Kirk Douglas, o artista que enfrentou a política anticomunista

Morreu na última quarta-feira (5/02), aos 103 anos em Beverly Hills, Issur Danielovitch Demsky que entrou para história do cinema com o nome de Kirk Douglas. Filho de judeus russos, nascido em Nova York, ex-combatente da US-Navy (Marinha de Guerra norte-americana) na Segunda Guerra Mundial e ex-pugilista, o ator, produtor e diretor era considerado umas das últimas lendas vivas da Era de Ouro do Cinema dos EUA, tendo conquistado em sua longa carreira três indicações ao Oscar, três ao Emmy, duas estatuetas do Globo de Ouro além de possuir uma prolífica produção filmográfica, atuando, produzindo e dirigindo.

Durante os melhores anos da irretocável carreira de Douglas – final da década de 40 e início dos anos 60 – a conjuntura política apresentava um mundo dividido em duas zonas de influência; uma capitaneada pelo imperialismo norte-americano e outra encabeçada pela burocracia que se apossou da URSS e dos demais países onde o capital havia sido expropriado. No caso dos EUA, onde o ator vivia e trabalhava, foram anos marcados por grande perseguição política e feroz propaganda anticomunista. Foram os anos do macarthismo. Longe da pretensão de desmascarar espiões soviéticos infiltrados nos EUA, a campanha tinha na realidade um caráter mais propagandístico, com o objetivo de ganhar as mentes e corações da juventude e trabalhadores norte-americanos para o sentimento anticomunista, aterrorizando-os com mentiras acerca de uma suposta ameaça de infiltração ou invasão comunista. A propaganda, os processos, julgamentos públicos e inquéritos se tornaram uma verdadeira caça às bruxas que atingiu milhares de cidadãos norte-americanos, conduzida pelo senador conservador Joseph McCarthy, que impulsionou a fundação de um Comitê de Atividades Antiamericanas no Senado dos EUA (HUAC) com o apoio do FBI, dirigido na época pelo truculento J. Edgar Hoover. Tudo era divulgado com extremo sensacionalismo na TV, no rádio e nos principais veículos impressos.

O cinema hollywoodiano, ponta-de-lança da indústria cultural norte-americana, não passou incólume por esse processo. Foi criada a Lista Negra de Hollywood, que visava “fichar” atores, diretores, roteiristas e outros profissionais técnicos de cinema, sob a acusação de “atividades comunistas e antiamericanas” baseando-se em delações fracas ou duvidosas de seus próprios colegas. Aos berros, com discursos inflamados na imprensa, McCarthy e valentões como Ronald Reagan (futuro governador republicano da Califórnia a partir de 1967 e presidente dos EUA a partir de 1981), o cowboy John Wayne e o cineasta Elia Kazan, (ex-militante do Partido Comunista dos EUA – CPUSA e maior delator da Lista) profissionais de cinema eram acusados, humilhados publicamente, sendo obrigados a prestar depoimentos ao HUAC do Senado e, em última instância, tiveram suas promissoras carreiras arruinadas: perderam seus empregos e qualquer oportunidade de recolocação já que a indústria cinematográfica, por conta de todo esse barulho, temia relações com “comunistas ou simpatizantes’’ que pudessem lhes trazer problemas com o governo. Alguns, depois de anos sem conseguir emprego, optaram pelo exílio. Kirk Douglas amargurado ao ver alguns de seus melhores amigos e colegas de trabalho arruinados, resolveu utilizar todo seu prestígio de campeão de bilheterias para bater de frente com a Lista Negra e o com macarthismo em Hollywood.

Em 1960, Douglas idealizou um grande filme épico sobre o escravo, gladiador e revolucionário Espártaco, baseado no romance histórico Spartacus de Howard Fast, o qual ele iria produzir e atuar no papel principal. A escolha do tema para o ousado projeto era carregada de um simbolismo que servia, naquele momento, aos propósitos de Douglas. Por séculos os relatos da obstinada e dramática luta de Espártaco e seu exército de escravos e gladiadores, na que ficou conhecida como Terceira Guerra Servil, inspirou os que lutavam contra a opressão do homem pelo homem. Não é por acaso que a fração dos revolucionários da social democracia alemã, liderados por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, no início do século 20, se proclamou  “A Liga Espartaquista”.

Espártaco foi um soldado trácio, que combatia nas tropas estrangeiras auxiliares do exército romano. Se recusando a lutar ao lado de seus opressores, desertou, foi capturado e vendido como escravo ao lanista (ex-gladiador liberto, treinador e mercador de gladiadores) Quintus Lentulus Batiatus que o tornou propriedade de sua escola de gladiadores em Cápua, na Campânia. Graças a sua grande força física e sua destreza com o gládio (espada curta romana), em pouco tempo se tornou um grande campeão das arenas, porém as péssimas condições de vida na escola de Batiatus, somadas a dureza dos castigos físicos, levou Espártaco e os outros gladiadores à rebelião e a fuga. A partir de Capua, Espártaco e pouco mais de setenta revoltosos iniciaram sua jornada por Roma libertando escravos e gladiadores, organizando com eles um formidável exército que chegou a contar com cerca de 40.000 homens. Liderados por Espártaco desbarataram as diversas expedições que o Senado de Roma enviou para debelá-los. Por fim foram derrotados pelas experimentadas legiões de Marco Crasso e Cneu Pompeu. Seis mil revoltosos foram crucificados por Crasso ao longo da Via Ápia, estrada que levava a capital, enquanto Pompeu se dirigia ao plenário do Senado para reivindicar o triunfo na guerra. O corpo de Espártaco jamais foi encontrado.

A rota de colisão do projeto cinematográfico de Douglas com a caça às bruxas de McCarthy foi marcada não apenas pelo tema do longa, mas também pela escolha do roteirista. Para o posto foi escalado Dalton Trumbo, um dos profissionais mais martirizados pelo macarthismo por ser comunista filiado ao CPUSA e por ter integrado o Hollywood Ten, um grupo de profissionais da indústria cinematográfica que se recusou a testemunhar perante uma comissão parlamentar de inquérito montada em 1947 pela Câmara dos Representantes dos EUA, para investigar a supostas atividades comunistas na indústria de cinema. Trumbo só conseguiu sustentar a si próprio e sua família durante o período da Lista Negra, se exilando no México com um casal de amigos, onde escreveu mais de trinta roteiros usando pseudônimos. Um deles The Brave One, o qual assinou como Robert Rich, foi premiado com o Oscar de melhor roteiro em 1956. Pela primeira vez, na história da Academia, um vencedor não apareceu para reivindicar o seu prêmio. Desde que havia concebido o projeto, a ideia de Kirk Douglas era que o nome de Dalton Trumbo figurasse com todas as letras nos créditos do filme como roteirista, correndo o imenso risco de afundar a produção e sua própria carreira.

Dalton Trumbo no Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado dos Estados Unidos em 1947

Rodado em Madrid, o filme contou com grandes estrelas como Jean Simmons, Laurence Olivier, Peter Ustinov e Tony Curtis, além de Kirk Douglas no papel principal. Durante as filmagens Douglas se desentendeu com o diretor Anthony Mann que foi prontamente substituído pelo visionário Stanley Kubrick. O filme Spartacus foi um sucesso estrondoso, arrecadou 60 milhões de dólares em todo mundo. Em 1961 venceu quatro Oscars nas categorias de melhor ator coadjuvante (Peter Ustinov), melhor edição de arte colorida, melhor fotografia colorida e melhor figurino colorido. Arrebatou ainda o Globo de Ouro de melhor filme e foi indicado ao BAFTA (Reino Unido). Douglas, além de exigir que o nome de Trumbo constasse nos créditos do filme, bem como em seu material publicitário, divulgou amplamente na imprensa a até então secreta autoria do roteiro e a injusta perseguição política a Trumbo e seus demais colegas, marcando assim o início do declínio da Lista Negra de Hollywood perante a opinião pública.

Em 1996 o ator Kirk Douglas, que nunca havia sido premiado pela Academia, recebeu um Oscar especial por “50 anos de modelo moral e criativo para a comunidade cinematográfica“. Mais do que sua sólida e formidável filmografia, como ator, produtor executivo e diretor, pesou na escolha o seu posicionamento firme contra a Lista Negra e o macarthismo, ajudando a fazer justiça às centenas de trabalhadores da indústria cinematográfica e aos milhares de norte-americanos levianamente perseguidos pelo aparato de Estado do seu próprio governo.

Hoje, num cenário radicalizado, onde uma crise mundial do capitalismo abala até mesmo o coração do imperialismo, milhares de jovens e trabalhadores norte-americanos se inclinam às ideias socialistas e passam a cultivá-las, apesar de todos os anos de intensa propaganda anticomunista impulsionada pelos governos, tanto republicanos quanto pelos democratas, ambos à serviço da burguesia imperialista.

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