Heróica luta dos estudantes da UnB

Romper o isolamento para avançar!
por Caio Dezorzi

 

No dia 3 de Abril estudantes da UnB (Universidade de Brasília) ocuparam a reitoria da universidade com uma lista de reivindicações. Eles exigem a saída do reitor (acionado pelo Ministério Público por fazer uso de dinheiro de fundações da UnB em benefício próprio), e ainda pedem mudança do estatuto da instituição e eleições paritárias para os órgãos colegiados. A ocupação dura mais de dez dias e já conseguiu a renúncia do reitor da UnB (Timothy Mulholland) e do vice-reitor (Edgar Mamiya). Porém as pressões para que os estudantes encerrem o movimento são inúmeras. Vale destacar que no dia 4 de Abril a justiça estabeleceu multa de R$5.000,00 por hora ao Diretório Central dos Estudantes (DCE) caso os manifestantes não desocupassem o prédio. O valor já passa de um milhão e duzentos mil reais, entretanto, em assembléia ocorrida hoje (15/04) com participação de cerca de 1400 estudantes (segundo o blog da ocupação), eles decidiram permanecer na Ocupação da reitoria da UnB. Segundo a assembléia, a mobilização seguirá até que o Conselho Universitário da UnB (Consuni) se comprometa com eleições diretas e paritárias para a reitoria.
Isso me faz lembrar das ocupações na época em que eu era do DCE da Unesp e Fatec. Iniciamos a ocupação do IA (Instituto de Artes da Unesp) em 9 de Abril de 2002: nossa principal reivindicação era por moradia estudantil para os estudantes carentes (faltavam 8 vagas na moradia e os estudantes estavam dormindo na garagem). Após iniciarmos a ocupação, convocamos um Conselho de Entidades Estudantis da Unesp e Fatec (CEEUF), que ocorreu no IA ocupado. Ocupamos a reitoria da Unesp (que fica próximo à Av. Paulista) por algumas horas com cerca de 200 estudantes de diversos campi. A Unesp e Fatec têm a característica de serem “espalhadas” pelo estado de SP. Os campi se situam em 33 cidades diferentes. Isso dificulta a organização do Movimento Estudantil, mas amplia o terreno da luta. Ao sair do CEEUF os estudantes voltaram para os seus campi com a idéia de ocupar também! E as ocupações começaram a estourar em Marília, Bauru, Assis, Presidente Prudente e etc. Isso tirou a ocupação do IA do isolamento e deu mais força ao movimento. A ocupação do IA durou 51 dias. Naquele ano ocupamos por mais duas vezes a reitoria e fomos fortemente reprimidos pela polícia, quando tentamos (400 estudantes) impedir a realização da reunião do Conselho Universitário que foi trasladado de um dia para o outro para uma cidade do interior, Araçatuba (450km de São Paulo, onde o Conselho sempre se reúne). O movimento teve forte apoio de estudantes de outras universidades e dos sindicatos dos docentes e funcionários. Eu e outros estudantes do Comando de Mobilização fomos processados (e respondemos estes processos até hoje).
O tempo passou e vimos ocupações ressurgirem em várias universidades, como por exemplo na própria Unesp (2006), na USP e UFBA (2007) e agora na UnB. Por motivos diferentes os estudantes lançam mão de ocupações como meios de luta. E quando fazem isso, querendo ou não, colocam em questão quem é que “manda” na Universidade. É a questão do poder colocada na universidade. O mesmo ocorre com uma ocupação de prédio ou de terreno pelo movimento de moradia, uma ocupação de terra no campo ou uma ocupação de fábrica pelos seus trabalhadores.
Mas se a história mostrou que não existe socialismo num só país, também é válido que não existe socialismo num só prédio, numa só fazenda, numa só fábrica e nem em uma só universidade. Isso quer dizer que, mais cedo ou mais tarde, se a ocupação da UnB continuar isolada, será derrotada. Ou pelo cansaço dos estudantes ou por alguma ação repressora do Estado. A única possibilidade de vitória para os estudantes se dará se este movimento puder se espalhar para outras universidades, tirando a luta da UnB do isolamento e ganhando em tamanho e proporção até dar um salto de qualidade. Um movimento nacional de ocupações de universidade também chegaria a um ponto em que se encontraria isolado frente ao restante da sociedade. E para sair do isolamento seria necessário que o movimento operário e o movimento camponês também dessem um salto de qualidade. Com isso, passaria de uma situação onde está em questão “quem manda” dentro de uma ou de todas as universidades, para “quem manda” em toda a sociedade: ocupações de terra, de empresas, ou seja, dos meios de produção.
Isso é a luta de classes. Não existe “socialismo em uma só universidade”. E num país capitalista como o Brasil não poderia haver “socialismo nas universidades” e no resto da sociedade continuar imperando o capitalismo. Tudo está ligado. Ou o movimento se expande ou será derrotado.
É preciso portanto que a UNE e os DCEs de um grande número de universidades se coloquem em movimento, inclusive ocupando outras universidades por suas reivindicações específicas, mas ligando à luta dos estudantes da UnB por paridade. Para sair do isolamento, o movimento da UnB precisa se conectar com outros movimentos sociais, como o MST, MTST, Movimento das Fábricas Ocupadas, etc. É preciso fazer a ponte com a revolução venezuelana e os processos revolucionários que varrem a América Latina.
Entrar na linha das ZATs (Zonas Autônomas Temporárias – a invencionice pequeno-burguesa de Hakim Bey) é jogar o movimento no buraco. A saída não é ficar antevendo o fim do movimento como algo necessário, mas lutar até o fim para que este movimento possa continuar, aumentar – e que a quantidade possa proporcionar a mudança de qualidade necessária para que essa “democracia” buscada hoje pelo movimento dentro da UnB, possa ser a bandeira por “verdadeira democracia” – ou seja, socialismo – em toda a sociedade brasileira – e no mundo!