Lenin e o combate ao reformismo

Uma das marcas mais importantes da trajetória teórico-política de Lenin foi o combate ao reformismo. Essa discussão aparece logo no começo de uma das suas obras mais importantes, o livro Que fazer?, de 1902. Antes de iniciar a polêmica diretamente com os defensores do reformismo na Rússia, como parte da disputa travada pelos revolucionários no interior do Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR), Lenin localiza as principais manifestações dessa corrente na Europa, destacando o papel teórico cumprido por Eduard Bernstein. Segundo Lenin, para esses setores “a socialdemocracia deve se transformar, de partido da revolução social, em partido democrático de reformas sociais” (Lenin, Que Fazer?). Segundo Lenin, “a exigência de que a socialdemocracia revolucionária desse uma guinada decisiva para o social-reformismo burguês foi acompanhada de uma mudança não menos decisiva no sentido da crítica burguesa de todas as ideias fundamentais do marxismo” (Lenin, Que Fazer?). O desenrolar da luta de classes veio a mostrar a correção das análises de Lenin.

O principal combate de Lenin contra o reformismo se deu especialmente em seu permanente debate com a corrente menchevique. Esse combate se expressou, entre outras questões, em torno da dinâmica da revolução na Rússia, na medida em que os mencheviques entendiam que, devido ao caráter burguês desse processo, os marxistas deveriam lutar por uma república parlamentar. O outro tema que dividiu a socialdemocracia russa passou pela forma de organização, na medida em que, para Lenin, o partido deveria ser uma organização centralizada que tinha como papel fazer com que os operários superassem as formas de luta e de consciência meramente econômicas. O combate no interior do POSDR contra os reformistas se deu até a ruptura entre bolcheviques e mencheviques, em 1912. 

No contexto dessa ruptura Lenin escreveu algumas contribuições sobre o reformismo, que, em grande medida, auxiliam a compreensão do combate ao reformismo na atual conjuntura. Em uma de suas contribuições, Lenin aponta a diferença entre, por um lado, defender reformas para organizar a luta e mobilizar os trabalhadores (portanto, enquanto tática) e, por outro, se limitar a buscar melhorias imediatas do capitalismo (portanto, estratégica). Segundo Lenin, os marxistas “reconhecem a luta por reformas, isto é, por melhorias na situação dos trabalhadores que deixam como antes o poder nas mãos da classe dominante. Mas, ao mesmo tempo, os marxistas travam a luta mais enérgica contra os reformistas, que direta ou indiretamente limitam as aspirações e a atividade da classe operária às reformas” (Lenin, Marxismo e reformismo, setembro de 1913).

O exemplo mais simples desse debate possivelmente é a reivindicação salarial que, embora não seja uma luta diretamente anticapitalista, tensiona a realidade concreta vivenciada pelos trabalhadores, na medida em que significa atacar parte do lucro que a burguesia obtém por meio da exploração do trabalho. Essas lutas, mesmo sem colocar sob ameaça imediata as relações de produção capitalistas, servem para o processo de organização e de elevação do nível de consciência dos trabalhadores. Nesse sentido, segundo Lenin, “os marxistas trabalham incansavelmente, não perdendo uma única ‘possibilidade’ de reformas e da sua utilização, não reprovando, antes apoiando e desenvolvendo atentamente, qualquer saída dos limites do reformismo tanto na propaganda como na agitação e na ação econômica de massas” (Lenin, Marxismo e reformismo, setembro de 1913).

Outra questão passa pelo apego dos reformistas às velhas estruturas, afinal sua perspectiva estratégica está na manutenção da ordem existente e não na sua derrubada para construir uma nova sociedade. Segundo Lenin, “os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de uma ou de outra classe dominante” (Lenin, As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, março de 1913). Na contemporaneidade do Brasil, esse debate remete aos reformistas que, diante da completa putrefação da Nova República, regime político construído pelo pacto entre os militares e a oposição institucional na transição do fim da ditadura, fazem uma incansável defesa da democracia. Esses setores poderiam apontar para uma nova organização política e social, mobilizando os trabalhadores contra a ordem instituída, mas preferem a aliança com setores da burguesia para salvar a instável estabilidade política. 

O necessário combate pela derrota da burguesia e pela derrubada da institucionalidade construída no capitalismo é afetado pela perspectiva reformista, que, ao se manter como a corrente hegemônica no movimento dos trabalhadores, dificulta sua luta. Segundo Lenin, “quanto mais forte é a influência dos reformistas sobre os operários tanto mais fracos são os operários, tanto mais dependentes da burguesia, tanto mais fácil é para a burguesia reduzir as reformas a nada por meio de diversos subterfúgios” (Lenin, Marxismo e reformismo, setembro de 1913). Essa tem sido uma realidade da situação no Brasil, afinal, mesmo com a disposição de luta dos trabalhadores diante dos ataques sofridos nos últimos anos, eles se veem reféns das direções reformistas, que nada mais fazem do que falar da fragilidade da força dos trabalhadores, da impossibilidade de arrancar qualquer conquista dos “fascistas” no governo e, em particular, de que não é possível mudar a situação atual se não for pela disputa institucional.

Para Lenin, os revolucionários precisam se construir como a corrente consciente do movimento operário, apresentando uma análise concreta e, portanto, uma compreensão científica da realidade e mostrando de forma irrefutável a necessidade de derrubar a ordem burguesa instituída. Os reformistas, por sua vez, não enxergam a realidade para além da democracia burguesa e se agarram à defesa da institucionalidade capitalista. Os revolucionários, ao mesmo tempo que batalham pelas conquistas imediatas dos trabalhadores, lutam por essas reinvindicações como parte um programa de transição, demonstrando que, mesmo que eventuais reformas possam trazer melhorias momentâneas, elas serão retiradas logo que a burguesia vislumbrar a possibilidade de qualquer crise. Somente com o fim do capitalismo os trabalhadores poderão garantir efetivas conquistas, o que foi demonstrado na teoria e na prática por Lenin.

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