Foto: Martin Vorel, Wikimedia Commons

Hollywood e os limites da política de identidades

O caso da agressão de Will Smith contra Chris Rock durante a mais recente cerimônia de entrega do Oscar fez ressurgir o tema do boicote que alguns membros da Acadêmica de Cinema fizeram em 2016. Naquele ano, na disputa dos 20 nomeados nas categorias de atuação, todos eram brancos. Diante disso, celebridades negras aderiram ao movimento #OscarSoWhite (“Oscar Branco Demais”, em tradução livre), que incluiu um boicote à cerimônia, tendo a adesão de nomes como Spike Lee, Jada Pinkett-Smith e Will Smith, que não compareceram à premiação. Esse havia sido o segundo ano consecutivo sem candidatos negros nas categorias de atuação. Chris Rock apresentou o Oscar em 2016 e fez piadas sobre Jada Smith e seu marido boicotarem a cerimônia e aderirem ao #OscarsSoWhite.

O tema das identidades ganhou novo fôlego no ano seguinte, quando o jornal The New York Times publicou matéria acusando um dos maiores executivos de Hollywood, Harvey Weinstein, de ter assediado, abusado e até estuprado dezenas de atrizes. Ao todo, mais de 89 mulheres denunciaram Weinstein, que foi sentenciado a 23 anos de prisão, além de ter sido expulso da Academia e demitido da sua produtora. No mês de outubro, pouco depois das primeiras denúncias, a atriz Alyssa Milano sugeriu no Twitter que todas as mulheres que tivessem sido sexualmente assediadas ou agredidas respondessem para ela na rede social com a hashtag #MeToo (“Eu também”, em tradução livre). Cerca de meio milhão de mulheres enviaram suas respostas nas primeiras 24 horas. 

Embora a hashtag tenha ganhado projeção apenas nesse momento, o movimento #MeToo surgiu em 2006 com o objetivo de apoiar jovens negras e pobres que sofriam assédio no trabalho e que não tinham como pagar os custos de um processo contra seus patrões. Em janeiro de 2018, mais de 300 atrizes, escritoras e diretoras de Hollywood, depois de várias denúncias de assédio, lançaram uma iniciativa de arrecadação para o fundo. A iniciativa dessas milionárias ficou conhecida como Time’s Up (“Acabou o Tempo”, em tradução livre) e também exige que mulheres ocupem mais postos de poder e liderança. O objetivo é dar apoio em processos judiciais a pessoas que sofrem assédio no trabalho. O Time’s Up Legal Defense Fund arrecadou US$ 21 milhões em apenas um mês.

Esses movimentos, ainda que tentem parecer progressistas, se caracterizam pelo fato de que são liderados por alguns dos mais bem pagos membros da Academia de Cinema. Os seus limites programáticos se devem ao fato de estarem centrados na ampliação da representativa de negros e de mulhereas na indústria cinematográfica. O debate sobre o assédio e a violência é apresentado dissociado das relações de exploração capitalista, se remetendo a uma abstrata maldade individual de algumas pessoas. Contudo, se realmente os problemas se limitassem a resolver o problema representividade, bastaria colocar mais negros ou mais mulheres aparecendo nas telas, trabalhando nas equipes de produção ou mesmo no conselho dos grandes estúdios. No caso do assédio e da violência, bastaria garantir os espaços de denúncia e investigar os casos.

Contudo, essa é uma perspectiva ilusória, que expressa uma clara perspectiva pequeno burguesa e mostra os limites das direções desses movimentos. Essas propostas até podem ter aspectos relevantes, mas estão longe de ultrapassar a superfície do problema. Uma mostra disso está no fato de que algumas medidas que não afetem a lógica de exploração foram adotadas por algumas produtoras. O próprio Oscar deve passar por mudanças, exigindo das produções a concorrer como Melhor Filme que atendam a alguns critérios. Um deles é que, entre os atores principais ou coadjuvantes importantes, pelo menos um seja asiático, hispânico, negro, indígena, do Oriente Médio, do Norte da África, havaiano ou de outras ilhas do Pacífico e outras etnias sub-representadas. Outro critério é que ao menos 30% dos atores em papéis secundários ou menores devem ser mulheres, grupos racial ou étnico, LGBTQI+ e pessoas com deficiências cognitivas ou físicas. E, o outro critério, que a história principal do filme deve ser focada em mulheres, grupos raciais ou étnicos, LGBTQI+ e pessoas com deficiências cognitivas ou físicas. Os filmes que atenderem a dois desses três critérios poderão concorrer ao principal prêmio do Oscar.

Passados anos desde o início desses movimentos, pouca coisa mudou, e em sua maioria se resumem à maior exposição dos crimes de assédio ou ao aumento na representatividade dos filmes. Sabe-se que atores não-brancos interpretaram 40% dos papéis principais em filmes lançados em 2020 e que, nos 2 anos anteriores, a média era de 27%. Quanto à participação feminina nesses papéis, chegou perto de 50%. Em âmbito mais geral, a partir das denúncias das atrizes, de outubro a dezembro de 2017, as ligações para a Rede Nacional de Denúncias de Estupro, Abuso e Incesto nos Estados Unidos aumentaram 23% em comparação com o mesmo período de 2016. Além disso, houve um aumento de 50% de processos por assédio sexual e o número de causas ganhas por discriminação aumentou em 20%.

Contudo, esses são os limites possíveis dentro da ordem capitalista. Os dados públicos sobre salários são escassos e as poucas informações que são divulgadas mostram, por exemplo, que ainda uma grande disparidade entre homens e mulheres. Isso para não falar da situação de mulheres negras, como mostra uma fala da atriz Viola Davis, em 2018:

“Eu tenho uma carreira que provavelmente é comparável a de Meryl Streep, Julianne Moore, Sigourney Weaver. Todas são contemporâneas de Yale, da [escola de música e artes cênicas] Julliard, da Universidade de Nova York. Todas percorreram o mesmo caminho que percorri e ainda assim não chego nem perto delas no que diz respeito a salário e oportunidades de trabalho. Nem um pouco”.

Contudo, para além das questões identitárias, os problemas efetivamente se expressam no antagonismo entre classes sociais, ainda que sejam diluídos na ideia de “artistas” ou “criadores”. Uma comparação pode ser feita entre o pagamento recebido por atores e atrizes com o salário de outros profissionais. Atores famosos como Harrison Ford e Robert Downey Jr., que também atuam como produtores, ganham em torno de US$ 15 ou 20 milhões por filme. Esse pagamento pode chegar a  US$ 40 milhões (ou até mais), como no caso de Will Smith em King Richard, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator. Além disso, no topo dos salários milionários podem ser encontrados os pagamentos para atrizes, como os US$ 25 milhões recebidos por Jennifer Lawrence no filme Não olhe para cima (ainda assim, um valor inferior ao de Leonardo DiCaprio pelo mesmo filme).

Esses salários milionários estão longe da realidade de outros profissionais. Entre atores e atrizes que atuam como protagonistas, não é regra um salário milionário, podendo inclusive ficar em apenas US$ 50 mil ao ano. Entre os roteiristas, os mais famosos e bem pagos não ganham mais do que US$ 5 milhões. O mais comum entre as grandes produções é pagar para os roteiristas em média US$ 550 mil por projeto. Os salários mais baixos dos roteiristas ficam em torno de US$ 27 mil por mês. No caso de outros profissionais que atuam nas produções, como maquiadores, operadores de câmera e figurinistas, os salários não são superiores a US$ 150 mil por ano. Esses salários são pagos por uma indústria que gera cerca de US$ 148 bilhões anuais.

Portanto, o que se tem é um cenário em que de fato as mulheres recebem menos que os homens ou que os negros têm menos oportunidades, mas o central está no fato de que há uma disparidade gigantesca entre os profissionais que trabalham nas produções. Portanto, ao centrar as reivindicações na melhora dos problemas mais aparentes, esconde-se as contradições determinantes da exploração capitalista. Esse cenário de exploração ficou ainda mais grave no retorno da pandemia, com a piora nas condições e na ampliação do horário de trabalho. Em setembro de 2021, o sindicato que reúne profissionais de Hollywood, divulgou que havia recebido mais de 50 denúncias sobre jornadas de trabalho de 14 horas ou mais por dia. Essa foi uma das causas para a aprovação de uma greve que no final do ano ameaçou paralisar Hollywood.

O aumento da demanda por novos conteúdos gerou enorme pressão para economizar custos e concluir projetos. Uma figurinista comentou em uma entrevista: “Há muita pressão para concretizar os projetos e depois da covid parece haver inclusive mais pressão porque as pessoas estão tentando lançar seus filmes, têm prazos a cumprir“. Outro profissional, que trabalha na parte de elétrica, comentou sobre as pressões depois do retorno da pandemia: “Tem esse frenesi, essa demanda por conteúdo para compensar o tempo perdido. Acho que o que impera é a mentalidade de ‘só termine, termine, termine’”.

Os problemas enfrentados pelos trabalhadores de Hollywood são muito mais profundos do que a reivindicação por um cinema ou por premiações com “mais negros” ou “mais mulheres”. Os grandes estúdios não passam de empresas capitalistas que exploram os trabalhadores, mantendo abismos salariais entre categorias e fazendo uso do racismo, do machismo e da homofobia para ajudar na manutenção da ordem burguesa. Movimentos como esses de hashtags que viraram moda servem apenas para retroalimentar o capitalismo, apresentando soluções de melhora aparente sem que haja mudanças nas estruturas de exploração. 

Em 2020, quando estouraram os protestos de massas contra o assassinato de George Floyd pela polícia, os principais estúdios de Hollywood divulgaram declarações de solidariedade aos negros. Diante disso, o Comitê de Escritores Negros do Sindicato dos Roteiristas divulgou uma carta aberta, onde afirmava: “Nós desafiamos vocês, os executivos de elite que aprovaram essas declarações, a começar a instituir uma mudança sistêmica real”. Claro que as mudanças não foram realizadas, mas ficou para todos o exemplo de luta de movimentos como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Somente os trabalhadores podem fazer uma mudança real, na luta pela revolução e pelo socialismo.

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