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Joinville: o retorno das aulas presenciais e o risco à vida dos estudantes e de toda a sociedade

Apesar da gravidade da crise sanitária, o governo do estado de Santa Catarina continua pressionando para o retorno às aulas. No município de Joinville não é diferente. A prefeitura também pressiona para a retomada das aulas presenciais na educação básica, mesmo com o alto nível de disseminação da doença e sem vacina disponível. Várias discussões vêm acontecendo e protocolos sendo criados, mas em todos o governo omite os dados que revelam a realidade da saúde pública pediátrica no município e confirmam que não é possível o retorno das aulas em segurança.

Já se sabe que crianças e adolescentes têm uma probabilidade menor de desenvolver complicações graves e costumam apresentar poucos ou nenhum sintoma, o que as torna grandes vetores de circulação da doença. Estudos realizados por pesquisadores da Universidade de Harvard, nos EUA, publicados recentemente, apontam que crianças infectadas mostraram um nível significativamente mais alto de carga viral do Novo Coronavírus em suas vias aéreas do que adultos hospitalizados em UTI’s, para tratamento da Covid-19.

Ou seja, embora crianças e adolescentes tenham menos receptores imunológicos do vírus, o que faz com que elas sejam menos propensas a ter agravos, não significa que elas carreguem menos carga viral. Pelo contrário, são propensas a desempenhar um papel crucial na disseminação do vírus, levando a infecção do ambiente escolar para o convívio familiar, onde se encontram idosos e outros integrantes dos grupos de risco que, ao se contaminar, poderão ter complicações graves.

A rede de saúde pública do município de Joinville conta com 78 leitos de UTI para adultos com complicações graves da Covid-19, dos quais 97% permanecem ocupados. Esse percentual mostra o esgotamento do sistema de saúde municipal, ao contrário do que tenta propagar o governo, ao relaxar as medidas de segurança sanitária e apressar o retorno às aulas presenciais, colocando em risco a vida de estudantes, trabalhadores da educação e toda a sociedade.

Joinville tem hoje 125.352 estudantes na educação básica. Oficialmente 1.083 crianças e jovens, de 0 a 20 anos, foram contaminados com o Novo Coronavírus. Nove continuam internadas nas UTIs da rede pública e privada, sendo que o município conta com apenas uma unidade hospitalar de atendimento público pediátrico.*

O Hospital Infantil Dr. Jesser Amarante Faria, administrado por uma OSS (Organização Social de Saúde), que atende 25 municípios vizinhos e serve de apoio em diversas especialidades para todo o estado, conta hoje com apenas 4 leitos para atender crianças e adolescentes com complicações pela Covid-19. Destes, metade encontra-se ocupada.

Obviamente, esses números já sustentam o não retorno às aulas presenciais, simplesmente porque a saúde pública do município é absolutamente incapaz de garantir a preservação da vida dessas crianças e adolescentes. Ademais, todos os atendimentos de média e alta complexidade do município de Joinville e região estão entregues ao “terceiro setor”, nas mãos da iniciativa privada, sem estrutura adequada para atender a população, apesar de receber recursos públicos para tal, desbancando a justificativa apresentada pelos governos de incorporação da “eficiência” do setor privado em gerir os recursos públicos ao contratar essas organizações. A ineficiência desses contratos se verifica na prática, quando pacientes continuam a esperar horas na fila por um atendimento em hospitais e prontos-socorros, e as vagas são insuficientes para garantir o atendimento de todos.

Fato incontroverso é que pessoas de todas as idades podem ser infectadas. Portanto, mesmo que as evidências científicas atuais comprovem que a Covid-19 afete crianças de forma menos severa que adultos, tanto estado quanto município não têm como garantir o retorno às aulas de maneira responsável e segura.

Sem vacina, manter o isolamento social é a única alternativa segura de preservar a vida das pessoas e evitar que a situação do país, que já é catastrófica, só piore.

Aula presencial, só com vacina!

* Dados extraídos do Painel Covid-19 Joinville em 14/09/2020.

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