Imagem: Socialist Appeal, Flickr

Grã-Bretanha: o capitalismo no lado errado da história

Uma explosão social está se formando na Grã-Bretanha. A pandemia, o Brexit, e agora o movimento Black Lives Matter estão jogando o governo conservador de uma crise para outra. A podridão de todo o sistema capitalista está sendo rapidamente revelada.

O mundo está pegando fogo, começando com os Estados Unidos, onde o país foi tomado por uma insurgência em resposta ao assassinato por motivos raciais de George Floyd, pelas mãos da polícia. “Se o coronavírus não nos matar, a polícia o fará“, afirmou Diana Richardson, membro da Assembléia Estadual de Nova York, aos manifestantes.

Manifestações de solidariedade em todo o mundo enfatizaram que o mesmo racismo é empregado pela polícia e pelo establishment em todos os lugares, inclusive na Grã-Bretanha. Dezenas de milhares foram às ruas no Reino Unido para protestar sob a bandeira Black Lives Matter.

Em Bristol, a estátua de Edward Colston era um símbolo da escravidão. Ao derrubar este monumento, os manifestantes destacaram o passado imperialista da Grã-Bretanha e expuseram o establishment apodrecido.

Boris Johnson e Priti Patel se apressaram a denunciar os manifestantes de Bristol como “bandidos” e “criminosos”. Quando a estátua de Saddam Hussein foi derrubada no Iraque, isso foi aclamado como um ato de resistência. Mas aqui, a destruição da estátua de um comerciante de escravos foi denunciada como ilegal.

Keir Starmer, o líder trabalhista, foi mais uma vez meloso em sua resposta, condenando a estátua, mas também condenando os manifestantes por derrubá-la. O Blairista Lord Mandelson também se arrastou de sua toca para atacar o “domínio da máfia”, pedindo que os autores fossem presos e punidos.

A maioria das pessoas, no entanto, não viu isso como “dano criminoso”. Pelo contrário, viu-o como a remoção da estátua de um dos maiores criminosos da história britânica.

Racismo Tory

Johnson, que é autor de muitos comentários racistas ao longo dos anos, tentou remar para trás em seus comentários iniciais. Mas logo declarou que os ativistas enfrentariam a “força total da lei” por atos de violência e vandalismo.

O racismo é endêmico no sistema capitalista. Seus apologistas são os verdadeiros “vândalos” e autores de “violência”. A arrogância dos conservadores é de tirar o fôlego. Eles mentem em todas as ocasiões, para encobrir seus crimes.

Aqueles que foram às ruas, especialmente os jovens, estão refletindo a raiva reprimida na sociedade. Enquanto isso, os super-ricos ostentam sua riqueza: uma riqueza que foi espremida do trabalho não remunerado da classe trabalhadora; fortunas que foram acumuladas com a violência imperialista e a pilhagem colonial, e que passaram de uma geração para a seguinte.

O clima nas ruas é uma indicação do enorme acúmulo de descontentamento e indignação que existe contra todo o establishment podre e seu sistema. Os manifestantes de Black Lives Matter estão expressando a raiva da sociedade contra as injustiças e desigualdades do capitalismo.

Matt Hancock teve a audácia de afirmar que o racismo era um problema apenas nos Estados Unidos. Mas, como Dawn Butler, o parlamentar trabalhista, respondeu: “As pessoas estão bravas no Reino Unido por muitas razões. Sabemos que há racismo sistêmico no Reino Unido. A Covid destacou as graves consequências da discriminação e da pobreza. As pessoas estão bravas neste país porque o escândalo Windrush e Grenfell … destacou o racismo estrutural em nosso país. Então, dizer que esse é um problema importado é mais uma vez não ouvir e não mostrar nenhum compromisso em resolver a questão do racismo em nosso país“.

Mas esses políticos conservadores não podem resolvê-lo. Como Malcom X disse corretamente: você não pode ter capitalismo sem racismo. É o sistema capitalista podre que gera essa porcaria. A mensagem é clara: devemos acabar com o capitalismo, que promove o racismo, o machismo e discriminação de todos os tipos.

Establishment ansioso

Há uma profunda ansiedade entre a classe dominante. Eles estão tentando neutralizar o movimento com todos os tipos de promessas. Em Londres, Sadiq Khan prometeu uma “comissão” para examinar a remoção de estátuas de pessoas ligadas à escravidão. Mas isso apenas empurrará a questão com a barriga.

A fé no governo conservador está desmoronando. O índice de aprovação de Johnson ficou negativo, pois um escândalo atrás do outro abalou seu governo. Em questão de dias, caiu de +19 para -1, de acordo com o grupo de pesquisas Savanta ComRes. O escândalo de Cummings1 foi adicionado ao colapso.

Uma pesquisa recente da Opinium mostrou o apoio aos conservadores caindo rapidamente, com o partido agora apenas três pontos à frente do Partido Trabalhista. Apenas dois meses atrás, eles detinham uma vantagem de 26 pontos. A aprovação geral do governo se tornou negativa, em -2%, de acordo com dados da Savanta ComRes. Houve uma queda de 16 pontos em apenas um dia.

Sua resposta impiedosa aos protestos de Black Lives Matter prejudicará ainda mais seu apoio já em queda. Este governo dos ricos, pelos ricos, para os ricos se tornou um governo de crise.

Eles podem zombar de Donald Trump do outro lado do Atlântico, mas Johnson não é melhor. Ambos representam um sistema em declínio terminal. Eles estão indo para o bunker.

Divisões e explosões

Esses protestos não poderiam ter acontecido em pior momento para o establishment capitalista e seus fantoches conservadores. A economia britânica está caminhando para sua maior crise em 300 anos. Mas Johnson e seu governo são completamente ineptos e incompetentes na administração do país. É claro que é Dominic Cummings quem dirige o show, e Johnson é simplesmente o porta-bandeira.

A Grã-Bretanha nunca esteve tão dividida em sua história. O próprio governo enfrenta cisões Imagem: Socialist Appeal

A Grã-Bretanha se destaca por ter a maioria das mortes por Covid-19 no mundo, além dos EUA. O número do Reino Unido é mais do que o total combinado de toda a Europa, com mais de 40 mil. Isso também expôs a podridão do sistema capitalista, com os setores mais pobres da sociedade mais afetados pela doença.

A Grã-Bretanha nunca esteve tão dividida em sua história. O próprio governo está confrontado com as divisões. Até o Parlamento é considerado uma piada – mostrada  pelas cenas ridículas dos parlamentares na fila para votar. Essa foi uma ideia de Jacob Rees-Mogg, o Pai dos Comuns. A coisa toda mais parecida a uma pantomima do que à Mãe dos Parlamentos [Referência ao Parlamento Inglês – NDT]

Mas, à medida que o governo se apressa a abrir as empresas, há uma ameaça crescente de que uma segunda onda do vírus ocorra. Se isso acontecer no inverno, devastará o NHS [Sistema Nacional de Saúde – NDT]. Mas os Conservadores não se importam. Se mais pessoas morrerem, será muito ruim. Cummings simplesmente promoverá sua teoria malthusiana de “imunidade de rebanho”.

Explosão social

Além disso, estamos caminhando para um Brexit sem acordo nos próximos seis meses – mais uma calamidade para as perspectivas do capitalismo britânico. A pandemia ofuscou esse pequeno caso, que levará a economia ao extremo e a fará entrar em um poço sem fundo.

A arrogância conservadora carrega seus próprios riscos. Eles estão atiçando um vespeiro que pode derrubar o governo. Parecem alheios ao que está por vir. Eles estão completamente em frangalhos. Até a revista de direita The Economist teve que perguntar: “Este é realmente o Partido Conservador que temos diante de nós? Ou um novo partido que tem o mesmo nome?

A Grã-Bretanha entrou em um novo período de agitação e crise. Os protestos que acontecem são um barômetro do profundo descontentamento da sociedade. Estamos caminhando para uma explosão social, como nunca vimos antes.

Milhões de pessoas estão tirando conclusões radicais – até mesmo revolucionárias. O capitalismo está em seu leito de morte. Está na hora de lhe dar um fim e criar uma nova sociedade, não no interesse dos bilionários, mas no interesse das pessoas comuns que trabalham. Isso significa prepararmo-nos para a revolução britânica.

Nota:

1 Dominic Cummings, conselheiro do primeiro-ministro Boris Johnson, fez uma viagem de 425 quilômetros de carro, de Londres a Durham, nordeste da Inglaterra, no momento mais grave da crise do coronavírus, com a esposa e o filho de quatro anos. Sob forte pressão durante o fim de semana, o conselheiro explicou na segunda-feira que, temendo estar infectado pela Covid-19, os três seguiram para a casa de seus pais em Durham porque precisavam de pessoas para cuidar do filho. As viagens estavam proibidas naquele momento e os britânicos ainda não têm autorização para visitar suas famílias.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXIST.COM

Deixe Seu Comentário