todo o mundo, esses desenvolvimentos são um flash de luz no fim de um túnel escuro para bilhões de trabalhadores que lutam sob a pandemia e sob a agitação econômica que ela provocou. Mas não deveríamos nos iludir sobre os motivos do engodo das grandes empresas farmacêuticas.

Pfizer e BioNTech podem ganhar US$ 13 bilhões com as vendas de sua vacina. Os Estados Unidos pediram 100 milhões de doses; a União Europeia, 200 milhões e o Reino Unido, 40 milhões.

Moderna declarou que poderia fabricar entre 500 milhões e 1 bilhão de doses de sua vacina em 2021. Isso geraria entre 14 e US$ 29 bilhões em lucros para a empresa e seus proprietários.

Apoio estatal

Apesar de o setor privado estar lucrando com a morte, todas as vacinas que estão sendo submetidas às provas da etapa 3 dependem da pesquisa e/ou do financiamento do setor público. Moderna, por exemplo, foi financiada pela “Operação Warp Speed Iniciative” da administração Trump.

Apesar de a Pfizer afirmar que “nunca recebeu dinheiro” do Estado, o produto que criou junto com BioNTech se baseia em tecnologia desenvolvida pelos governos dos Estados Unidos e Alemanha.

A Gam-Covid-Vac da Rússia foi desenvolvida pelo Ministério da Saúde e as vacinas da etapa t3 da China são procedentes do Instituto de Produtos Biológicos de Pequim e da empresa Sinovac, de participação majoritariamente estatal.

Longe de impulsionar a inovação, o setor sanitário privado simplesmente dispensa o Estado e depois embolsa as recompensas. O diretor-executivo da Pfizer, Albert Bourla (que vendeu pessoalmente suas ações pelo valor de US$ 5,6 milhões), descartou a ideia “radical” de que as empresas não deveriam esperar lucros de uma vacina contra a Covid -19.

Quem está encontrando a solução? O setor privado”, disse Bourla. Outro porta-voz corporativo adicionou: “Desde o início estivemos investindo sob risco”, porque a Pfizer só será paga se entregar uma vacina que funcione.

Mas são os trabalhadores que estão arriscando suas vidas e seus meios de subsistência diante desta pandemia mortal. Enquanto isso, esses gatos gordos procuram se enriquecer utilizando a pesquisa e os recursos financiados em primeiro lugar pelo setor público!

Propriedade e lucros

De fato, as grandes farmacêuticas esperam que as pessoas comuns e correntes paguem duas vezes por essas vacinas. A vacina Pfizer-BioNTech estará disponível nos EUA ao custo de US$ 39 por um pacote de duas injeções, enquanto a vacina da Moderna será de US$ 50.

É provável que os preços para países diferentes dos Estados Unidos variem, uma vez que ainda estão sendo negociados os contratos de suprimento. Mas Moderna já projeta uma faixa entre 32 e US$ 37 por dose. Esta tarifa terá que ser coberta individualmente ou absorvida de alguma forma pelos serviços de saúde pública que já se encontram sobrecarregados.

Já ouvimos mais de uma vez que “estamos todos no mesmo barco”. Mas, para a classe trabalhadora e para os pobres, esta é uma piada de mau gosto.

Esta injustiça é ainda mais grave no chamado mundo em desenvolvimento. Os países mais ricos já compraram a maior parte das doses dos principais fármacos candidatos. E há poucas possibilidades de que as grandes farmacêuticas coloquem os seus produtos à disposição a preços acessíveis nos países pobres. Esta não seria uma operação rentável.

As tentativas dos governos da Índia e da África do Sul para evitar que as empresas farmacêuticas façam cumprir os direitos de propriedade intelectual até que se alcance a imunidade global foram bloqueadas pelo lobby das grandes farmacêuticas.

Como assinala Oxfam, independentemente dos resultados promissores dos ensaios clínicos, a vacina terá uma “eficácia de 0%” para milhões de pessoas que não podem pagar o preço.

Lançamento

Outro aspecto descuidado desses anúncios de vacinas é a custosa questão de sua administração e armazenamento depois de fabricadas. Estimou-se que realizar a vacinação da vacina da Pfizer no Reino Unido, por exemplo, custaria US$ 2 bilhões e demoraria meses. E isso assumindo que os trabalhadores da saúde aposentados voltem para ajudar.

Os primeiros meses da pandemia revelaram quão pouco estavam equipados os sistemas de saúde, que foram devastados pela austeridade durante décadas, para uma crise como esta.

A situação é muito pior nos países atrasados. A Nigéria, por exemplo, só tem 40 mil médicos para uma população de quase 200 milhões de habitantes. Como se supõe que um país com um gasto sanitário per capita de US$ 74 (em comparação às 3mil libras esterlinas do Reino Unido) financiará um programa de vacinação em massa? Ou adquirir os custosos congeladores especializados para a vacina Pfizer-BioNTech, que deve ser armazenada a -70o C?

Este requisito também causou dores de cabeça na Grã-Bretanha, onde as desastrosas negociações do Brexit colocam a possibilidade de longas filas de caminhões de mercadorias na fronteira, nas quais estas doses de alguma forma terão que se manter a temperaturas superbaixas.

Anarquia do capitalismo

Tudo isto serve para nos lembrar que a produção sob o capitalismo é anárquica. Inclusive para os bens essenciais que salvam vidas, como as vacinas contra uma pandemia mortal, o sistema capitalista produz somente sobre a base dos lucros e não por preocupações com a vida ou as necessidades humanas.

Dizemos: nacionalizemos as empresas farmacêuticas sem indenização e sob o controle dos trabalhadores para garantir que uma vacina esteja disponível gratuitamente. Por um serviço de saúde de propriedade totalmente pública, sob o controle e gestão dos próprios trabalhadores da saúde!

Em última instância, só uma economia socialista planificada em escala internacional pode garantir que todos possam se beneficiar dos avanços da ciência médica, que devem ser liberados do domínio dos lucros.

1 Na União Europeia, estima-se que em 29 de dezembro se aprovará a aplicação da vacina Pfizer e em 9 de janeiro a de Moderna. Por outro lado, o governo britânico já autorizou a vacinação da população, começando pelos trabalhadores sanitários.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM LUCHADECLASES.ORG

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