Foto: Roberto Parizotti

Jacarezinho: só os trabalhadores podem acabar com a violência

Vinte e nove mortos na ação da Polícia Civil no Jacarezinho dia 6 de maio, a operação mais letal do Rio de Janeiro. Quem autorizou a polícia entrar num bairro operário atirando em tudo e matando tanta gente? Quando a polícia agiu assim num bairro da burguesia? Essa grande letalidade é a configuração padrão da polícia, não é exceção. Observemos o gráfico abaixo.

Por que a polícia não atua dentro da legalidade?

A polícia identificou os mortos e afirmou que todos eram “criminosos”. Então, ela precisa provar como eles resistiram a prisão de seus agentes e como eles precisaram atirar e matar essas pessoas para se proteger ou proteger outras. Mas como fazer a perícia agora se a cena do crime foi adulterada e os corpos foram imediatamente removidos? Uma polícia que descumpre esse protocolo age fora da lei e tem algo a esconder.

Mourão, polícia e as milícias

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão afirmou:

“Tudo bandido. Entra um policial, em uma operação normal, leva um tiro na cabeça de cima de uma laje. Lamentavelmente, essas quadrilhas do narcotráfico, elas são verdadeiras narcoguerrilhas que têm controle sobre determinadas áreas.”

A polícia invadiu o Jacarezinho com métodos militares como se fosse terra estrangeira, como se seus moradores fossem inimigos, usou blindados, helicópteros durante 9 horas de pânico contra um bairro operário de 40 mil moradores. Não foi feita uma investigação e a partir daí prendeu-se suspeitos. Foi uma guerra espalhando 29 corpos em 11 locais diferentes porque ali são “todos bandidos”.

E quando Mourão diz que as favelas no Rio são “controladas pelo narcotráfico”, por que não fala das milícias também? A polícia tem feito menos operações nos territórios das milícias. Por que a polícia vai ao Jacarezinho, mas evita os locais sob domínio das milícias? Será que essa era uma operação destinada a prender suspeitos ou destinada a mudar a guarda do Jacarezinho?

Para Mourão, não existe racismo no Brasil

E “bandido” não é uma palavra que consta como vernáculo penal e legislativo. Existe suspeito, acusado, indiciado, réu, condenado, apenado, mas “bandido” não existe. Então, quando Mourão diz “é tudo bandido” é porque a sua intenção é nivelar todas essas pessoas pobres, jovens, de corpos masculinos e predominantemente negros do Jacarezinho. Mourão os nivela pelos crimes que possam ter cometidos e evoca a execução a sumária buscando justificar as mortes, prática comum da polícia racista e corrupta. Se há crime, a polícia precisa dizer quais são os crimes cometidos e a Justiça atribuir a pena para cada crime. E certamente para nenhum deles é a execução sumária.

Essa chacina, junto com a declaração do Mourão, é um caso típico de que ser negro, é ser criminoso para o Estado brasileiro. Mourão não tinha ainda a relação dos nomes das vítimas, então ele fez um (pré)julgamento, ou seja, manifestou um (pré)conceito. Para Mourão, se foi morto pela polícia, é bandido. Se é pobre e morador de um bairro operário, é bandido. Se morreu um negro e pobre, é bandido. O que Mourão quer dizer é que todos que moram no Jacarezinho são criminosos a priori sem que eles tenham sido processados e julgados, e merecem morrer por tiros da polícia.

Lutar por justiça e reforma da polícia ou organizar os trabalhadores para se defender da violência e combater pelo socialismo?

Há setores da burguesia, pequena burguesia e instituições do Estado que discutem como reformar a polícia.

As organizações dos trabalhadores também precisam combater para que avancem as propostas para a polícia se tornar menos violenta. Contudo, sem ilusões no parlamento e nas instituições do sistema. Pois enquanto o Estado burguês persistir, teremos uma polícia a serviço da propriedade privada. É necessário a construir a luta antirracista, contra a violência policial, mas sabendo conectar isso ao combate maior pelo socialismo.

Com o aumento da violência policial e a explosão das manifestações nos EUA, até o imperialismo faz uma inflexão e avançam medidas de reforma da polícia nos EUA. Pois a imagem da queima do distrito policial de Minneapolis assombra os pesadelos do imperialismo como a queda da Bastilha assombrou a aristocracia.

Os casos de violência policial acontecem com protestos dos moradores, estamos numa época em que as pessoas estão dispostas a iniciativas mais radicais.  E as principais organizações de esquerda precisam responder e serem mais ousados nos seus programas. Devem ajudar que cada protesto se junte e se unifique aos outros. Estamos vivendo um período de isolamento forçado pela pandemia, sim, mas o Estado vai seguir aumentando a violência policial até quando?

Defendemos o fim da polícia. Abaixo Bolsonaro, já! Por um Governo dos Trabalhadores, sem patrões e sem generais. E esse movimento construído pelas organizações da classe trabalhadora e da juventude, enraizado nos principais bairros operários, é capaz de realizar sua autodefesa contra os criminosos e policiais corruptos. Acreditamos que só a classe trabalhadora unida e organizada pode abrir caminho para o fim da violência e o socialismo.

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