Foto: Luisella Planeta Leoni, Pixabay

Juventude e a Educação do futuro: ensino remoto, celulares e novas tecnologias

O sistema capitalista não está apenas maduro, mas está apodrecendo em seu conjunto. Os ataques à classe trabalhadora e seus direitos conquistados é a tática do sistema capitalista para tentar sair da sua crise, que só pode ser efetivada com muito sangue extraído da classe trabalhadora.

A crise do capitalismo não se desenvolveu a partir da pandemia, visto que “antes mesmo da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a economia mundial já estava apresentando sinais de estresse: guerras comerciais, disputas protecionistas entre burguesias nacionais, queda no crescimento de grandes potências como Alemanha e China, ações supervalorizadas etc1.

E o sistema educacional brasileiro, como se enquadra na atual situação?

O fracasso das escolas públicas não é algo novo e nem um fenômeno original das aulas na modalidade do ensino remoto. Portanto, a degradante situação da educação brasileira não nasceu agora, pois tem história, tem nome e tem sofrimento; tem origem de classe.

Vejamos alguns dados sobre a situação das escolas públicas no Brasil, nos diferentes governos:

Quase metade das escolas do país (49%) não está conectada a uma rede de esgoto, cerca de 16% não contam com um banheiro no prédio, 26% não têm água encanada, 21% não possui coleta de lixo regular, de acordo com o Censo Escolar 2018, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Mais da metade das escolas (54,4%) não tem biblioteca ou sala de leitura. Cerca de 57% das escolas de ensino fundamental têm acesso à internet de banda larga. Em 44% das unidades de ensino de nível médio – 39% na rede pública e 57%, na privada – não há laboratório para ensino de ciências2.

É possível concluir que a educação escolar brasileira não assegura as condições mínimas para o estudo em seus estabelecimentos de ensino. Os dados demonstram a profunda precariedade e a incapacidade do capitalismo em garantir uma educação científica para o conjunto de crianças e jovens, seja antes ou durante a pandemia.

O capitalismo é incapaz de propagar os mais altos níveis já desenvolvidos pela humanidade, em suas diferentes ramificações do conhecimento humano, a saber: na científica, na filosófica, na arte, na cultura corporal, na física, na química, na biologia, na matemática, na cosmologia, na geografia, nas línguas e etc, para todos os estudantes. Sendo esses conhecimentos mínimos para elevar o psique humano a níveis superiores, uma humanização do indivíduo a partir do que já foi produzido pelo conjunto da humanidade.

A universalização de tais conhecimentos elevados está impedida sob as leis da propriedade privada dos meios de produção e dos estados nacionais, especialmente nos país de economia dominada como o Brasil. A Educação científica do conjunto da humanidade é travada pela incapacidade do capitalismo continuar desenvolvendo as forças produtivas em sua etapa decadente. Apenas uma sociedade socialista pode assegurar ao conjunto das crianças e jovens o acesso ao conhecimento mais elevado produzido pela humanidade. 

A proclamada salvação pela tecnologia 

A salvação dos seres humanos pelo simples desenvolvimento das tecnologias não é uma afirmação nova, mas que se repete ao longo da história e da própria ideologia capitalista, em que apontava que as mazelas sociais estariam resolvidas com os avanços tecnológicos na produção. Portanto, as tecnologias seriam neutras e aparentemente sem interesses. Entretanto, as tecnologias sob o capitalismo são produzidas para satisfazer o lucro e, sem uma mudança nas relações sociais de produção, não podem satisfazer o conjunto das necessidades humanas.

A compreensão de tecnologia para os gestores educacionais capitalistas é limitada, tal como é limitada sua própria visão dos problemas educacionais, baseada em uma mistura de salvação com neutralidade.

Para esses gestores capitais, por um lado, os culpados dos baixo indicadores educacionais são os professores, que não se comprometem com a educação e só querem fazer greves por melhores salários e etc. Os gestores excluem as condições materialmente postas na realidade educacional, tentando combinar algum grau de conhecimento científico com estruturas arcaicas, sucateadas e com baixos níveis de tecnologias.

Os gestores do capital excluem as pautas das condições de trabalho (estrutural, material e etc.) que sempre estão postas quando há greves e movimentos dos trabalhadores da educação. Escondendo também o objetivo funesto dos indicadores educacionais e sua lógica gerencial capitalista, de colocar em competição professores, aparelhos escolares, municípios e etc. O exemplo emblemático destes indicadores e da competição é o ranking do IDEB. Aparelhos escolares individualizados competindo entre si para ver quem tem mais capacidade de gerenciar a miséria e apresentar melhores rendimentos e resultados. Rendimento que apenas são números e não expressão real de uma educação.

E, por outro lado, a baixa participação dos estudantes nas aulas da Educação Remota é cheia de precedentes para culpar os estudantes e manifestar na consciência da massa do professorado a “falta de interesse pela educação por parte dos estudantes” e como conseqüência os números baixos nos indicadores de “qualidade” educacional no Brasil. No entanto, também excluindo de tal análise as condições concretas que estão inseridas nas escolas públicas e os parcos materiais disponíveis para o processo de ensino-aprendizagem. Individualizando e culpabilizando o estudante por sua condição. Excluindo a atividade da educação escolar como uma atividade coletiva e complexa, que demanda altos níveis do conjunto de tecnologias.

Ensino Remoto

Abaixo são apresentados alguns dados de um estudo sobre o percentual da população que utiliza internet e qual os equipamentos mais utilizados para acessá-la, realizado pela Coordenação de Trabalho e Rendimento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (2017-2018). Vejamos o que revela e o que esconde tal pesquisa e qual sua relação com as propostas de Aulas Remotas implementadas pelas diferentes redes de ensino. 

Uma análise rápida e descuidada dos dados pode levar à conclusão que o número de indivíduos de jovens com o acesso a celulares cresceu e que o acesso à internet é significativo. Essa afirmação camufla que quase 20,4% da população urbana e 54,5% da população rural não acessa a internet. Ou seja, esta parcela, mesmo tendo celular ou outro tipo de aparelho, não possui condições de acessar aulas ou qualquer outro tipo de atividade online. Estão objetivamente excluídas.

Na outra parte da pesquisa é observado que aqueles que acessam a internet, em sua grande maioria (99,2%), o fazem via celular. Enquanto 48% acessam via microcomputador. Além disso, os dados apontam que o uso do celular nesta pesquisa é recreativo e não para finalidade escolar.

“Dentre os objetivos do acesso à Internet pesquisados, o envio e recebimento de mensagens de texto, voz ou imagens por aplicativos (não e-mail) continua sendo o principal, indicada por 95,7% das pessoas com 10 anos ou mais de idade que utilizaram a rede”3.

Sendo assim, é possível concluir que milhares de estudantes não têm acesso a internet via notebook ou computador, que seriam equipamentos menos piores para uma “Educação Remota”. Ademais, esses dados excluem aquela porcentagem de estudantes que nem acesso a internet possuem. Ou seja, os dados são relativos apenas aos estudantes com mais de 10 anos e que tem acesso à internet. Além disso, possuir um celular, mesmo que com acesso a internet, não produz, por si só, a efetivação do ensino-aprendizagem dos estudantes, pois é um mecanismo tecnológico desenvolvido para fins recreativos e não educacionais, sem falar na qualidade da internet  e dos equipamentos (modelo, ano, programação etc.) que são variáveis importantes e não analisadas na pesquisa. 

Outro ponto que não faz parte dos objetivos da pesquisa, mas que deve ser considerado é a qualidade das habitações da classe trabalhadora que são pequenas e não possuem espaços propícios para leitura, estudo, entre outros. No Brasil a habitação da classe trabalhadora, em geral, é apenas para manter a subsistência física dos trabalhadores. Um exemplo concreto são as habitações do programa Minha Casa Minha Vida, que são de 42 m², para uma família de 4 ou 5 pessoas, em prestações dissolvidas em 35 anos, em que o valor de juros apenas serve para enriquecer banqueiro e endividar a classe trabalhadora. Sem falar nos bairros proletários, em que vive uma família em barracos de um cômodo.

O conjunto de tecnologias de qualquer processo produtivo e também processo educacional escolar não pode ser reduzido ao mero uso de celulares e plataformas online – as inserção e utilização das novas tecnologias e práticas pedagógicas -, como salvação e educação do futuro. Isso é válido tanto para educação presencial ou Ensino Remoto. 

Devemos combater a ideia de senso comum que para tornar atrativas as aulas devemos simplesmente inserir “as novas tecnologias na educação”. Afinal, essas novas tecnologias inseridas ficam apenas no limite raso da necessidade de utilizar celular, plataformas online e muita criatividade do professor e afins para despertar, em meio à miséria estrutural posta, de forma mágica, os interesses dos estudantes pelas aulas presenciais ou remotas. 

Para onde caminhar?

É preciso ter clareza que uma escola científica para as massas da classe trabalhadora não será possível na sociedade capitalista. No entanto, não é por isso que iremos deixar de lutar imediatamente por uma educação pública, gratuita e para todos. É preciso entender e ter clareza que o cumprimento das tarefas democráticas de acesso real a uma educação científica em um país atrasado como o Brasil só é possível por meio de uma revolução socialista. Para tanto é preciso permanentemente ligar a luta por uma educação pública, gratuita e para todos à luta pela revolução socialista.

  • Fora Bolsonaro, por um governo dos trabalhadores sem patrões e sem generais!
  • Pelo não pagamento da Dívida Pública! Usar o dinheiro para Educação, Saúde e Moradia.
  • Educação Pública, Gratuita e para todos!
  • Revogação da Reforma do Ensino-Médio!

Referências:

1 <https://www.marxismo.org.br/parana-diante-da-crise-entre-um-virus-um-verme-e-um-rato/>

2 <https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/01/15/depois-de-impor-teto-para-educacao-e-saude-congresso-pode-acabar-com-piso.htm?cmpid=copiaecola>

3 <https://educa.ibge.gov.br/jovens/materias-especiais/20787-uso-de-internet-televisao-e-celular-no-brasil.html>

 

 

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