Honduras em rebelião: ditadura ameaçada pelas massas

Há mais de três meses Honduras está em chamas, com o povo nas ruas protestando contra fraudes nas eleições de 26 de novembro. A insurreição que se espalhou pelos 18 departamentos do país exigindo o reconhecimento de vitória de Salvador Nasralla está entre os maiores movimentos de massas da história do país, com potencial revolucionário comparável à Nicarágua de 1979. Ainda assim, em 27 de janeiro, Juan Orlando Hernández (JOH) foi empossado presidente pela segunda vez, dando continuidade ao golpe de Estado que derrubou Juan Manuel Zelaya, em 2009. Isso só foi possível porque, novamente, demonstrou-se verdadeiro o que Leon Trotsky explica no Programa de Transição: “a crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária”. No entanto, este governo está agora ainda mais débil, desprestigiado, submetido a uma grande pressão dos trabalhadores e pode não chegar ao fim do mandato.

A depender da disposição de luta dos trabalhadores, JOH não teria recolocado as mãos no poder. Após as eleições, onde ficou evidente a submissão do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) à ditadura, as ruas foram tomadas e se formaram barricadas. Prefeituras foram ocupadas e incendiadas. Houve forte repressão policial e estima-se que 36 pessoas morreram. Havia um enorme impulso vindo debaixo. Nasralla e a Aliança de Oposição Contra a Ditadura foram vistos como a ferramenta para derrubar a ditadura. O povo estava disposto a dar seu sangue, não pela sua direção, mas apesar dela.

Nasralla tem origem como comentarista esportivo de televisão. Fez parte do Partido Anticorrupção, que tem caráter burguês, apresentando-se às eleições presidenciais passadas. Depois, entrou em uma aliança com o Partido Libre e com o pequeno Partido Inovação e Unidade. A força vertebral deste agrupamento, no entanto, é o Libre – único que tem uma real base de massas, mas cuja aliança tem lhe rendido uma virada à direita no programa.

A Aliança tem errado em tentar canalizar a luta popular no caminho da legalidade e da defesa das instituições. Nasralla chegou a assinar uma carta da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), comprometendo-se a aceitar os resultados do TSE. Depois, voltou atrás, mas quando a luta nas ruas atingia seu ápice, foi a Washington buscar reconhecimento. Trump, é claro, reconheceu JOH como ganhador das eleições – caminho seguido por vários países, incluindo o Brasil presidido por Temer.

Tudo isso contribuiu para que o movimento começasse a perder ânimo. A história ensina que as revoluções têm seu tempo e que ele pode ser perdido. Quando JOH foi declarado vencedor era necessário ter convocado assembleias nos sindicatos, universidades e povoados para aprovar uma greve geral e ações unificadas. Libre, Frente Nacional de Resistência Popular, sindicatos, organizações estudantis, entre outras, precisariam ter se colocado em ação. As bases do Exército deveriam ter sido chamadas a não reprimir o povo, prédios públicos deveriam ter sido ocupados e uma situação de duplo poder estabelecida. Mas isso não foi feito. Ocorreram grandes manifestações, mas não orientadas para que os trabalhadores tomassem o poder em suas mãos.

As péssimas condições de vida ao qual o povo hondurenho está submetido, no entanto, não serão melhoradas. Pelo contrário, tendem a piorar com a continuidade de um governo sanguinário, totalmente submisso ao capital internacional e imerso na crise do capitalismo. Embora JOH tenha se imposto de forma fraudulenta, a lembrança dos mortos e os ensinamentos da revolta não serão facilmente apagados. Em 29 de janeiro, a Corrente Marxista Internacional publicava: “essa luta foi uma enorme escola. É necessário unificar os setores mais conscientes da classe trabalhadora e da juventude em uma esquerda marxista, vinculada firmemente à luta revolucionária do povo, que defenda uma tática, estratégia e programa autenticamente socialistas para acabar com este Estado fraudulento e corrupto e seu apodrecido sistema capitalista. Com a imposição de JOH, a perspectiva não é de calma, mas de guerra de classes. Devemos nos preparar para as futuras batalhas.”

Honduras merece ser estudada e os ensinamentos do que lá ocorre são essenciais aos marxistas de todo o mundo.

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